Mostra de Cinema é vitrine para filmes políticos
ANA PAULA SOUSA
da Folha de S.Paulo
Para fazer "Hugo Rey e sua Donzela", Franco de Peña mudou de nome e de aparência. Filme pronto, foi acusado de usar o cinema como "arma de destruição de massas". Na Venezuela, o média-metragem, antigovernista, foi exibido apenas na TV a cabo. "Eu e outros cineastas independentes viramos alvo do governo. Não posso voltar para lá", diz Peña, que vive na Polônia.
| Divulgação |
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| Cena de "Videocracia"; filme expõe império de mídia do premiê Silvio Berlusconi |
O sueco Fredrik Gertten anda na mão inversa. Virou ídolo no próprio país e "persona non grata" nos Estados Unidos. Ele dirigiu "Bananas!", que acompanha um processo contra a Dole Foods, acusada de matar lavradores da Nicarágua, por insistir no uso de pesticidas.
Convidado a apresentar o filme em Los Angeles, Gertten começou a receber cartas ameaçadoras. "Os organizadores do festival ficaram assustados com a pressão e tiraram o filme da competição", conta. Em seguida, o cineasta foi processado pela Dole. "Solidários, os suecos deixaram de comprar produtos da empresa."
Enredos como esses, por mais que soem como intriga, são usuais no cinema atual. "É incrível como quem está no poder se incomoda com certas produções", diz Tarik Saleh, também sueco, sócio da produtora que fez um filme sobre Guantánamo e, agora, "Videocracia", petardo contra o premiê italiano Silvio Berlusconi. "Há sempre pressão. Se não fossem os festivais, muitos desses filmes não seriam vistos."
Mesmo na era da internet, são os eventos cinematográficos independentes que servem de janela à produção mais engajada. "Os festivais colocam as pessoas juntas, motivam discussões e têm uma seleção que ajuda a chamar a atenção para certos temas. Na blogosfera, os filmes políticos se perdem", reflete Richard Brouillette, diretor de "O Cerco", sobre a ditadura do neoliberalismo.
Mas qual o sentido dessa produção nesta era de informações à farta, espalhadas pelos mais diversos ambientes? "A onda de filmes políticos surgiu porque a mídia, muitas vezes, está mais ligada à propaganda e à alienação do que à informação", opina Brouillette.
A produtora israelense Yael Parlev, de "Momentos de Jerusalém", diz, inclusive, ter feito seu filme para se contrapor à mídia do país. "Os israelenses só conhecem os palestinos pelo terrorismo, mas não têm ideia do que é a vida deles", diz. "Os palestinos são invisíveis." Sentimento semelhante moveu a norte-americana radicada na França N.C. Heikin, que expõe, em "Kimjomgilia", as prisões norte-coreanas, espécie de campos de concentração, e mostra rituais que o país mantém cerrados. "É uma das situações mais absurdas do planeta e, ainda assim, pouca gente sabe o que acontece lá", diz.
A onda, de acordo com alguns realizadores, deriva ainda do sucesso angariado por Michael Moore e da repercussão de filmes como "A Corporação". "Moore mostrou aos donos de cinema que eles podem fazer dinheiro com documentários, que há público", diz Gertten.
O financiamento dessas produções, no entanto, costuma ter origem nas margens da indústria cultural. Quase todas são feitas a partir de pré-vendas para TVs públicas, sobretudo europeias, e fundos internacionais voltados ao cinema. "Kimjongilia" e "Bananas!", por exemplo, tiveram o apoio do instituto Sundance. Viajar pelo mundo é o objetivo comum.
E se há, ainda, tom de panfleto em alguns títulos, como "Hugo Rey...", a linguagem documental evoluiu e passou a pisar em terrenos antes restritos à ficção. "Videocracia" é um dos que ousa na forma. "O documentário, como gênero, desenvolveu-se muito. Filmes engajados podem ser divertidos, engraçados, emocionantes. Não precisam ser intelectualizados ou cheio de informações", define Gertten.
"O cinema é a melhor forma de transmitir emoções, de transformar as pessoas. Se conseguimos emocionar as pessoas, aumentamos a indignação, o questionamento."
| Arte | ||
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