Ilustrada
07/09/2006 - 05h30

Crítica: Popstar, Cullum faz alegria do marketing e se garante

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RONALDO EVANGELISTA
Colaboração para a Folha de S.Paulo

Jamie Cullum entende o que é ser um popstar. Em seu show na última terça-feira, no Via Funchal, o jovem cantor e pianista inglês entrou no palco com o cabelo desarrumado e calça jeans rasgada no joelho. Ainda nas primeiras músicas, já subiu em cima do piano, correu de um lado para o outro, derrubou o banco onde sentava, socou as teclas do piano e tocou com delicadeza.

Vendido mundo afora como um "Sinatra de tênis", milhões de discos vendidos, o rapaz hiperativo já seria a alegria de qualquer departamento de marketing se não fosse capaz de cantar ou tocar uma nota ao piano, mas tem talento suficiente para se garantir como artista. Esbanjando carisma e conquistando com facilidade todas as fãs adolescentes e casais mais adultos presentes no show, ele acha seu equilíbrio alternando entre os momentos de jazz com dinâmica rock, e de pop com roupagem jazz.

Ataca de standards como "Old Devil Moon" e "I Get a Kick Out of You" tocando um piano decente e fazendo boas improvisações vocais; faz a linha sedutor sensível em composições desavergonhadamente pop como "London Skies" e "Photograph", se mostra bom entertainer em covers de "High and Dry", do Radiohead, e "Frontin", do produtor e rapper Pharrell Williams, com direito a citação de "Don't Cha", hit do grupo pop americano Pussycat Dolls.

Maria Rita, de chapéu descolado e decote generoso, surgiu para participação apresentada como "uma boa amiga... que conheci há três horas". Pagando de diva e jogando charme para Cullum, dividiu o microfone com o dono do palco em duas músicas, uma versão de "Singin in the Rain" e a composição de Cullum "Oh God". Entre improvisos e harmonias vocais de ambos, foi um bom momento, sem muito tempo para afetações.

Cullum batuca no piano, faz beatbox com a boca, desce no meio do público, faz piadas, é de dar tudo que o público quer e fazer show para deixar todo mundo satisfeito. Um de seus grandes talentos, talvez reflexo de sua juventude, é a capacidade de manter tudo inesperado. Nenhum gesto parecia calculado, apesar de muitos provavelmente serem.

Quando, por exemplo, sacou um surdo e mandou uma bateria meio desengonçada de escola de samba, tudo parecia deliciosamente improvisado, apesar dele ter feito o mesmo em outros shows pelo Brasil e até ao vivo na TV. Talvez genuinamente impromptu tenha sido a idéia de convidar o público para subir ao palco no meio da última música, no que foi atendido por dezenas de adolescentes que se divertiram com a balbúrdia em torno do piano.

Por um momento, quando a música acabou, parecia que o tiro havia saído pela culatra. No palco, só se via o fuzuê adolescente. Seguranças não sabiam o que fazer. Cameramen que filmavam o show não sabiam onde focar. Os músicos pareciam em dúvida entre rir, ir embora ou partir para o resgate. Depois de alguns segundos, a glória final: o cantor surgiu entre os fãs na ponta do palco, a tempo de agradecer sorrindo ao público presente e rapidamente fazer desaparição estratégica rumo ao camarim. Saída perfeita para um popstar, mesmo um que toca jazz.

Avaliação: três estrelas

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