Três volumes com diálogos de Jorge Luis Borges saem no Brasil
SYLVIA COLOMBO
editora da Ilustrada
"O diálogo é um dos melhores hábitos do homem, inventado, como quase todas as coisas, pelos gregos. Ou seja, os gregos começaram a conversar, e continuamos desde então", diz Jorge Luis Borges (1899-1986) ao discorrer sobre a qualidade literária dos bate-papos.
O tom é coloquial, as referências, como sempre em se tratando deste autor, eruditas. São assim os textos que compõem os três volumes de diálogos entre o escritor argentino e o jornalista Osvaldo Ferrari.
O conjunto é editado pela primeira vez na totalidade pela Hedra, em três títulos, "Sobre os Sonhos e Outros Diálogos", "Sobre a Filosofia e Outros Diálogos" e "Sobre a Amizade e Outros Diálogos".
Trata-se da transposição dos mais de 90 diálogos que ambos mantiveram entre 1984 e 1985. Gravados, foram veiculados inicialmente pela Rádio Municipal de Buenos Aires. Depois, publicados no jornal "Tiempo Argentino".
"Borges já estava cego, e conversar sobre os temas que o interessaram ao longo da vida era algo que lhe dava muito prazer", disse Ferrari, 61, o afortunado interlocutor, em entrevista à Folha, por telefone.
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| Livros revelam diálogos entre o escritor Jorge Luis Borges (1899-1986) e o jornalista Osvaldo Ferrari |
Quando começaram, a proposta era sempre pegar Borges de surpresa. "O assunto era eu quem escolhia, na véspera, mas só na hora revelava. Se por acaso ele descobrisse antes, mudávamos", conta.
Os dois se conheceram por meio de amigos em comum, os também escritores Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares. Ferrari era, então, muito mais novo que Borges. Tinha entre 35 e 36 anos, e o autor de "O Aleph", 84 e 85.
As entrevistas aconteciam na biblioteca da casa do escritor, e o tom cortês e respeitoso permeava todo o papo.
Leitores de Borges não estranharão os temas tratados. São, de modo geral, aqueles que habitam a obra do ficcionista: labirintos, sonhos, mitos, espelhos, memória e literatura.
A maneira como os trata, porém, impressiona pela clareza e pela objetividade. "Borges estava no momento máximo da inteligência. Tinha adquirido um imenso conhecimento e amadurecido, superado críticas e viajado. E como já estava cego há muito tempo, passava os dias em atividade de criação. Exercitava a memória, pensava, ditava versos", diz Ferrari.
O jornalista argentino conta que, apesar de não ser o tema preferido de Borges, a política o interessava naquele momento de mudanças na Argentina. O país saía de uma sangrenta ditadura militar (1976-1983), com a qual, a princípio, segundo Ferrari, Borges concordara.
"Ele dizia que um escritor podia equivocar-se. Quando os militares chegaram ao poder, teve esperança. Mas logo percebeu que não seria bom para o país e reconheceu isso."
Democracia
E como o escritor se manifestava com relação à recém-instaurada democracia? "Borges saudou-a. Queria muito que o governo de Raúl Alfonsín desse certo", afirma Ferrari.
Fica evidente nos livros a peculiar relação que Borges tinha com a Argentina. Em mais de uma passagem, refere-se ao povo do país como "europeus no desterro". A desconsideração com relação ao passado pré-conquista é grande.
Por outro lado, via a condição de exílio eterno como algo positivo, principalmente para as artes, pois, assim, os argentinos estariam livres do peso de antigas tradições locais.
Já o modo apaixonado como se refere a outros escritores conterrâneos --alguns de fora da província de Buenos Aires, como o sanjuanino Domingo Faustino Sarmiento, ou os que se dedicaram a retratar os "gauchos" do interior, como Ricardo Güiraldes--, deixa claro que tinha interesse em investigar a identidade argentina além dos limites portenhos.
Ao falar da fama internacional, de viagens para dar palestras ou receber títulos, Borges mostra-se tímido. "Não sei se minha obra merece essa atenção, eu acho que não, acredito que sou uma espécie de superstição", declara a Ferrari.
Dessas viagens, conta também anedotas curiosas, como as ocasiões em que foi questionado se eram reais algumas de suas criações, como o Aleph ou Funes --o primeiro, um ponto que abarca toda a realidade do universo numa casa em uma rua específica de Buenos Aires, o segundo, um homem que tem memória infinita.
Disputa com a viúva
Maria Kodama é a viúva de Borges e herdeira dos direitos autorais da obra do marido. Amigos e editores a acusam de fazer mau uso do tesouro que lhe foi concedido, impedindo reedições e biografias.
Com Ferrari, não foi diferente. Teve uma disputa judicial, mas o jornalista ganhou. "Meus livros são livres, como queria o próprio Borges", conclui.
SOBRE O SONHO E OUTROS DIÁLOGOS
Autores: Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari
Tradução: John O'Kuinghttons
Lançamento: Hedra
Quanto: R$ 20 (248 págs.)
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