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24/10/2006 - 09h21

"Sonhos com Shangai" exibe China contraditória na 30ª Mostra de SP

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MARIO GIOIA
da Folha de S.Paulo

Não foi uma vitória fácil. O Prêmio do Júri de Cannes-2005 dado a "Sonhos com Shangai", de certa forma surpreendente, deixou de lado bons títulos de cineastas importantes, como David Cronenberg ("Marcas da Violência"), Wim Wenders ("Estrela Solitária") e Gus Van Sant ("Last Days"), entre outros.

O júri presidido por Emir Kusturica certamente foi seduzido pela sobriedade do longa do chinês Wang Xiaoshuai (de "Bicicletas de Pequim", Grande Prêmio do Júri em Berlim-2001), que, ao tratar de uma das temáticas mais básicas de todo o cinema oriental --o conflito entre o antigo e o moderno, personificado no turbulento relacionamento entre a jovem Qing Hong (Yuanyuan Gao) e seu pai (Anlian Yao)--, paulatinamente exibe todo o desconforto e as contradições que a gigante China não vende em reuniões nas quais se apresenta como "global player".

A precisão de Xiaoshuai pode ser confundida com frieza, mas o tom de seu filme dialoga com obras mais intimistas de seus pares, como "Dezessete Anos", de Zhang Yuan, e "Nenhum a Menos", de Zhang Yimou (antes dele se render às facilidades do cinema de gênero).

"Sonhos com Shangai" é ambientado na distante província de Ghizou, região para onde são enviadas diversas famílias de grandes centros. O governo central pretendia desenvolver os grotões de um país de dimensões continentais. A capital é tema de vários diálogos, mas concretamente não passa de um sonho não-realizado.

Qing está completamente ambientada à cidade e vive as turbulências típicas da idade, que ganham tintas mais dramáticas devido à rigidez paterna. Seu pai acredita que é um exilado, não se furta a chamar o local de "fim de mundo" e condena sua mulher pela opção da mudança -aparentemente, foi ela quem preferiu mudar-se para o interior.

De um modo mais amplo, os próprios dilemas da modernidade da China se refletem nos personagens. O núcleo jovem do filme copia modismos ocidentais, tenta se rebelar contra a severidade dos costumes locais, diverte-se em festas que têm como trilha sonora um rock algo brega dos anos 80.

E é uma dessas festas que rende uma das melhores passagens de "Sonhos", quando o galã local exibe todos os seus dotes de dançarino e seduz Xiao Zhen (Xueyang Wang), a melhor amiga de Qing. O encontro festivo é abortado em razão de uma briga promovida por turmas de fábricas rivais.

Esse mimetismo alinhavado aos solavancos também acontece entre os egressos de Xangai e os "locais". O pai de Qing condena com vigor o namoro de sua filha com um jovem operário. Segue-a e manda que jogue fora presentes e cartas dados por ele. Os conflitos se acirram no terço final do filme, quando ocorre um ato violento e inesperado. As tensões do pai de Qing em seu ambiente de trabalho também chegam a um ponto insustentável, e ele toma uma decisão radical.

As manhãs cinzentas e chuvosas refletem a atmosfera nebulosa dos sentimentos dos personagens. A tristeza que perpassa grande parte dos fotogramas do longa dialoga muito com os paradoxos da China, enigmática aos olhos ocidentais e problemática para muitos de seus habitantes.

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