"Abraços Partidos", de Almodóvar, partiu de crise do cineasta
SILVANA ARANTES
da Folha de S.Paulo, em Buenos Aires
Quando Almodóvar se cansou de ser Almodóvar, pensou em recomeçar do zero com o nome de Harry Caine. Era uma ideia irrealizável, porque "ninguém escapa de si mesmo", explicou o cineasta espanhol em entrevista da qual a Folha participou, em maio, no Festival de Cannes, onde contou por que ficou farto de si mesmo.
Veja o trailer de "Abraços Partidos"
Penélope Cruz se diz angustiada com Almodóvar
Filme será exibido na Mostra de Cinema; veja programação completa
| Divulgação |
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| A atriz Penélope Cruz, protagonista de "Abraços Partidos", que será exibido na Mostra de São Paulo, e o diretor Pedro Almodóvar |
"Meu nome na Espanha virou um adjetivo. As pessoas dizem: "Isso é muito almodovariano". Para alguns, pode parecer glorioso, mas eu me sentia estranho. Era como se não falassem de mim. Comecei a ter nostalgia do anonimato." Como na vida real não poderia se transformar em Harry Caine, Almodóvar recorreu ao cinema, onde sua imaginação constrói pessoas e suas circunstâncias, e criou um personagem com esse nome.
O Harry Caine de "Abraços Partidos" --atração da 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e com estreia comercial prevista para 20/11-- é a segunda identidade de um cineasta em crise.
Na trama, o ponto zero da crise do diretor Mateo Blanco (Lluís Homar) é a paixão que surge entre ele e a atriz Lena (Penélope Cruz) no set de filmagens de "Chicas y Maletas" (garotas e bolsas). Lena é casada com um magnata que, atormentado pela ideia da traição, tentará usar seu poderio para impedir a conclusão e o lançamento do filme.
Como toda a história de "Abraços Partidos" gira em torno do cinema, Almodóvar não hesitou em incorporar ao filme suas próprias referências. "Chicas y Maletas" é uma refilmagem de "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos" (1988), o longa que inscreveu definitivamente a assinatura do espanhol no universo do cinema.
O figurino de Mateo é composto por roupas que Almodóvar usava nos anos 90. O diretor define "Abraços Partidos" como sua "declaração de amor ao cinema" e também a expressão de sua "paixão por Penélope Cruz".
É uma paixão sem sexo, como foram, segundo ele, todas as que viveu num set, à diferença de Mateo Blanco. "Foi uma regra que adotei para mim. Eu me sinto mais livre e independente assim. Acho negativo ir ao set com alguém com quem dormi. Mas isso não impede que minha relação com o elenco tenha muita sensualidade."
Hollywood
Em seu 17º longa, dono de uma marca pessoal tão forte que converteu seu nome em adjetivo, Almodóvar sabe exatamente o que não quer: "Não quero fazer filmes sobre heróis, anti-heróis ou super-heróis. Não faço sequências, flashbacks ou remakes".
Em resumo, Almodóvar acha que não cabe em Hollywood, onde avalia que "a técnica digital é usada em detrimento da emoção". Como nos demais filmes do cineasta, a emoção é central em "Abraços Partidos". Desta vez, porém, sem desbordamentos. A contenção chega ao ponto de uma revelação decisiva na história de dois personagens --mãe e filho-- ocorrer durante um café da manhã em que, depois da frase-bomba, um interlocutor diz ao outro: "Passe o suco, por favor".
Segundo ele, o filme mostra os personagens "depois que já choraram tudo o que tinham para chorar na vida". E não é pouco. Apreciado por boa parte da crítica, o filme não foi escolhido pela Espanha para representá-la no Oscar nem deu a Almodóvar a almejada Palma de Ouro em Cannes, que foi para "A Fita Branca", de Michael Haneke, também na mostra.
Encantar seu público e a crítica e, mesmo assim, amargar frustrações com um filme é situação recorrente na carreira do espanhol. Fora da tela, "Abraços Partidos" é também tipicamente almodovariano.
ABRAÇOS PARTIDOS
Quando: hoje, às 23h10, no Espaço Unibanco, e em outros quatro dias e locais de exibição
Classificação: 14 anos
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