Grandes empresas patrocinam sites piratas
DIÓGENES MUNIZ
editor de Informática da Folha Online
Montadoras, bancos, companhias de internet e telecomunicação, redes alimentícias e até a indústria de entretenimento. Por meio de anúncios, dezenas de empresas de grande porte ajudam a financiar sites que violam os direitos autorais.
Usando o serviço de publicidade de links patrocinados, elas expõem propagandas em páginas como SeriesBr, derrubada a pedido da APCM (Associação Antipirataria de Cinema e Música) neste mês por fornecer download de seriados televisivos sem autorização.
Mesmo após o fechamento do site, ainda era possível topar com anúncios de grandes marcas exibidos por meio da ferramenta de propagandas do Yahoo!. O mais curioso deles oferecia um pacote da TVA, em tese, grande interessada em não ter compartilhadas gratuitamente as atrações de canais pagos. Após a reportagem entrar em contato com o Yahoo!, os anúncios saíram do ar.
Os links patrocinados funcionam de forma a combinar produtos e serviços ao conteúdo que as páginas exibem --ou seja, adaptam a propaganda ao contexto da navegação dos leitores para tentar atingir um maior número de potenciais consumidores.
Em alguns casos, no entanto, a oferta é completamente esquizofrênica. No site RedeDownload.com, anúncios de DVDs e CDs convivem lado a lado com links para downloads gratuitos de seriados de TV, jogos e até filmes que ainda estão em cartaz, como "Monstros Vs. Alienígenas".
"Quase 100% do conteúdo desse site é pirata. O RedeDownload já saiu do ar e voltou hospedado em um servidor estrangeiro", afirma Antônio Borges Filho, diretor-executivo da APCM. "Na maioria das vezes, as grandes empresas não fazem anúncios diretos, elas nem sabem que patrocinam esse tipo de situação. Temos alertado suas agências de publicidade para mostrar que elas estão patrocinando piratas", diz Borges.
Quem mais compra espaço nas páginas do RedeDownload é o BuscaPé, um site de comparação de preços que leva o leitor ao e-commerce de produtos culturais e artigos de informática.
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| Anúncios no site SeriesBR, derrubado a pedido da APCM neste mês por fornecer download de seriados |
Mau negócio
O RedeDownload é um dos cem sites mais acessados do país, de acordo com o Alexa, ferramenta que mede audiência na internet. O espaço publicitário no site custa entre R$ 20 a R$ 30 por dia -o contrato mínimo é para dez dias. Isso não necessariamente quer dizer que seus anunciantes estejam fazendo um bom negócio ao expor seus produtos por lá.
"É inferior a 4% o índice dos visitantes desses sites que clicam nos anúncios, porque é um público que está interessado somente no download", diz José Calazans, analista de mídia do Ibope/NetRatings.
"No caso de produtos culturais, como DVDs, não é recomendado anunciar em sites que têm grande tráfego de internautas que fazem downloads P2P porque o anúncio os levaria a procurar esse mesmo DVD em redes de P2P", afirma Calazans.
P2P é a tecnologia utilizada pelos principais programas de trocas de arquivos, conhecidos também como peer-to-peer. Permite aos internautas pegar músicas e filmes diretamente dos computadores de outros usuários conectados sem passar por uma máquina central, o que torna o compartilhamento mais ágil. O que a maioria dos sites como de downloads faz é fornecer um "torrent" que leva o internauta ao conteúdo que ele procura.
Para o blogueiro carioca Carlos Cardoso, que destacou a contradição entre sites piratas e anunciantes no blog Meiobit na semana passada, as empresas responsáveis pelos programas de anúncios direcionados fazem vista grossa para certos tipos de irregularidades. "O Google filtra malware [softwares maliciosos], filtra sites de pornografia infantil, filtra sites que o governo chinês manda, mas não se dá ao trabalho de bloquear sites piratas", critica.
Segundo Yahoo! e Google, os anúncios que aparecem em seus programas de links patrocinados são monitorados por ferramentas que excluem propagandas consideradas inadequadas. Os anunciantes também têm controles para saber onde suas marcas estão aparecendo.
Félix Ximenes, diretor de comunicação do Google Brasil, ressalta que, "como nenhum processo é perfeito, existe a possibilidade de alguns destes sites fora do regulamento rodarem anúncios por um breve tempo, até que possamos agir".
O BuscaPé diz que seu programa de anúncios para sites afiliados também tem entre as regras não hospedar atividades ilegais. "A verificação é feita manualmente, mas não está livre de fraudes. Toda vez que uma fraude é constatada, o BuscaPé retira imediatamente o endereço de sua base de afiliados", informou, por meio da assessoria de imprensa.
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