Informática
18/02/2008 - 08h57

Jogos eletrônicos ajudam vítimas de AVC

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CLÁUDIA COLLUCCI
da Folha de S.Paulo

Pacientes com graves seqüelas de lesões cerebrais provocadas por AVC (acidente vascular cerebral) ou traumas têm reaprendido a realizar tarefas do cotidiano e até retornar ao mercado de trabalho, por meio de um tratamento que envolve jogos de computador.

A aparente brincadeira é utilizada para estimular as funções de concentração, atenção, memória e coordenação motora, que ficam comprometidas com a lesão cerebral.

Em razão da plasticidade neural --a capacidade do cérebro de fazer novas redes para suprir as áreas lesionadas--, o treino em computador permite que o paciente reaprenda a realizar atividades diárias.

O tratamento, oferecido pelo Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, o hospital do Fundão, ligado à UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), é considerado uma inovação em reabilitação --ele já foi apresentado em congressos internacionais.

Segundo a médica Lídia Cardoso, coordenadora do laboratório de Neuropsicologia e Cognição, foram criados softwares que simulam cenas cotidianas.

Em um dos jogos, por exemplo, o paciente está em uma casa e deve buscar por objetos, cômodos e fazer a higiene pessoal. Outra proposta é o supermercado, que permite a memorização, localização de produtos e realização de cálculos para concretizar a compra.

Atualmente, cerca de cem pacientes recebem o tratamento no hospital --outros 50 aguardam na fila de espera. O tratamento é realizado em sessões semanais de 40 minutos.

Antes de se submeterem à terapia, os pacientes realizam exames psicológicos, segundo Cardoso. "Verificamos se houve seqüela de uma doença neurodegenerativa e analisamos qual a função das atividades diárias foram mais afetadas."

A médica afirma que a atividade é planejada levando em conta a gravidade do caso e o impedimento do paciente. Casos de doenças neurodegenerativas, como demências e mal de Alzheimer, por exemplo, não têm indicação para a terapia.

O tratamento começa com um jogo em 2D (duas dimensões). Logo após, o paciente evolui para atuação em ambientes virtuais. A média de duração do tratamento é de um ano e meio. "É trabalhoso, mas vale a pena. Os resultados são impressionantes", diz Cardoso.

Segundo a médica, todos os pacientes tratados até agora tiveram algum grau de melhora. Dois deles voltaram a trabalhar. É o caso da coordenadora pedagógica Selma Conceição, 60, dois filhos e três netos. Em outubro de 2006, sofreu um AVC. "Não conseguia falar nem o meu nome. Não sabia onde morava nem com que trabalhava. Foi muito triste", lembra.

Com a terapia, ela conta que começou a "reaprender a viver". "As coisas foram voltando. Aprendi a multiplicar de novo." Ano passado, ela voltou a coordenar uma equipe de 38 professores na escola onde trabalhava. "Faltam ainda algumas coisas, mas estou no caminho."

 

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