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Livros: Obra convencional é requentada
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Pelo jeito , o centenário do nascimento de Murilo Mendes, em maio, não servirá para situar melhor o lugar da obra do autor de "Poesia em Pânico" na literatura brasileira. Para comemorar a efeméride, a editora Perspectiva não teve idéia melhor do que a de republicar, numa versão requentada, "Murilo Mendes: Ensaio Crítico, Antologia, Correspondência", o livro de Laís Corrêa de Araújo lançado pela primeira vez há quase 30 anos.
A republicação seria útil se o ensaio crítico da autora fosse um marco na interpretação de Murilo Mendes. Ou a antologia servisse de amostra razoável da obra do autor. Ou se a correspondência revelasse pensamentos ou fatos que contribuíssem para o entendimento da concepção estética ou da biografia do poeta mineiro.
Ocorre que o ensaio é convencional, a antologia passa ao largo de fases essenciais de Murilo Mendes e a correspondência se reduz ao punhado de cartas que o autor de "Poesia em Pânico" enviou a Laís Corrêa do Araújo, com esclarecimentos acerca de aspectos bibliográficos de sua obra. O poeta que aparece nas cartas tão-somente se resigna em atender os pedidos de sua admiradora.
Há apenas um momento mais revelador da correspondência, e nele Murilo Mendes demonstra uma vaidade que destoa de sua imagem conhecida, a de poeta culto, reservado, cosmopolita. Na carta, ele reage à publicação da primeira edição do livro de Laís Corrêa de Araújo que a Perspectiva agora reedita:
"Estamos contentíssimos, seu ensaio é magnífico, e durante muito tempo a ele deverão recorrer os que se interessarem pela minha poesia", começa Murilo Mendes e em seguida coloca no papel um primor de egolatria indireta: "Você agora passa a figurar na primeira linha dos críticos brasileiros".
Ou seja, por ter escrito sobre Murilo Mendes e tê-lo soterrado sob elogios, o poeta entroniza Laís Corrêa de Araújo no panteão dos críticos brasileiros de primeira linha. Como o poeta nunca nomeou outros críticos do mesmo porte, sua admiradora restou solitária na "primeira linha".
Nascido em 1901, Murilo Mendes estreou em livro no mesmo ano em que Carlos Drummond de Andrade, 1930. Na sua fase inaugural, compartilhou com seu conterrâneo mineiro a dicção prosaica e epigramática do primeiro modernista:
"A noite é uma soma de sambas
que eu ando ouvindo há muitos anos".
O pendor satírico e desabusado, aliado às imagens de grande plasticidade, que se sobrepõem ao sentido semântico, se radicaliza no seu segundo livro, "História do Brasil". Posteriormente, Murilo Mendes veio a abjurar "História do Brasil", que Laís Corrêa de Araújo, pressurosa, abjura também, classificando-o de "desvio".
Em meados dos anos 30, Murilo Mendes tem uma crise mística e se converte ao catolicismo. O ímpeto libertário de suas poesias, suas imagens concretas e eróticas, vão se chocar com o muro de certezas da religião, com os princípios regressivos e repressivos da Igreja Católica.
A poesia de Murilo Mendes se debaterá nessa tensão. Dela tirará sua força, quando flerta com o caos:
"Amor, palavra que funde e que consome os seres,
Fogo, fogo do inferno: melhor que o céu".
Com o tempo, as inquietações são apaziguadas, e Murilo Mendes torna-se
poeta proselitista. Para os não-católicos, sua poesia perde muito. Não apenas pelo odor de sacristia que impregna os seus versos, mas sobretudo pelas confortáveis certezas que, como hóstias, lhe travam a fala.
Enquanto Drummond enfrentou os homens, as mulheres e a história com
apenas duas mãos e o sentimento do mundo, Murilo Mendes se encostou no dogma e descansou: "A Igreja Católica é tão necessariamente verdadeira que eu preferiria errar com ela a acertar com os seus adversários", escreveu ele.
A consagração do passadismo tem seu epítome nos "Sonetos Brancos", que, novamente, Laís Corrêa de Araújo classifica de "desvio".
É um passadismo que não deixa de se transmutar. O poeta buscou a concretude de João Cabral de Melo Neto, que por sua vez foi influenciado por Murilo Mendes. Cabral, no entanto, apreendeu o essencial da poesia de Murilo: "Foi ela quem me ensinou a dar precedência à imagem sobre a mensagem, ao plástico sobre o discursivo".
Já Murilo Mendes mimetiza recursos de Cabral como quem adere a um modismo. Faria o mesmo depois com a poesia concreta (e agora Haroldo de Campos retribui a simpatia publicando o livro de Laís Corrêa de Araújo na coleção Signos, que ele dirige).
De diluição em diluição, Murilo Mendes chegou aos relatos de viagens, aos versinhos de homenagens aos amigos (tão típicos dos mineiros), às lembranças edulcoradas de uma infância provinciana e a uma sisudez oca.
Posto isto, resta o essencial: a poesia de Murilo Mendes, em qualquer de suas fases, inclusive nos inúmeros maus momentos, intriga. Pode não emocionar nem ser popular, mas está viva. Como e por que isto acontece ainda está por se explicar.
A explicação deve ser buscada, não há outro caminho, em "Poesia Completa e Prosa", que Luciana Stegagno Picchio organizou e a Nova Aguilar publicou, em 1995. É um livro mais longo (1.782 páginas), mais caro (R$ 170) e muito mais difícil que o de Laís Corrêa de Araújo. Mas é lá que está o Murilo Mendes que interessa.
Murilo Mendes: Ensaio crítico, Antologia, Correspondência
Autora: Laís Corrêa de Araújo
Editora: Perspectiva
Quanto: R$ 35 (400 págs)
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