Informática
02/12/2007 - 08h45

Análise: TV digital preserva curral eletrônico e estréia em alta indefinição

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DIÓGENES MUNIZ
Editor de Informática da Folha Online

Você já consegue receber imagem em alta definição no seu televisor? Pode interagir com o que aparece na tela ao toque do controle remoto? Usufrui a multiprogramação, com novos canais na TV aberta? Se a resposta for não a todas perguntas, parabéns, você é brasileiro e não tem TV digital --assim como praticamente o resto da população.

Esse é o lado óbvio da estréia oficial que ocorre logo mais, às 20h30, em São Paulo. Quase ninguém vai assisti-la. Ao menos não acompanharão a "revolução da TV" do jeito que se esperava, ou seja, com áudio e imagem digitais.

Julia Moraes/Folha Imagem

Culpa dos preços (o governo prometeu "set-top box" por R$ 200, mas a indústria só oferece por R$ 499, no mínimo). Culpa da correria com que as decisões foram tomadas, com a escolha do padrão japonês --mais caro-- para satisfazer aos radiodifusores. Culpa da demora para os aparelhos chegarem às prateleiras --afinal, depois de acatados os lobbies, quem se importa?

A partir de hoje, a TV aberta brasileira tem três marcos: sua fundação (1950), o início das transmissões a cores (1972) e o começo da TV digital, neste domingo. As duas primeiras estréias contaram com públicos restritos, mas depois suas tecnologias se expandiram ao resto do país. É o que deve acontecer com a TV digital.

O governo estipulou o prazo de 2016 para os brasileiros comprarem uma caixinha conversora ou uma TV que já tenha conversor embutido. Nesta data, o sinal analógico que recebemos será interrompido, segundo o cronograma oficial.

"Revolução"

Há pouco para se comemorar neste debute da TV digital. A propósito, chamar de debutantes um grupelho de radiodifusores que se perpetua há décadas num mercado cuja moeda de troca sempre foi o favorecimento político é, no mínimo, curioso.

A expectativa dos que anseiam pela democratização no acesso à informação era que, com a TV digital, outras emissoras entrariam no jogo. Os tradicionais produtores/transmissores teriam que se mexer, melhorar o conteúdo. A disputa tornaria-se mais acirrada e mais bonita para o telespectador. Esse incentivo à pluralidade estava previsto no decreto que instituiu o Sistema Brasileiro de Televisão Digital, em 2003.

Mas, ao menos por enquanto, tudo fica na mesma, com foco 100% na alta definição audiovisual, enquanto pontos fundamentais seguem indefinidos e o curral eletrônico, preservado. A palavra final sobre a adoção ou não de um sistema que impede a cópia de programas foi prorrogada para depois da estréia oficial, por exemplo. Nos Estados Unidos, maior produtor mundial de conteúdo televisivo, a restrição não foi adotada.

Ueslei Marcelino/Folha Imagem
"Não há nenhuma pretensão do governo em estabelecer qualquer critério neste momento", disse ministro sobre direito de gravações
"Não há nenhuma pretensão do governo em estabelecer qualquer critério neste momento", disse ministro sobre direito de gravações

"Não há nenhuma pretensão do governo em estabelecer qualquer critério sobre isso neste momento", disse à Folha Online o ministro das Comunicações Hélio Costa, na quarta-feira (28), antes de defender a limitação de cópias e elogiar, mais uma vez, a imagem "perfeita" que virá.

Recepção do sinal digital de TV em celulares, interatividade, universalização do ensino a distância, inclusão digital... é longa a lista das promessas que sequer têm data para serem cumpridas.

Mas a imagem será perfeita. Para quem puder pagar um aparelho compatível, será linda!

Nos últimos meses, a qualidade da imagem e o funcionamento das tomadas em alta definição se tornaram questões-chave também para outra indústria: a de filmes pornôs. Diretores, produtores e atores ficaram preocupados, porque tudo vai aparecer de forma cada vez mais nítida. É uma preocupação legítima e central para eles, essa com a imagem. Só não deveria ser a nossa.

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