Antes da estreia, Campus Party é alvejada por blogueiros
A Campus Party, maior evento de tecnologia do país, mal começou e já vem sendo alvejada por aqueles que deveriam compor sua base de apoio: os blogueiros. Algumas das figuras mais conhecidas da blogosfera divulgaram nos últimos dias críticas pesadas à festa ou à principal patrocinadora dela, a operadora Telefônica. O evento acontece entre 19 e 25 de janeiro.
| Paulo Fehlauer/Folha Imagem | ||
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| Primeira edição da Campus Party aconteceu no parque Ibirapuera (zona sul de São Paulo), no ano passado |
O primeiro sinal de fumaça foi emitido pelo artista carioca André Dahmer, dono do site Malvados, que abriga um blog. "Por trás de toda roupagem jovem e moderna da Campus Party, com suas barraquinhas neo-hippies, suas conexões sem fio e seus blogueiros famosos, está a Telefônica, grande campeã de reclamações no Procon-SP", escreveu.
Dahmer recusou um convite para participar da Campus Party deste ano. Tampouco quis ir à primeira edição.
"Esses eventos estão se tornando o paraíso de agências de marketing virais e de blogueiros sem qualquer conteúdo, gente que quer apenas fazer (pouco) dinheiro copiando e colando informações em seus blogs. Acho um meio de vida pobre, triste e poluidor", disse, à Folha Online.
Outro crítico ferrenho aos parâmetros da Campus Party é o blogueiro Fernando Gouveia, ex-assessor de Soninha Francine e que mantém o Imprensa Marrom.
"É um discurso contraditório. Comecei a desconfiar, ver o nome das pessoas envolvidas e percebi que muitas das bandeiras defendidas não tinham a ver com os patrocinadores. Por exemplo: pessoas ali defendem a inclusão digital e software livre, sendo que a Telefônica é uma empresa monopolista da telefonia fixa", disse à reportagem, após uma troca de mensagens cáusticas com funcionários do evento em seu próprio blog.
| Fotomontagem/Folha Online | ||
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| Da esq. à dir., o cartunista André Dahmer, o advogado Fernando Gouveia e a jornalista Rosana Hermann |
Gouveia cita como contraditória a questão ambiental proposta pela Campus Party Brasil em sua primeira edição --para ele, uma "falácia". "A organização prometeu plantar árvores, uma promessa grandiloquente: uma árvore por pessoa envolvida, inclusive palestrantes, o que totalizaria 3.000 árvores. Elas não foram plantadas."
Para completar, uma das palestrantes deste ano da Campus Party resolveu desabafar contra os serviços da Telefônica. Sob o título de "Speedy, uma empresa vergonhosa", a autora do blog Querido Leitor, Rosana Hermann, reclamou do mau atendimento recebido por um funcionário da companhia. "Como é que este campeão de queixas do Procon ainda está em atividade, alguém pode me dizer?", escreveu.
À Folha Online, a vencedora do prêmio The BOBs na categoria melhor blog em língua portuguesa disse que pretende repetir suas críticas na Campus Party, "se tiver oportunidade". "Críticas servem para que uma pessoa ou uma empresa melhorem. Servem para mostrar a realidade a alguém, porque representa o que está acontecendo com muita gente". Ela participará da mesa que vai discutir a relação entre blogs e celebridades, no dia 23 de janeiro, às 11h.
Apesar do aborrecimento com o serviço da Speedy, Hermann tece elogios à Campus Party. "Participei no ano passado, na área de blogs. Fui a todas as noites para assistir. Acho legal que exista um evento nessa proporção. E ele deflagrou um processo de encontros de blogueiros no Brasil todo."
Dahmer, por outro lado, lamenta que "as pessoas não consigam se organizar e se reunir sem a tutela de uma grande corporação privada hoje em dia".
| Reprodução | ||
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| Na série de tirinhas "SurfHype", o artista carioca André Dahmer ironiza o comportamento de alguns blogueiros |
Patrocínio
Apesar de a Campus Party 2009 ter 43 patrocinadores, entre empresas privadas e governos, a maior parte do evento é bancada pela Telefônica.
Questionada sobre as críticas dos blogueiros em relação a "monopólio", a assessoria de imprensa da empresa diz que "existe concorrência, tanto em telefonia fixa quanto banda larga". A empresa afirma também que, na contramão do fato de ser campeã nas reclamações do Procon em São Paulo, "possui 2,5 milhões de clientes".
| Divulgação |
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| O diretor da Campus Party Brasil, Marcelo Branco, afirma que pluralidade é essencial |
Sobre a promessa do plantio de árvores, o diretor de comunicação da Futura Networks e da Campus Party Brasil, Roberto Andrade, alega que houve uma "compensação". "Foi um erro prometer o plantio dessas árvores, porque não é a melhor forma de atuar na crise ambiental. Então contratamos uma empresa especializada em fazer essa compensação. Temos o certificado", rebate.
A organização do acampamento "geek" nega que haja interferências da Telefônica na programação e diz que "respeita as contradições" entre os diversos participantes.
"Não queremos que os dois pensem igual. Que a Telefônica e o blogueiro mais vermelho do planeta pensem a mesma coisa. Ou que uma rede de inclusão digital da reforma agrária tenha os mesmos interesses da Intel ou do Google", afirma Marcelo Branco, diretor do evento.
O evento não revela qual a porcentagem de participação da operadora no negócio --no ano passado, a empresa bancou cerca de 40% dos R$ 10 milhões gastos.
"Se os patrocinadores fossem a Net e o Virtua, as críticas seriam as mesmas. Eu sinto uma dificuldade de certos segmentos, até certo ponto infantil, de aceitar a integração das forças de mercado, que é algo normal", diz Andrade.
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