18/12/2004
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09h19
da Folha Online
No início de 2005, quando a prefeitura de São Paulo for entregue ao futuro prefeito José Serra (PSDB), o atual governo terá concluído seu projeto de inclusão digital --com ele, 550 mil pessoas tiveram acesso à informática em 124 telecentros espalhados pela cidade.
Beatriz Tibiriçá, coordenadora do governo eletrônico da prefeitura de São Paulo, considera os números positivos, diz que esse foi o maior plano já colocado em prática na América Latina, mas reconhece: "Seriam necessários cerca de mil telecentros na cidade para suprir a demanda de milhões de pessoas que não têm qualquer contato com computadores".
Ela afirma que havia planos e parte dos recursos para a construção de 200 novas unidades caso o PT continuasse no governo. Isso não acontecerá, mas a coordenadora acredita que a próxima gestão deve continuar as iniciativas de inclusão digital.
Isso porque o tema não está ligado a partidos: ele faz parte de um movimento mundial e terá de ser encarado por qualquer governo. "O pior tipo de exclusão é aquele relacionado à informação. Se o indivíduo não tem acesso a ela, perde uma importante arma que o ajudaria a enfrentar outros tipos de exclusão, como a econômica e social", diz.
José Aristodemo Pinotti, futuro secretário da Educação da prefeitura de São Paulo, disse via assessoria de imprensa que as iniciativas já em andamento serão mantidas. Pinotti ainda não tem um plano de ação preparado, mas deve continuar o ritmo de realização de projetos relacionados à inclusão digital durante a próxima gestão.
Escolha
Cleber de Jesus Santos, 19, é um dos 550 mil freqüentadores dos telecentros. Morador de Cidade Tiradentes, ele só tinha mexido com computador poucas vezes na escola. Aos 16 anos, inscreveu-se em um curso da unidade próxima a sua casa e aprendeu a mexer com diversos programas. Quando as aulas acabaram, continuou utilizando o tempo livre para saber mais.
"Eu podia voltar da escola e ficar na rua, empinando pipa, mas preferi me dedicar à máquina e aos programas para entender como eles funcionam". De freqüentador ele passou a monitor e, durante três anos, ensinou pessoas que chegavam à unidade sem qualquer noção de informática.
Em um projeto realizado em seu telecentro conheceu um colega que lhe ofereceu uma vaga em uma associação de empresas. Hoje Santos é auxiliar de web design na Amcham (Câmara Americana de Comércio) e tem certeza de que está no caminho certo. "Adoro mexer com códigos. Fui a fundo, estudei e aprendi sobre programação sozinho, com a ajuda de sites de busca. Ganhei experiência e hoje trabalho com o que mais gosto", conta.
O aluno estudou em um dos quatro telecentros da Cidade Tiradentes, região onde há 21,2 mil cadastrados entre os 190 mil habitantes registrados pela subprefeitura local. A proporção entre número de usuários e população regional varia bastante entre as unidades. Em São Miguel, são 22,4 mil cadastrados entre 97 mil pessoas, enquanto a porcentagem do Butantã é de 17,4 mil usuários entre 348 mil habitantes.
"Nos baseamos nos locais com menor IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] para escolhermos os pontos onde os telecentros serão instalados. Isso significa que os usuários cadastrados provavelmente não teriam outros meios para mexerem em computadores se não fossem essas iniciativas", afirma Beatriz Tibiriçá.
Abismo
Cerca de 7,5 milhões de domicílios brasileiros são equipados com um computador (15,3% do total), sendo que 5,6 milhões (11,4%) deles têm acesso à internet. Os dados foram divulgados recentemente na PNAD (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios), do IBGE, e referem-se ao ano de 2003.
"Os números são positivos, mas quando comparamos o acesso à informática entre as classes A e E a diferença é gritante", afirma Rogério Santanna, secretário de logística e tecnologia da informação do Ministério do Planejamento e secretário-executivo do programa brasileiro de inclusão digital.
A opinião de Santanna é confirmada por outros números da Pnad. Dos 49,1 milhões de domicílios considerados pela pesquisa em 2003, 41,5 milhões (84% do total) recebem até dez salários mínimos. Nesse grupo formado por pessoas com dificuldades financeiras, 3,4 milhões das residências (8,1%) têm computadores, sendo que 2,1 milhões (5%) acessam a internet. Por outro lado, há 1,9 milhões de domicílios (3,8%) com mais de 20 salários mínimos. Desse total, 1,5 milhão (78%) possuem pelo menos um PC e 1,3 milhão (68%) navegam pela web.
Esse abismo fez com que diversas instituições governamentais passassem a trabalhar em iniciativas que visam combater o problema. No ano que vem, por exemplo, o Ministério do Planejamento deve colocar em prática três projetos que estão em fase adiantada de desenvolvimento: "Casa Brasil", "PC Conectado" e "Computadores Para Inclusão".
Na agenda
A "Casa Brasil" deve reunir em um único espaço telecentros e também outros serviços oferecidos pelo governo, como serviço de atendimento do INSS, iniciativas do Ministério da Cultura e pontos de atendimento do Banco do Brasil. "Essa iniciativa terá grande impacto, pois reunirá informática, serviços e projetos culturais em um mesmo local", afirma Santanna. O programa brasileiro de inclusão digital pretende construir mil centros desse tipo até o final de 2005, mas a realização do projeto ainda depende das decisões orçamentárias concluídas em dezembro.
Enquanto a "Casa Brasil" foca nas classes D e E, o programa "PC Conectado" tem como objetivo dar acesso a computadores --não em centros, mas dentro de suas próprias casas-- para a classe C. Isso porque esse grupo poderá comprar computadores por R$ 1.200 pagando prestações mensais de R$ 50. Para concretizar o projeto, que deve ser colocado em prática em março, o governo abrirá mão dos impostos cobrados dos fornecedores de hardware. Estudos apontam que há cerca de 6,5 milhões de clientes em potencial para a iniciativa.
Já o "Computadores Para Inclusão" é baseado no aproveitamento, em iniciativas de inclusão digital, de máquinas doadas por instituições governamentais e também empresariais. As centrais de recondicionamento dos PCs, instaladas em cinco capitais brasileiras em 2005, gastarão em média R$ 140 para reaproveitar máquinas doadas --um produto básico comprado nas lojas não sai por menos de R$ 1.200.
A Receita Federal doou 120 toneladas de peças e componentes que devem ser reaproveitados no primeiro centro inaugurado, o do Rio de Janeiro. Cada centro, onde trabalharão cerca de 60 jovens pelo "Programa Primeiro Emprego", deve "produzir" 5.000 computadores por mês.
Regionalismo
Nem só de grandes projetos vivem as iniciativas do governo. Há diversos projetos de menor escala sendo realizados em muitas regiões do país que conseguem resultados tão bons --embora em escalas menores-- quanto aqueles desenvolvidos por prefeituras de grandes cidades e governo federal.
Prova disso são as aulas oferecidas desde outubro pela Embrapa Florestas, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, que deu noções básicas de informática a dez moradores de Colombo, no Paraná --a intenção é formar 200 pessoas em 2005. O público do curso com um mês de duração é formado por estudantes da rede estadual, empregados da Embrapa Florestas e funcionários das empresas parceiras terceirizadas.
Edenir Tadeu Strapasson, 46, é motorista da instituição e agora, que já sabe mexer em computadores, decidiu comprar um micro. "Eu gostei de conhecer os programas e quero que minha filha e esposa também aprendam a mexer neles", diz. O aluno gostou de programas de texto e também de fazer pesquisas na web sobre filmes antigos, sua paixão. Apesar de não usar a tecnologia em seu trabalho, ele afirma que todos, sem exceção, devem ter acesso à informática --essa crença fez com que ele decidisse matricular a filha em um curso, porque tem certeza que o investimento vale a pena.
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JULIANA CARPANEZ da Folha Online
No início de 2005, quando a prefeitura de São Paulo for entregue ao futuro prefeito José Serra (PSDB), o atual governo terá concluído seu projeto de inclusão digital --com ele, 550 mil pessoas tiveram acesso à informática em 124 telecentros espalhados pela cidade.
Beatriz Tibiriçá, coordenadora do governo eletrônico da prefeitura de São Paulo, considera os números positivos, diz que esse foi o maior plano já colocado em prática na América Latina, mas reconhece: "Seriam necessários cerca de mil telecentros na cidade para suprir a demanda de milhões de pessoas que não têm qualquer contato com computadores".
Ela afirma que havia planos e parte dos recursos para a construção de 200 novas unidades caso o PT continuasse no governo. Isso não acontecerá, mas a coordenadora acredita que a próxima gestão deve continuar as iniciativas de inclusão digital.
Isso porque o tema não está ligado a partidos: ele faz parte de um movimento mundial e terá de ser encarado por qualquer governo. "O pior tipo de exclusão é aquele relacionado à informação. Se o indivíduo não tem acesso a ela, perde uma importante arma que o ajudaria a enfrentar outros tipos de exclusão, como a econômica e social", diz.
José Aristodemo Pinotti, futuro secretário da Educação da prefeitura de São Paulo, disse via assessoria de imprensa que as iniciativas já em andamento serão mantidas. Pinotti ainda não tem um plano de ação preparado, mas deve continuar o ritmo de realização de projetos relacionados à inclusão digital durante a próxima gestão.
Escolha
| PaulaTakada/Divulgação |
![]() |
| Voluntária ensina aluno de telecentro do CEU Jambeiro |
"Eu podia voltar da escola e ficar na rua, empinando pipa, mas preferi me dedicar à máquina e aos programas para entender como eles funcionam". De freqüentador ele passou a monitor e, durante três anos, ensinou pessoas que chegavam à unidade sem qualquer noção de informática.
Em um projeto realizado em seu telecentro conheceu um colega que lhe ofereceu uma vaga em uma associação de empresas. Hoje Santos é auxiliar de web design na Amcham (Câmara Americana de Comércio) e tem certeza de que está no caminho certo. "Adoro mexer com códigos. Fui a fundo, estudei e aprendi sobre programação sozinho, com a ajuda de sites de busca. Ganhei experiência e hoje trabalho com o que mais gosto", conta.
O aluno estudou em um dos quatro telecentros da Cidade Tiradentes, região onde há 21,2 mil cadastrados entre os 190 mil habitantes registrados pela subprefeitura local. A proporção entre número de usuários e população regional varia bastante entre as unidades. Em São Miguel, são 22,4 mil cadastrados entre 97 mil pessoas, enquanto a porcentagem do Butantã é de 17,4 mil usuários entre 348 mil habitantes.
"Nos baseamos nos locais com menor IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] para escolhermos os pontos onde os telecentros serão instalados. Isso significa que os usuários cadastrados provavelmente não teriam outros meios para mexerem em computadores se não fossem essas iniciativas", afirma Beatriz Tibiriçá.
Abismo
Cerca de 7,5 milhões de domicílios brasileiros são equipados com um computador (15,3% do total), sendo que 5,6 milhões (11,4%) deles têm acesso à internet. Os dados foram divulgados recentemente na PNAD (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios), do IBGE, e referem-se ao ano de 2003.
"Os números são positivos, mas quando comparamos o acesso à informática entre as classes A e E a diferença é gritante", afirma Rogério Santanna, secretário de logística e tecnologia da informação do Ministério do Planejamento e secretário-executivo do programa brasileiro de inclusão digital.
A opinião de Santanna é confirmada por outros números da Pnad. Dos 49,1 milhões de domicílios considerados pela pesquisa em 2003, 41,5 milhões (84% do total) recebem até dez salários mínimos. Nesse grupo formado por pessoas com dificuldades financeiras, 3,4 milhões das residências (8,1%) têm computadores, sendo que 2,1 milhões (5%) acessam a internet. Por outro lado, há 1,9 milhões de domicílios (3,8%) com mais de 20 salários mínimos. Desse total, 1,5 milhão (78%) possuem pelo menos um PC e 1,3 milhão (68%) navegam pela web.
Esse abismo fez com que diversas instituições governamentais passassem a trabalhar em iniciativas que visam combater o problema. No ano que vem, por exemplo, o Ministério do Planejamento deve colocar em prática três projetos que estão em fase adiantada de desenvolvimento: "Casa Brasil", "PC Conectado" e "Computadores Para Inclusão".
Na agenda
A "Casa Brasil" deve reunir em um único espaço telecentros e também outros serviços oferecidos pelo governo, como serviço de atendimento do INSS, iniciativas do Ministério da Cultura e pontos de atendimento do Banco do Brasil. "Essa iniciativa terá grande impacto, pois reunirá informática, serviços e projetos culturais em um mesmo local", afirma Santanna. O programa brasileiro de inclusão digital pretende construir mil centros desse tipo até o final de 2005, mas a realização do projeto ainda depende das decisões orçamentárias concluídas em dezembro.
Enquanto a "Casa Brasil" foca nas classes D e E, o programa "PC Conectado" tem como objetivo dar acesso a computadores --não em centros, mas dentro de suas próprias casas-- para a classe C. Isso porque esse grupo poderá comprar computadores por R$ 1.200 pagando prestações mensais de R$ 50. Para concretizar o projeto, que deve ser colocado em prática em março, o governo abrirá mão dos impostos cobrados dos fornecedores de hardware. Estudos apontam que há cerca de 6,5 milhões de clientes em potencial para a iniciativa.
Já o "Computadores Para Inclusão" é baseado no aproveitamento, em iniciativas de inclusão digital, de máquinas doadas por instituições governamentais e também empresariais. As centrais de recondicionamento dos PCs, instaladas em cinco capitais brasileiras em 2005, gastarão em média R$ 140 para reaproveitar máquinas doadas --um produto básico comprado nas lojas não sai por menos de R$ 1.200.
A Receita Federal doou 120 toneladas de peças e componentes que devem ser reaproveitados no primeiro centro inaugurado, o do Rio de Janeiro. Cada centro, onde trabalharão cerca de 60 jovens pelo "Programa Primeiro Emprego", deve "produzir" 5.000 computadores por mês.
Regionalismo
Nem só de grandes projetos vivem as iniciativas do governo. Há diversos projetos de menor escala sendo realizados em muitas regiões do país que conseguem resultados tão bons --embora em escalas menores-- quanto aqueles desenvolvidos por prefeituras de grandes cidades e governo federal.
Prova disso são as aulas oferecidas desde outubro pela Embrapa Florestas, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, que deu noções básicas de informática a dez moradores de Colombo, no Paraná --a intenção é formar 200 pessoas em 2005. O público do curso com um mês de duração é formado por estudantes da rede estadual, empregados da Embrapa Florestas e funcionários das empresas parceiras terceirizadas.
Edenir Tadeu Strapasson, 46, é motorista da instituição e agora, que já sabe mexer em computadores, decidiu comprar um micro. "Eu gostei de conhecer os programas e quero que minha filha e esposa também aprendam a mexer neles", diz. O aluno gostou de programas de texto e também de fazer pesquisas na web sobre filmes antigos, sua paixão. Apesar de não usar a tecnologia em seu trabalho, ele afirma que todos, sem exceção, devem ter acesso à informática --essa crença fez com que ele decidisse matricular a filha em um curso, porque tem certeza que o investimento vale a pena.
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