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17/11/2006 - 10h16

Mídia dos EUA é racista, acusa diretor de "Guantánamo"

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LUCIANA COELHO
da Folha de S.Paulo

Acordar as pessoas do torpor político que tomou parte do mundo quanto à guerra ao terror de George W. Bush era a meta do diretor britânico Michael Winterbottom com seu "O Caminho para Guantánamo", que estréia hoje no país.

Para tanto, o cineasta, que costuma mesclar realidade e ficção, decidiu contar a história dos Três de Tipton --três jovens muçulmanos britânicos detidos durante quase dois anos por militares americanos sem nenhuma acusação.

Munido de horas de depoimento, Winterbottom reproduziu na tela a história que Shafiq, Ruhel e Asif lhe contaram, desde outubro de 2001, quando deixaram Tipton (reduto de imigrantes islâmicos no centro da Inglaterra) rumo ao Paquistão para o casamento de Asif, até março de 2004, quando saíram de Guantánamo.

Apesar do limbo legal dos mais de 400 "combatentes inimigos" detidos na prisão dos EUA em Cuba ser um dos principais alvos das críticas ao governo Bush, foi a versão de como os Três de Tipton acabaram presos o que mais atraiu a atenção da mídia americana ao falar do filme. "Racismo" é a leitura de Winterbottom. "Se fossem três cristãos brancos que tivessem ido para algum país para ajudar quem precisasse, ninguém ia achar que eles estavam mentindo", disse o cineasta.

A seguir, trechos da entrevista do diretor à Folha, feita por telefone, de Nova Déli (Índia), onde filma "A Mighty Heart".

Folha - Como trabalhar simultaneamente com ficção e realidade?

Michael Winterbottom - Isso muda de filme para filme. Por exemplo, em "A Festa Nunca Termina" queríamos contar histórias reais, que as pessoas tivessem a sensação de que aconteceram, mas ao mesmo tempo tínhamos um compromisso um pouco mais frouxo com os fatos, o importante era narrar a experiência. Já em "O Caminho para Guantánamo" a idéia era que essas três pessoas passaram por isso, e nós tentamos contar sua história. Em vários sentidos foi bem simples: eles nos contavam o que havia acontecido, e nós tentávamos fazer disso um filme.

Folha - Uma reconstituição?

Winterbottom - Exatamente. E eu não estou falando de uma versão ficcionalizada da história. Nós nos ativemos ao que eles disseram, não tentamos criar um tipo X de personagem nem momentos dramáticos.

Folha - Como você decidiu filmar a história dos Três de Tipton?

Winterbottom - Quando foram soltos, contatamos o advogado deles. Nossas conversas duraram uns seis meses até que os três topassem a idéia. Então fomos até a casa deles e praticamente vivemos com eles por um mês --todos os dias íamos lá e gravávamos os depoimentos. Depois, tínhamos horas de gravação e cerca de 400 páginas de transcrições com a versão deles dos fatos. Isso virou uma espécie de manuscrito do filme.

Folha - A reconstituição foi baseada somente nesses depoimentos?

Winterbottom - Houve outros testemunhos que acabaram ajudando a contextualizar, como um livro escrito por um interrogador americano que foi responsável por eles em Candahar. Também para filmar a operação no Afeganistão tínhamos imagens reais de telejornais da época. Da mesma forma, para Guantánamo, também tínhamos muita filmagem de arquivo oficial para reconstituir exatamente como ela é.

Folha - Ainda assim, houve críticas na imprensa ao fato de você ter baseado o filme na versão deles.

Winterbottom - Quanto a questionarem a versão deles para ir para o Afeganistão, para mim é impossível dizer exatamente o que aconteceu. Você tem três pessoas que dizem que foram até Karachi, ouviram numa mesquita que irmãos muçulmanos precisavam de ajuda no Afeganistão e decidiram ir para lá. Eu estava nessa mesma época no Paquistão e absolutamente todo mundo com quem eu falava achava que, como bom muçulmano, deveria ajudar seus irmãos no Afeganistão. A idéia de que você precisa ser um radical ou um extremista para fazer isso é uma besteira.

Folha - Como você acha que essa experiência os afetou?

Winterbottom - Só os conheci depois, mas eles dizem ter descoberto com tudo isso uma religiosidade que não tinham.

Folha - Cinco anos após o 11 de Setembro, as platéias estão mais sensíveis a esse tipo de história?

Winterbottom - Tenho dúvidas. Normalmente eu vinha conseguindo reações positivas, mas quando mostrei o filme nos EUA, para jornalistas, havia essa inferência de que eles [os Três de Tipton] deveriam estar mentindo. Que para estar lá os caras tinham de ser terroristas, porque afinal a América tem de combater as pessoas más [fala de Bush reproduzida no filme], logo eles são pessoas más. Foi deprimente.

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