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Contos mostram conversa divina e loucura de adúltero; leia trecho
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FABIANA SERAGUSA
colaboração para a Livraria da Folha
Elogiado pelos escritores Moacyr Scliar e Fabrício Carpinejar --vencedores do Prêmio Jabuti em 2009--, o recém-lançado "O Macaco Ornamental" (Bertrand Brasil, 2009) mistura lirismo e ironia para falar de assuntos amorosos, conversas divinas e da "sensação de deslocamento do homem moderno", como define o autor estreante Luís Henrique Pellanda.
| Matheus Dias/- |
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| Jornalista e dramaturgo Luís Henrique Pellanda (foto) mistura humor, sexo e suspense em seu livro de estreia, formado por 14 contos |
Em entrevista à Livraria da Folha, o jornalista, dramaturgo, roteirista e músico Pellanda conta que demorou cerca de um ano e meio para produzir os 14 contos deste seu livro de estreia e que o fato de escrever em primeira pessoa "permite uma leitura mais rica das entrelinhas" de suas histórias.
Sobre as características de sua recente produção, o autor diz que mistura humor, sexo, amor e suspense, "mas muito diferente do praticado em thrillers ou em romances policiais". Os temas falam sobre o homem "ainda em busca de companhia e comida, amor e sexo, salvação e significação, em um mundo que parece prescindir cada vez mais de sua presença".
Abaixo, leia o impactante capítulo "Ingratidão", que se resume a um parágrafo, e o trecho inicial do "Nós, os Limpos", que mostra uma conversa divina ríspida.
*
Capítulo "Ingratidão"
Ela cuidou de mim por quinze anos, gerou e criou meus dois filhos, perdeu o terceiro no parto, me preparou cinco mil almoços, coou todos os cafés que bebi, lavou minhas roupas na mão e meu corpo durante a febre, suportou quatro surras até me afastar da bebida, lutou comigo contra o câncer e a maledicência dos que me chamavam de inconstante, mas bastou um sorriso teu, só um, pra eu desejar que ela estivesse morta.
*
Trecho do capítulo "Nós, os Limpos"
Vida nova, Senhor. Ela chegou e se estabeleceu. Por isso, sou toda alegria e contentamento; por isso, agradeço a graça concedida. Sou rebelde, mas não ingrata; inquieta, mas nunca insolente. Em respeito ao nosso passado, até prometo não gritar aleluias na Tua presença. Não rodopiar de paixão diante do Teu altar estéril, nem bater palmas ou dançar ao som quadrado da Tua banda. Também não vou me atirar, sem meias, o riso e os cabelos soltos, no colo de um ídolo de palha. Não, Você não me verá devassa, não neste mundo. Ainda não estou perdida.
| Divulgação |
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| Contos de Pellanda "conversam" com o leitor de maneira direta |
Ainda Te respeito e dignifico. Apenas abdiquei da tua salvação certa, ciente de que com isso abri um fosso aos meus pés. Pago o preço. Mas Te asseguro, sem muita emoção e com o último pingo impoluto da minha coragem, que minha vida enfim tomou o rumo reto. Entrou num eixo paralelo ao Teu. Você já sabia disso, não sabia? Sabe de tudo, não sabe? Pois está aí a primeira coisa que Te pergunto: essa minha nova condição vem de onde? É a primeira e a única coisa que Te pergunto, prometo. A minha felicidade atual, quem a determinou? Foi gerada em que ventre, por quem, a partir do quê? De uma ordem Tua aos elementos e aos anjos? Ou de um descuido Teu?
Como? Não ouço a Tua voz, faz meses que não Te escuto. Não me responde mais? Ficou surdo? Só fala com os tristes? Pois vou Te dizer o que acho desse Teu comportamento, dessa Tua distância. Acho que é birra e prepotência, coisa feia, de criança sem dente, gato gordo, cachorro pequeno. Não Te cai bem, de jeito nenhum. Não combina com Tua banca de interventor. Inclusive, só pra Te provocar, Te adianto aqui uma opinião que passei a cultivar: creio que a felicidade - a minha e talvez qualquer outra felicidade - é sempre gerada a partir de algo que não presta, de algo que é o oposto de Você.
Explico melhor, pra ver se Te desperto o gênio ruim ou algum tipo de reação enciumada. Creio que a felicidade nasce de todas aquelas coisas que, antes, pra mim, por mágica e influência Tua, nem prestar prestavam. Que pareciam não prestar, mas que no fundo prestam. Foi mesmo uma novidade pra mim, uma surpresa ver vingar essa alegria, nascida apenas do oco da minha carne eternamente irritada. É tudo que posso Te dizer por ora. Você sabe que eu não Te escondo coisa nenhuma, não sabe? Nunca Te escondi, e como poderia? Também sabe que Te dei de tudo, a vida toda. Em se tratando de louvor e oração, o que foi que Te faltou? Algum holocausto íntimo?
Minha linfa num cálice, meu sangue numa bacia? Todo mês foi Teu, cada gota dele, até a fonte secar em definitivo. Sei e reconheço que é, de novo, hora de Te celebrar e agradecer, hora de entoar hinos e compor salmos em Tua homenagem. Sempre é hora de Te engrandecer com a nossa humildade. Te conhecendo como conheço, sabendo de Tuas carências e inconstâncias, quem seria capaz de Te recusar uma hora diária de devoção e carinho?
Eu é que não, nunca. Tenho os meus medos, e Você sempre foi o maior deles. Mas também tenho minha meia dúzia de dúvidas. Sendo assim, antes de mais uma vez Te elevar qualquer cântico original, preciso esclarecer uma questão nossa, só nossa. Posso? Será que Você me permitiria pelo menos essa audácia? Como? Emudeceu? Pois fique sabendo que, a partir de hoje, tomo Teu silêncio como consentimento.
Primeira coisa: tem esse cara. Que é um cara que eu mal conheço, eu sei. Posso até pressentir a Tua reprovação dilacerando meu ombro. O sol ardido da Tua censura. A cruz de dez toneladas. Mas acontece que mentir não é comigo - e tem esse cara, que mal conheço e já amo. Na verdade, Te digo mais, Te digo melhor: já carrego esse cara dentro de mim, emparedado na lama seca do meu peito, desde o nascimento da minha alma, numa caverna aberta pela Tua mão de aço, a socos e arranhões, na pedra áspera do tempo, cinquenta mil anos atrás. Você quer saber como é que eu sei desse amor tão antigo, rival direto do Teu?
Sei lá, Senhor, impossível Te explicar qualquer coisa. Não há mistério que Te desafie. Se quiser, me explique Você mesmo. Como é que eu sei que o Senhor existe e que está me escutando? Questão de fé, intuição, palpite forte. E quando foi que essas coisas sem pé nem cabeça. Te incomodaram antes? Não é essa a dúvida, portanto. Deixei claro? Nenhuma dúvida quanto a esse amor, nenhuma. Ele aconteceu e pronto. E esse cara é o cara. Mas o que dizer dele pra Você, pra começo de conversa? Fácil: o básico.
Ou seja, aquilo que vai Te interessar logo de início, aquilo que vai te manter atento, que vai Te aproximar de mim novamente - pelo menos o bastante pra que Você me ouça. Escuta só: esse homem que eu amo é um ignorante. Sim, um ignorante, quem é que vai negar isso? Ele sequer Te conhece. Por que eu esconderia isso de Você? E por que não permitir este defeito menor a alguém tão grande, tão largo, em tantos outros sentidos? Não tão grande e largo quanto o Senhor, é claro, mas suficientemente grande e largo, compreende? Eu própria não me sinto suficiente pra ele, nem sei se o satisfaço.
Sei que Você me compreende. Apesar de dengoso, Você é bem inteligente. Você é a própria Inteligência, enquanto ele é, sim, um ignorante. Só que muito bem-sucedido. Quer saber? Ele é um desbravador - coisa que Você nunca foi e nunca vai ser, já que conhece tudo, sempre conheceu. Ele é um burro, um cavalo gigante a trotar nas nuvens, desavisado, destemido, a varar tempestades elétricas, a crina e os olhos em chamas; já Você é a tempestade e as nuvens, é a eletricidade, o destemor e as chamas, o pasto das bestas e o quartel dos querubins.
Mas é ele, só ele, que eu quero pra minha vida. E sabe por quê? Porque, ao contrário do Senhor, ele não me ignora, de modo algum. Não ignora esse amor imenso como Você, esse amor que eu dedico a ele e que - milagre - venho recebendo de volta. Pelo contrário: esse amor nosso, tão descabido e tão pouco manso, o estimula a cada minuto do seu dia. Vou facilitar as coisas pro Teu entendimento: enquanto o Teu amor me põe de joelhos, o dele me põe de quatro. Pronto, já disse. Não gostou? Me fulmine com um raio. Quer que eu me cale? Então vem, com todo o Teu cuspe e a Tua eficácia, vem e cola, bem aqui no meu palato, a minha língua astuta de mulher.
*
"O Macaco Ornamental"
Autor: Luís Henrique Pellanda
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 192
Quanto: R$ 27,20
Onde comprar: 0800-140090 ou na Livraria da Folha.
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