"Great Firewall" causa pane em computadores de Pequim
ADALBERTO LEISTER FILHO
EDUARDO OHATA
Enviados especiais da Folha de S.Paulo a Pequim
Nos primeiros dias de trabalho no centro de imprensa dos Jogos de Pequim, não houve a percepção de que a grande quantidade de páginas que não podiam ser exibidas e os freqüentes colapsos dos computadores dos jornalistas eram decorrência da censura chinesa e seu "Great Firewall" --um trocadilho com a Grande Muralha ("Great Wall") e a palavra inglesa que designa o dispositivo que controla o acesso à rede.
Depois, percebeu-se que a combinação das palavras "Anistia Internacional", "Tibete Livre" e "Falun Gong" em sites de busca simplesmente travava os computadores.
Não somente era impossível acessar informações ou imagens relacionadas ao Tibete --prontamente aparecia a mensagem de que essas páginas não podiam ser exibidas--, como os laptops daqueles que executavam a pesquisa travavam de forma imediata. O simples recebimento de um e-mail com essas palavras proibidas pelo governo chinês já era suficiente para travar programas de correio eletrônico.
Daí a conclusão de que a censura havia entrado em vigor com força total após a admissão do Bocog (comitê organizador) de que o acesso à internet não será livre a jornalistas, diferentemente do propagado.
Segundo o Comitê Olímpico Brasileiro, não houve anúncio oficial algum sobre o assunto. Outros sites com conteúdo sob risco de censura, como os pornográficos, por exemplo, podiam ser acessados livremente no centro de imprensa.
O bloqueio à internet virou o assunto do dia no centro de imprensa. Repórteres se entrevistavam uns aos outros para trocar impressões sobre as dificuldades de trabalho no local. Como, por exemplo, a velocidade do acesso à internet, bastante lento para os padrões de uma cobertura da dimensão dos Jogos Olímpicos.
No caso da Folha, o simples recebimento de um e-mail com a palavra "censura" mostrou como funciona o eficiente sistema de filtros criado pelas autoridades chinesas. O programa de correio eletrônico, convencional, deixou de funcionar imediatamente.
Outro e-mail, que uma ONG havia enviado se manifestando contra o bloqueio de sites em Pequim, aparecia com caracteres truncados, impossíveis de serem decifrados. Até o final do dia, tais problemas permaneciam sem solução.
Repórteres buscavam alternativas para tentar furar o bloqueio. Muitos passaram a usar e-mails pessoais para se comunicar com seus países.
E, estranhamente, quem havia viajado a Pequim para enviar informações a seus jornais passou a ser municiado do exterior sobre o que estava acontecendo na sede dos Jogos. Para satisfazer a pressão ocidental, a China havia divulgado em 2007 um manual intitulado "Regulamento para Atividades de Reportagem na China".
Nele, garantia que haveria liberdade para a atuação da imprensa, apesar de estipular um período para tal benesse, que expirava no dia 18 de outubro, após o final da Paraolimpíada.
"Deixamos muito claro que, durante o período dos Jogos, facilitaremos entrevistas e reportagens. Todo o material sobre a Olimpíada não será afetado", comentou Sun Weide, porta-voz do Bocog, negando que os problemas na internet possam afetar o desempenho profissional dos jornalistas credenciados.
Leia mais
- COI vai investigar censura na internet durante Jogos Olímpicos
- Nos games, Pequim-2008 tem duas apostas oficiais
- Em Los Angeles, fabricantes lutam pela supremacia dos consoles
- Nintendo anuncia game musical para o Wii
Livraria da Folha
- Especialista desvenda dez mitos sobre a internet; leia artigo
- Livro discute o modo de vida na era da tecnologia e cultura digital; leia introdução
- Guia com mapas desdobráveis desvenda Pequim
- Boicotes, doping, recordes e heróis: livro traz o melhor e o pior dos Jogos Olímpicos
Especial

