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Ilustrada
03/11/2006 - 14h32

Imigração é tema dramático na Europa, diz italiano premiado na Mostra

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da Ansa, em São Paulo

O drama da imigração africana para a Europa, temática rara no cinema europeu, foi apresentado pelo mestre italiano Vittorio De Seta na 30ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Pela atitude, o cineasta --que defende a "função cultural" do cinema-- recebeu o Prêmio Humanidades na noite de ontem na capital paulista.

Aos 83 anos, e após passar quase 20 longe do mundo do cinema, De Seta (melhor filme no Festival de Veneza de 1961 por "Banditi a Orgosolo") voltou à ativa com "Cartas do Saara", motivado em "interpretar a realidade" da dramática imigração africana, que todos os anos leva milhares de pessoas a atravessarem o Mar Mediterrâneo em busca de uma vida melhor nos países europeus.

O longa, apresentado neste ano em Veneza dentro de uma mostra especial, conta a história de um jovem imigrante clandestino do Senegal que interrompeu seus estudos para ir à Itália. De Seta, que escolheu um tema ignorado pela maior parte dos artistas italianos, conta que levou dez anos para escrever o roteiro. Como fontes de informação, ele utilizou diversos romances publicados na Itália por jovens imigrantes provenientes do norte da África.

Em conversa com a agência Ansa, o diretor afirma que escolheu o tema da imigração, "tão dramático na Itália e na Europa de um modo geral", para mostrar sua mensagem de otimismo e salientar que o cinema também possui "uma função cultural, não apenas de diversão".

"É preciso construir uma civilização multiétnica juntos. É a única solução", defende o cineasta, que lembra que "a indústria italiana também precisa disto. Estamos cheios de imigrantes trabalhando por lá, é preciso encontrar uma solução para esses milhões de pessoas que chegam do mundo todo".

Escolas

O diretor admitiu que a boa recepção do filme entre o público italiano surpreendeu a todos da equipe de trabalho. De Seta diz que foi procurado principalmente por professores e diretores de escolas públicas, que desejam exibir o filme para seus alunos devido à importância do tema tratado. "Nas escolas italianas, 10% dos alunos são estrangeiros não-europeus", diz o cineasta.

Assim, De Seta confirma sua tendência de buscar retratar a realidade no cinema, especialmente a temática dos povos marginalizados. Os pastores sardos retratados em "Banditi a Orgosolo" eram marginalizados "porque eram considerados bandidos" na Sardenha dos anos 60, enquanto os imigrantes africanos retratados em "Cartas do Saara" são marginalizados porque "passam meses como clandestinos esperando por um visto de permanência" na Itália dos anos 2000.

Sobre o público brasileiro, o diretor disse acreditar que apenas a poesia de "Cartas do Saara" poderia ser compreendida totalmente, mas "o argumento principal talvez não, pois aqui não existe esta temática da imigração". Ao longo da conversa, porém, reconheceu a semelhança com as migrações internas, especialmente do Norte e Nordeste para o sudeste do Brasil.

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