31/10/2006
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10h49
da Folha de S.Paulo
Ao olhar apressado do espectador da Mostra (ou de qualquer outro: o espectador sempre quer respostas imediatas), "Notícias do Lar/Notícias de Casa" pode parecer um filme decepcionante.
Afinal, nos dois primeiros filmes da série sobre uma casa em Jerusalém, o de 1980 e o de 1989 serviram à perfeição para situar certos aspectos do conflito palestino-israelense. A casa em questão representava a tomada da cidade pelos israelenses e a destituição da população palestina, a partir de 1948. Na visão de Amos Gitaï, diretor dos três filmes, a casa sintetiza um processo pelo qual a convivência entre os dois povos, num mesmo espaço, tornou-se uma hipótese remota.
Quando Gitaï retorna ao mesmo local, em 2005, as coisas parecem bem mudadas. Não só o entorno e os anexos em construção. Logo no início, Gitaï faz um longo travelling pelo muro que o então premiê Sharon mandou construir, para separar os dois mundos. Estranho monumento que consagra a separação dos dois povos e foi recebido sem grandes protestos de nenhuma parte.
No filme, o ambiente é similar. Tomemos o médico palestino que, no passado, lamentava a perda da casa e a impossibilidade de reavê-la. Seu discurso não mudou. A tristeza continua, mas agora ele está instalado e bem. Sua sobrinha (neta?-tanto faz) cresceu e parece nem se preocupar com o tema.
Do lado israelense, a ocupante da casa, uma senhora que veio da Turquia, lamenta pelos antigos habitantes e diz que a história aconteceu assim. Não há como mudá-la. A diáspora palestina acentuou-se. As pessoas espalham-se em cidades e países próximos. Não parecem mais os refugiados do passado.
Em poucas palavras, "Notícias do Lar" parece nos falar de um conflito que declina, menos por as partes terem chegado a um tipo de acordo aceitável a ambos, e mais por uma espécie de exaustão. A memória do momento inicial, 1948, aos poucos se apaga. Resta saber se novas lembranças sangrentas não tendem a tomar seu lugar.
Em todo caso, o filme confirma a impressão de que, a despeito dos radicais de parte a parte, não há saída para palestinos e israelenses a não ser a paz. Se vão construí-la doentia ou saudável é uma das questões que o filme de Amos Gitaï deixa no ar.
Especial
Saiba tudo sobre a 30ª Mostra de Cinema de SP
Longa de Gitaï explora diáspora palestina e desgaste de conflito
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INÁCIO ARAUJOda Folha de S.Paulo
Ao olhar apressado do espectador da Mostra (ou de qualquer outro: o espectador sempre quer respostas imediatas), "Notícias do Lar/Notícias de Casa" pode parecer um filme decepcionante.
Afinal, nos dois primeiros filmes da série sobre uma casa em Jerusalém, o de 1980 e o de 1989 serviram à perfeição para situar certos aspectos do conflito palestino-israelense. A casa em questão representava a tomada da cidade pelos israelenses e a destituição da população palestina, a partir de 1948. Na visão de Amos Gitaï, diretor dos três filmes, a casa sintetiza um processo pelo qual a convivência entre os dois povos, num mesmo espaço, tornou-se uma hipótese remota.
Quando Gitaï retorna ao mesmo local, em 2005, as coisas parecem bem mudadas. Não só o entorno e os anexos em construção. Logo no início, Gitaï faz um longo travelling pelo muro que o então premiê Sharon mandou construir, para separar os dois mundos. Estranho monumento que consagra a separação dos dois povos e foi recebido sem grandes protestos de nenhuma parte.
No filme, o ambiente é similar. Tomemos o médico palestino que, no passado, lamentava a perda da casa e a impossibilidade de reavê-la. Seu discurso não mudou. A tristeza continua, mas agora ele está instalado e bem. Sua sobrinha (neta?-tanto faz) cresceu e parece nem se preocupar com o tema.
Do lado israelense, a ocupante da casa, uma senhora que veio da Turquia, lamenta pelos antigos habitantes e diz que a história aconteceu assim. Não há como mudá-la. A diáspora palestina acentuou-se. As pessoas espalham-se em cidades e países próximos. Não parecem mais os refugiados do passado.
Em poucas palavras, "Notícias do Lar" parece nos falar de um conflito que declina, menos por as partes terem chegado a um tipo de acordo aceitável a ambos, e mais por uma espécie de exaustão. A memória do momento inicial, 1948, aos poucos se apaga. Resta saber se novas lembranças sangrentas não tendem a tomar seu lugar.
Em todo caso, o filme confirma a impressão de que, a despeito dos radicais de parte a parte, não há saída para palestinos e israelenses a não ser a paz. Se vão construí-la doentia ou saudável é uma das questões que o filme de Amos Gitaï deixa no ar.
Especial


