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"Apocalypto" reafirma obsessão de Gibson por sangue, tortura e morte
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Editor-chefe da Folha Online
Estréia hoje em São Paulo mais um polêmico filme do atormentado diretor Mel Gibson. Obcecado por sangue e momentos finais, seja da humanidade ("Mad Max") ou de Jesus ("A Paixão de Cristo"), em "Apocalypto" ele mostra sua versão dos estertores do império maia. O filme se passa entre o final do século 15 e o início do 16, quando os espanhóis chegam para implantar a nova ordem mundial.
Obsessão é a palavra que mais passa pela cabeça de quem assiste aos 124 minutos de "Apocalypto". Torturas indizíveis, sacrifícios humanos e a plebe (maia) em êxtase: eis a base de um filme que, como o próprio Gibson admite, nem precisaria de legendas. Afinal, qualquer criança entende a lei do mais forte, ainda mais quando ele também é tirânico e sádico. Mas, por favor, deixe as crianças longe disso.
| Divulgação |
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| Jaguar Paw (Rudy Youngblood), em cena de Apocalypto, que estréia em SP nesta quinta |
Sim, parece provocação grosseira quando um sacerdote maia, mãos encharcadas de sangue após retirar dois ou três corações de semelhantes vivos, se dirije à multidão histérica, aos berros: "Nós somos o povo escolhido!". À falta de provas históricas desta "auto-eleição" maia, impossível não pensar que, de novo, o "anti-semita" Gibson está cutucando seus desafetos (que nesse momento enfrentavam um pogrom do outro lado do oceano, mais um, dessa vez na Espanha).
Os maias, não os de Gibson
| Reprodução |
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| Mapa indica local da civilização maia |
Não fica claro em "Apocalypto" quem são de fato os invasores que destruirão a vida, a comunidade e a família de Jaguar Paw, o herói da trama. Aparentemente, são outros maias.
Jaguar é um guerreiro ao mesmo tempo bravo e determinado no trato social-político e amoroso e brincalhão no familiar e comunitário. Sua interessante personalidade dá o único tom humanista da película, certamente não graças ao diretor, mas sim à atuação brilhante de Rudy Youngblood (sangue jovem!). É ele (e sua família) o principal e talvez único motivo pelo qual o filme vale a pena em alguma coisa.
De resto, tudo é Gibson. Muito sofrimento, muita correria, muita perseguição implacável, que começa com a caça a uma anta e termina com a caça a uma civilização. Em termos de qualidade cinematográfica, vale citar Nicholas J. Saunders, autor de "Américas Antigas" (ed. Madras, 237 págs.):
"A imaginação dos Maias não conhecia limites quando se tratava de inventar maneiras de humilhar, torturar e finalmente sacrificar suas vítimas."
Qualquer semelhança com o que Gibson faz com o público...
Colaborou DIÓGENES MUNIZ
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