Informática
07/12/2008 - 12h04

Real e virtual se chocam e combinam no teatro

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ANDREA MURTA
da Folha de S.Paulo, em Nova York

Cheio de namoradas virtuais, o empresário J.V. entra em pânico quando uma delas o convida para um encontro real. "É um compromisso muito sério", responde, afinal, para o rosto feminino que ilumina uma das 32 telas ao seu redor.

Ele desliga a tela e conversa com a imagem de outra namorada. "Acho que posso me apaixonar por você", diz a moça. É a deixa para novo abandono. Em ainda outra tela acesa, J.V. conversa com um primo que está em Londres. "O que os tios estão aprontando?"

Divulgação
Cena da peça "Continuous City", em cartaz em Nova York, que usa computadores e monitores como instrumentos de dramaturgia
Cena da peça "Continuous City", em cartaz em Nova York, que usa computadores e monitores como instrumentos para a dramaturgia

As cenas seriam banais se não estivessem se passando em frente a centenas de espectadores, em exploração máxima das difusas relações da era virtual, na peça "Continuous City" (cidade ininterrupta), que tem apresentações em Nova York até sexta-feira próxima.

Ali, a linha tênue entre o real e o virtual encontra novos contornos não só com a tecnologia, mas com o mundo dentro e fora dessa cidade ininterrupta.

J.V. não existe fora do palco: é interpretado pelo ator Rizwan Mirza. Mas muitas de suas conversas on-line não são atuação. Mirza se conecta mesmo com o primo londrino, além de manter uma conversa improvisada com um sobrinho no Estado da Virgínia (EUA).

Conexões

"São realmente pessoas que estão ao redor do mundo, e elas se conectam de verdade durante o espetáculo", afirmou à Folha a diretora Marianne Weems, do grupo The Builders Association, responsável por "Continuous City".

A tecnologia é um personagem especial do espetáculo. As 32 telas de tamanhos variados, que projetam imagens de computadores, são controladas ao vivo por três técnicos, perfeitamente visíveis bem no centro do palco. Além de projeções coordenadas, que podem ocupar um ou mais pontos, as telas se abrem e fecham dependendo do efeito desejado.

Segundo Weems, porém, o uso do digital vem ao serviço da narrativa, e não o contrário. "Nossa idéia original era mostrar como o que entendemos por "cidade" mudou radicalmente na última década."

Relacionamentos

A história que se desenrola tem como pano de fundo o esforço de J.V. e seu sócio, Mike, para divulgar um novo site de relacionamentos, o Xubu.

É mais um momento em que se cruza a fronteira da realidade: há realmente um site chamado Xubu, controlado pelo Builders Association, que permite que qualquer um grave participações (xubu.cc/about). "Em um mundo incerto, Xubu é uma família virtual. Não deixe seus relacionamentos soltos no mundo. Traga-os para cá", diz a página inicial.

Foram necessários dois anos de ensaios para encontrar o equilíbrio entre computadores, atuação e narrativa. Ainda assim, a atração do balé das imagens em vários momentos torna as pessoas supérfluas. Quando, por exemplo, uma babá fala para a câmera em gravação para seu videoblog, é inevitável olhar para o rosto aumentado que se projeta acima da atriz, deixando o corpo humano em segundo plano.

O que isso diz sobre a linha entre o real e o virtual? "Certamente há um paradoxo, tanto na apresentação quanto no conteúdo da peça. Não sei se a tecnologia aproxima ou afasta", diz Weems.

 

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