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Ilustrada
20/09/2006 - 11h48

Cartuns do Holocausto têm participação maciça de brasileiros

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FAUSTO SALVADORI FILHO
da Folha Online

O concurso iraniano de sátiras ao Holocausto não fugiu a uma característica comum dos concursos internacionais de humor gráfico: a participação maciça de artistas brasileiros.

Com 21 cartunistas selecionados, o Brasil ficou em terceiro lugar em número de participantes, atrás apenas do Irã --anfitrião do evento, com 157 cartunistas-- e da Turquia, com 31.

Um dos desenhos selecionados, que mostrava um tanque com a bandeira israelense deixando atrás de si um rastro formado por pequeninas suásticas, saiu da pena do gaúcho Eloar Guazzelli, 43, dono de um traço quatro vezes premiado no Salão de Humor de Piracicaba.

Divulgação
Carlos Latuff compara os territórios palestinos aos campos de concentração nazistas
Carlos Latuff compara os territórios palestinos aos campos de concentração nazistas
Guazzelli contou à Folha Online que teve de "dar explicações" aos amigos judeus sobre sua participação no concurso iraniano --que parte da mídia ocidental qualificou de "anti-semita", rótulo que Guazzelli repudia.

"Eu jamais participaria de um concurso anti-semita. Eu não tolero o racismo", afirma o cartunista, que se define como um "militante anti-fascista". O concurso iraniano, segundo Guazzelli, foi uma oportunidade para expor sua visão sobre as ações do Estado de Israel contra os povos árabes, que, segundo ele, "seguem a mesma lógica da máquina de guerra nazista".

"Perdi minha fé na raça humana quando vi que o povo que havia sofrido o Holocausto acabou criando uma máquina de matar por razões de Estado. A lógica de usar a força para tratar questões políticas é a mesma lógica militarista do nazismo", diz. A crítica das charges, segundo ele, é dirigida à opressão do Estado israelense, não ao povo judeu. "Se Israel, por uma hipótese absurda, tivesse perdido a Guerra dos Seis Dias e fosse oprimido pelos seus vizinhos, eu estaria do lado de Israel", afirma. "Se daqui a cem anos os palestinos virarem opressores, vamos combatê-los."

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Eloar Guazzelli mostra um tanque e rastro formado por suásticas
Eloar Guazzelli mostra um tanque e rastro formado por suásticas
Guazzelli vê no humor uma das poucas oportunidades de "abrir um caminho de esperança" num mundo dividido, segundo ele, entre dois fundamentalismos: o norte-americano, liderado por George W. Bush, e o extremismo islâmico ("sendo que o pior fundamentalismo é o do Ocidente, que usa a máscara da razão").

"O humor é o último baluarte da razão", diz Guazzelli. "É a capacidade de autocrítica, de não se levar tão a sério e nem abraçar incondicionalmente nenhum projeto, que vai contra todos os fundamentalismos."

Um brasileiro contra o Likud

O principal destaque brasileiro dos cartuns do Holocausto, tanto pela quantidade como pelo destaque dos seus trabalhos na mostra, é o carioca Carlos Latuff. Conhecido internacionalmente pela militância em favor dos palestinos, Latuff chegou a ser atacado num site ligado ao partido de direita israelense Likud, que o acusou de anti-semitismo.

Em nota enviada ao site Blue Bus, o carioca falou da sua participação no concurso iraniano: "Minha participação no concurso se deu para questionar os dois pesos e duas medidas no Ocidente em relação as charges de Maomé. Ou seja, fazer caricaturas sobre profetas muçulmanos e o Islã é tido como liberdade de expressão, mas caricaturas sobre o Holocausto (que é um fato histórico e não um dogma religioso) é passível de cadeia. Também queria tratar dos holocaustos do dia-a-dia, como por exemplo, o do povo palestino que vive sob ocupação israelense há décadas (...)".

A reportagem tentou falar com Latuff, mas recebeu uma resposta sucinta por e-mail: "Nada pessoal, Fausto, mas não falo com a 'grande' imprensa".

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