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21/02/2007 - 17h24

Gays fazem revolução no Chile; leia destaques GLS

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SÉRGIO RIPARDO
Enviado Especial da Folha Online a Santiago

O Chile vive uma revolução dos costumes. Além de surgirem novas atrações para o público GLS, o país católico do ditador Augusto Pinochet, que morreu em dezembro, prepara-se para autorizar as uniões civis de casais homossexuais, ainda neste ano. O projeto tem o apoio de Michelle Bachelet, eleita em 2006 a primeira mulher presidente da América do Sul.

Sérgio Ripardo/Folha Online
Estátuas masculinas no parque Balmaceda; veja fotos de Santiago
Estátuas masculinas no parque Balmaceda; veja fotos de Santiago
Com isso, o Brasil será superado por mais um irmão sul-americano no capítulo "avanços dos direitos humanos". Em 2003, Buenos Aires, capital argentina, foi pioneira na América Latina, igualando os direitos dos casais gays (como saúde, previdência conjunta, patrimônio e herança) aos de héteros. Nada de novo no mundo, já que o Brasil foi um dos últimos a acabar com a escravidão, no fim do séc. 19.

Ontem (20), a principal ONG gay do Chile divulgou relatório sobre as denúncias registradas em 2006. Houve uma queda de 15% no número de casos de discriminação, segundo o presidente do Movilh (Movimento de Integração e Libertação Homossexual), Rolando Jiménez. Foram 49 ocorrências (assassinatos, agressões, violência policial ou constrangimentos em espaços público ou privado).

Pela primeira vez, a Igreja Católica chilena deixou de ser incluída na lista das instituições com registro de declaração homofóbica no ano. Mas o relatório desfaz uma avaliação cor-de-rosa com a queda de 15% dos casos em 2006, lembrando que, em 2005, o número já havia subido 50%. Além disso, o país ainda registra violência contra gays, como abusos cometidos por "carabineros", como são chamados os policiais.

Divulgação/Nowpublic.com
Homens se beijam durante parada de Santiago, na Alameda, principal via da capital chilena
Homens se beijam durante parada de Santiago, na Alameda, principal via da capital chilena
Mesmo assim, Santiago se esforça para superar a imagem do passado conservador e ficar na vanguarda do comportamento, promovendo a "tolerância de gêneros", expressão muito usada pela presidente Bachelet, filha de militar, mãe de uma filha e com estado civil de "separada".

Nas ruas, não é difícil ouvir reações machistas à administração de Bachelet --metade dos ministérios está nas mãos de mulheres, e seu principal desafio é melhorar o sistema de educação do país, que no passado foi exemplo para a América Latina, mas foi sucateado nas últimas décadas. No ano passado, milhares de estudantes foram às ruas para protestar e se confrontaram com a polícia.

Os militantes gays aproveitam a simpatia da presidente no lobby para aprovar nos próximos meses no Congresso o projeto de união civil. Em julho do ano passado, a parada gay de Santiago reuniu 10 mil pessoas. Ainda é pouco, mas já é um avanço para um país de história tão marcada por governos violentos e de direita.

A Folha Online visitou Santiago por uma semana e relata como os chilenos se divertem, dando dicas para que turistas gays incluam o país em seu próximo roteiro.

Sérgio Ripardo/Folha Online
Ciclista passa em frente ao clube Principe, na Bellavista, bairro gay e boêmio de Santiago
Ciclista passa em frente ao clube Principe, na Bellavista, bairro gay e boêmio de Santiago
Bairro gay

Bellavista é o bairro gay e boêmio de Santiago, na região da Recoleta, onde ficam as principais boates, bares e restaurantes de freqüência GLS, no pé do morro San Cristóbal. Não há bandeiras do arco-íris tremulando. Mas é possível ver jovens gays abraçados ou andando de mãos dadas. Três boates são assumidas: a Prince (r. Puríssima, 53), a Club Principe (r. Pío Nono, 398) e a Bokhara (r. Pío Nono, 430). Qual a melhor? Depende da intenção. Menos sutil, a Prince tem, no primeiro andar, um telão exibindo filme pornô gay e shows com gogo-boys. Com um dark-room fervido, a Principe tem ainda monitores de TV que passam clipes, como os da Madonna. A Bokhara é menos erotizada, mas também é divertida com shows de drags.

Sérgio Ripardo/Folha Online
Na noite de Santiago, já é possível achar anúncio de hotel gay
Na noite de Santiago, já é possível achar anúncio de hotel gay
Paquera

Nas boates, os chilenos gostam de dançar ritmos latinos. Para alguns brasileiros, tão acostumados aos sons ditados pelos EUA e Reino Unido, é um impacto ouvir música em espanhol na pista. Eles adoram, por exemplo, Gloria Trevi, a "Madonna mexicana" que ficou presa no Brasil acusada de corrupção de menores. Na hora da paquera, nada de carão: ninguém vai a uma danceteria para desfilar nem posar de ser inacessível, único e exclusivo. O clima de flerte é explícito: muita troca de olhares, sorrisos, beijos e mão boba. Eles adoram os brasileiros, demonstrando interesse principalmente pelas nossas novelas, vistas na TV local. Outra diferença: é rara a presença de barbies nas ruas e boates de Santiago. As tribos também se misturam mais, principalmente as lésbicas. Há muitos gays do interior do Chile, sem tempo a perder, que se esbaldam nos clubes de Santiago e saunas como a Mi Tiempo (r. Bombero Nuñez, 230). Com essa demanda, surgem locais para abrigar gays, como hotéis com o "h" disfarçando a letra "m".

Divulgação
Banda chilena Lulú Jam faz sucesso entre descolados e reflete criatividade dos jovens
Banda chilena Lulú Jam faz sucesso entre descolados e reflete criatividade dos jovens
Pop e fashion

O sucesso da banda chilena Lulú Jam ultrapassou as barreiras da cordilheira dos Andes, conquistando uma legião de fãs em todo o mundo. O grupo já se prepara para o segundo álbum e usa sua página no MySpace (www.myspace.com/lulujam) para divulgar seu trabalho. O visual do trio é moderno, uma celebração à cultura multiracial, sem intolerância. Nas diversas áreas verdes ao longo do rio Mapocho, como os parques Florestal e Balmaceda, os jovens de Santiago praticam skate, fazem ginástica ou andam em bandos. No morro Santa Lucia, perto da Universidade Católica, há outro point, onde é possível encontrar bastante grupos de emos. O corte de cabelo mais usado é o "mullet" (curto na frente e nas laterais e longo na nuca). Na seara dos esportes, os jovens só falam do jogador Matías Fernández, um ídolo do time Colo Colo, que mudou para o futebol europeu. Argentino, naturalizado chileno, o meio-campista ganhou o apelido de "Matigol". Na TV, os gays são fãs da série "Vivir con 10", produzida pela Chilevisión, que conta a história de uma família de dez filhos --entre eles, rapazes bonitos.

Sérgio Ripardo/Folha Online
Fachada de cinema pornô, um point underground no centro de Santiago
Fachada de cinema pornô, um point underground no centro de Santiago
Underground

No guia de turismo gay mais vendido no mundo, o "Spartacus", o verbete dedicado ao Chile ainda traz informações desatualizadas. Diz, por exemplo, que os cinemas pornôs não exibem filmes gays, pois uma lei proíbe cenas de penetração anal. Não é o que se vê no Cine Apolo (r. Diagonal Cervantes, 802, perto do Mercado Central), embora sua programação ainda seja dominada por produções de sexo hétero. Em um subsolo meio largado e sem os devidos cuidados de higiene, o lugar atrai principalmente grisalhos, ursos, trans e enrustidos. Jovens são raros. Outro point dos gays no centro é a Plaza de Armas, a duas quadras do Cine Apolo. Marco zero da cidade, a praça é ideal para ver "a vida como ela é". Há dezenas de quiosques de lanches, conhecidos pelo nome de "fuentes de soda", mais populares que redes estrangeiras como McDonald's e Burger King.

Guia de Santiago gay

Compras: vizinho ao centro, o bairro da Providencia abriga galerias ótimas para gastar. Os magazines (como a Paris e a Falabella) são mais charmosos e populares que os poucos shoppings. O único que merece visita é o shopping de Las Condes, no bairro homônimo, reduto elitista, onde há lojas de grifes caras, como Puma, Dior e Oscar de la Renta. Ao longo da av. Providencia, entre a av. Los Leones e Pedro de Valdivia, há ótimas lojas multimarcas. Cuidado com a pirataria. Em uma galeria sem nenhum glamour, é possível até achar uma "Daslu" em meio a um quilão popular.

Passeios: vale a pena subir o Cerro San Cristóbal para ver os contrastes entre o centro de Santiago (sem muitos edifícios) e os bairros nobres como Providencia e Las Condes (mais verticalizados), além da cordilheira dos Andes. Pegue o funicular no sopé do morro, no bairro da Bellavista, e depois um teleférico. No alto do morro, há uma estátua da Virgem Maria. Perto da estação de acesso a San Cristóbal, há um museu onde foi uma das antigas casas do poeta Pablo Neruda, chamada de "La Chascona" (a desgrenhada, homenagem ao cabelo de sua terceira mulher). Prédios históricos, como a sede do governo (La Moneda), ficam na principal avenida de Santiago (Libertador General Bernardo O'Higgins), mais conhecida como "La Alameda", e redondezas. É fácil se locomover na cidade (há muitos ônibus, e táxi não é tão caro).

Comida: há restaurantes típicos de peixes e frutos do mar no Mercado Central --bastante visitado por turistas é o Donde Augusto. Peixes deliciosos servidos por lá são o congrio e a reineta, que lembra o linguado. Na Bellavista, há bares e restaurantes decentes no Patio Bellavista (Pío Nono, 55), também ideal para comprar artesanatos e lembrancinhas. Os restaurantes caros ficam na Providencia e Las Condes. As cervejas mais consumidas são a Cristal e a Escudo. Prove também as artesanais, Barba Roja, de Valparaíso. Além dos famosos vinhos chilenos, não deixe de provar o pisco, forte como uma aguardente.

Hospedagem: se você está na categoria "turista econômico ou pós-mochileiro", evite os hotéis muito longe do metrô. No centro, há opções baratas e seguras. Um deles é o City Hotel (r. Compañia, 1.063), perto da Plaza das Armas. Sem conforto, mas espaçoso, o quarto tem móveis bem antigos, a US$ 50 a diária para casal. Outro barato e limpinho (US$ 70 por casal) é o bem localizado Hotel Libertador (Alameda, 853), em uma galeria cheia de salões de depilação. Para quem odeia reservar hotéis à distância, pode ser uma parada econômica até achar coisa melhor. Apontado em guias como "gay friendly", o Hotel Bonaparte (Mar del Plata, 2171) fica no bairro Providência, perto de uma rua com ótimos restaurantes e bares (av. Pedro de Valdivia), mas longe do metrô. Com piscina e quartos bem decorados, tem diária de US$ 116 (casal).

Segurança: Santiago é uma das cidades mais seguras do continente, embora a violência, principalmente na periferia, seja um dos assuntos preferidos da mídia chilena. Andar nas ruas do centro e dos bairros nobres é uma tranqüilidade. Há muitas casas com portões baixos. O policiamento privado não é ostensivo.

Câmbio: leva um tempo para se acostumar com tantos zeros do peso chileno. Nas suas contas, tente memorizar: R$ 1 = 250 pesos ou 1.000 pesos= R$ 4. Há casas de câmbio com taxas melhores na r. Agustinas, entre Ahumada e Bandera. No aeroporto, troque o mínimo (só para o transporte e primeiros lanches), pois as taxas são maiores.

Custos: o Chile não é caro. De São Paulo a Santiago, acha-se passagem de ida e volta por R$ 1.120, incluindo taxas de embarque. Brasileiro entra no país só com RG ou passaporte. No centro, dá para achar diária para solteiro de até R$ 100. Refeições e bebidas custam menos do que no Brasil.

Redondezas: em viagem curta, dá para conhecer o oceano Pacífico. Em umas duas horas de ônibus, no caminho de vinhedos famosos, chega-se à histórica Valparaíso, onde há museus e antigos funiculares dão acesso à parte alta da cidade. De trem ou táxi, dá para ir em poucos minutos à Viña del Mar, o balneário mais próximo de Santiago, sede de festivais internacionais de música e cinema. Nos feriados, chegar ao litoral é um drama semelhante a ir de São Paulo para a Baixada Santista. O tempo de viagem pula de 2 para 9 horas devido à lentidão na estrada. A água é gelada quase todo o ano. Homens usam pouco sunga. Preferem bermudas ou shorts. Por ficar em área portuária, as praias não são os melhores exemplos de limpeza. Se tiver tempo, vá a praia nudista de Pucó, a 780 km de Santiago. É um point gay, mas recentemente houve registros de casos de homofobia e repressão policial por lá.

Dicas de sites

Movilh é a principal ONG gay do Chile. Atualmente, tenta pressionar Congresso para aprovar lei de união civil.

Opusgay é um portal de notícias sobre o mundo gay do Chile, onde não existem revistas de nu, como a "G".

Gay Chile é outro site sobre o cotidiano homossexual no Chile, com destaque para programação cultural.

Dicas de vídeos

"Parada gay" traz imagens da parada em Santiago, em noticiário da TV, com entrevista do presidente do Movilh.

"Lulú Jam" mostra um videoclipe do trio descolado da música dos jovens chilenos.

"Matías Fernández" é o vídeo com um golaço do craque mais admirado no Chile, inspiração para os jovens.

"Destaques GLS" é publicada às quartas. Endereço para envio de comentários e sugestões: sergio.ripardo@folha.com.br. Só serão respondidos e-mails de remetentes identificados

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