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28/01/2010 - 17h12

Leia repercussão da morte do escritor J.D. Salinger

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da Folha Online

Veja abaixo a repercussão da morte do escritor J.D. Salinger, aos 91 anos. Ele morreu de causas naturais na quarta-feira.

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"Li 'O Apanhador' na adolescência e fiquei louco com aquele livro cheio de verdades e escrito numa linguagem coloquial como eu nunca tinha visto antes. Imediatamente comecei a escrever um romance, que depois não foi pra frente. Depois, já aos vinte e poucos anos, li os outros livros do Salinger. Me impressionaram tanto quanto 'O Apanhador', ou ainda mais. Seus personagens parecem pessoas de carne e osso, e não meros fantasmas feitos de palavras. Até hoje é como se eu tivesse conhecido de fato a família Glass. Aprendi muita poesia com Seymour, e sou completamente apaixonado pela Franny."

Fabrício Corsaletti, 31, autor de "King Kong e Cervejas" e "Golpe de Ar"

"Faço parte de uma geração para a qual ele foi um grande ícone. Apesar de essa ser uma geração sem fronteiras. Não há escritor contemporâneo que tenha trabalhado com personagens jovens, para um público não necessariamente jovem, como ele. Salinger se beneficiou muito do boom da literatura magazines. A 'New Yorker' foi sua principal vitrine. A razão para o sucesso alcançado por Salinger foi aquilo que ele escreveu e aquilo que ele não escreveu, já que, no final da vida, tornou-se um recluso e parou de publicar. E a figura de um escritor que não escreve é sempre intrigante, fascinante. Isso ajudou a criar um mito."

Moacyr Scliar, médico, escritor e colunista da Folha

"As histórias do Salinger me proporcionaram alguns dos momentos mais comoventes e grandiosos da minha vida de leitor. São sofisticadas, líricas, trágicas e terrivelmente engraçadas. Sinto conhecer pessoalmente cada um de seus personagens. Sempre tive a sensação de que, apesar do sucesso de público, ele ainda não tinha sido devidamente reconhecido criticamente. É um dos maiores escritores que eu já li, e certamente o que mais teve influência na minha decisão de fazer ficção. Em 'Franny e Zooey', um dos personagens diz: 'O que eu mais adoraria, na verdade, é que todo o mundo fosse para casa'. Espero que o velho Jerome David esteja fazendo com tranquilidade seu caminho de volta ao lar."

Chico Mattoso, 31, roteirista e autor de "Longe de Ramiro"

"Gosto muito dos livros dele. Mas nunca me lembro de ter usado sua maneira de escrever como referência técnica. O Salinger chegou a me motivar porque ler os livros dele me dava muita vontade de escrever minhas próprias histórias. 'Franny & Zooey' é o meu preferido dele e teve um efeito bem mais forte em mim do que os demais livros dele. É um livro em duas partes. A segunda parte é uma longa conversa entre os dois irmãos, que tem uma profundidade de questionamento existencial, de elaboração de dilemas e questões quase espirituais que foi muito marcante."

Daniel Galera, 30, autor de "Cordilheira" e "Mãos de Cavalo"

"Li quando era garoto. Adorei. Tem uma identificação imediata com o adolescente porque tem uma dicção muito particular, tem essa coisa da família disfuncional, que é algo com o que você se identifica. Tem um texto do 'Nove Estórias' que chama 'Um Dia Bom para Peixes-Bananas' que é a história de um garoto que admira muito o irmão mais velho e que, no final, ele está narrando sem querer o enredo de um suicídio. Esse conto me marcou muito como uma coisa importante pra mim. É uma espécie de um dia na praia contado pelo irmão mais novo, a história, no subtexto, é de um cara que está desesperado e que vai acabar se matando.

Salinger criou uma imagem do recluso que foi usada pra caramba pelo Don Delillo, que usou um escritor à imagem do Salinger. O que é maravilhoso e trágico é a ideia de que não dá para ser escritor sem corresponder à expectativa dos outros. É preciso ter uma coragem muito grande para romper com esse vício. E tem uma coisa bonita na figura do Salinger, ao recusar o contato ou sucumbir ao isolamento. É uma imagem muito sedutora. É claro que tem um desespero nesse isolamento. Para não virar uma repetição de si mesmo e responder a uma ideia e a uma demanda de mercado da cultura de massa.

Quando mais ele se isolava, mais ele criava uma mística em torno da ideia do escritor e menos ele conseguia sair daquilo. É quase como se fosse um suicídio. É um puta escritor, de primeiro time."

Bernardo Carvalho, 49, autor de "Nove Noites" e "O Sol se Põe em São Paulo"

 

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