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02/03/2010 - 07h00

FarmVille retém dinheiro de doação humanitária

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MARINA LANG
da Folha Online
MAURÍCIO KANNO
colaboração para a Folha Online
RICARDO FELTRIN
Secretário de Redação da Folha Online

Atualizado em 03/03/2010 às 18h27.

A empresa Zynga, responsável pelo game virtual "FarmVille", sucesso no Brasil e no mundo, é suspeita de ludibriar jogadores internautas e reter parte nas doações feitas por eles a campanhas humanitárias, como a das vítimas do terremoto no Haiti, em janeiro. Por meio de uma porta-voz, a empresa nega a suspeita e diz que a contribuição de 100% do que é doado é uma "exceção".

A empresa afirma que arrecadou US$ 2,4 milhões em doações em 2009, mas doou apenas a metade deste valor. Procurada pela Folha Online, a porta-voz disse que a fatia de doação retirada é uma "prática comum" da companhia. Ela disse ainda que informou aos usuários do game acerca da divisão dos valores doados.

Para atrair doação ao Haiti, FarmVille montou "fundo" virtual
Empresa de "FarmVille" admite retenção de doação ao Haiti, mas nega golpe
Zynga responde a denúncia de desvio de doações ao Haiti; veja íntegra

Reprodução
Logomarca do fundo de arrecadação de donativos para o Haiti no FarmVille; empresa pegou parte das doações
Logomarca do fundo de arrecadação de donativos para o Haiti no FarmVille; empresa pegou parte das doações

A empresa também é suspeita de usar de "truques" para induzir os jogadores a fazer doações quando, na verdade, estão apenas comprando dinheiro virtual para ser usado em FarmVille.

Por e-mail, a empresa informou que doou 50% de valores arrecadados antes do terremoto para as instituições haitianas Fonkoze (de microcrédito), e Fatem, voltada à tecnologia da informação. A companhia, entretanto, se recusou a mencionar o valor arrecadado, porque a Zynga é "uma empresa privada e esta é uma informação ligada à competitividade'.

Entretanto, a Folha Online apurou que uma das organizações citadas, a Fatem, recebeu somente US$ 292 mil da Zynga. No dia seguinte à publicação da reportagem, a Fatem informou que refez os cálculos de doação, e que eles ultrapassavam US$ 700 mil.

Até o fechamento da edição, ninguém da Fonkoze comentou o assunto.

Revelada pela revista "Superinteressante" deste mês, a retenção de doações em 2009 ocorreu em meio a 25 processos relativos a plágios de jogos.

Antes da publicação da reportagem, a empresa se recusava a dizer quanto foi arrecadado até hoje em doações de jogadores a campanhas humanitárias. Segundo a porta-voz, esta informação é "estratégica". Depois da publicação, a Zynga apenas corrigiu os US$ 2,7 milhões de 2009 relatados pela revista para US$ 2,4 milhões --dos quais admite que ficou com metade.

A Zynga declara que contribuiu, nos primeiros cinco dias de campanha para o Haiti, logo após o terremoto em janeiro, com 100% do que era doado, e que esse montante chegou a mais de US$ 1,5 milhão. No entanto, a campanha arrecadatória durou 16 dias.

Dois representantes da agência Programa Alimentar Mundial (PAM), da ONU --Pierre Guillaume Wielezynski, chefe da área de Internet; e Greg Barrow, coordenador de mídia global--, confirmaram o valor declarado da doação.

Doação ou truque

Em janeiro último, dias após o terremoto do Haiti, surgiu um ícone no "FarmVille" que, ao ser clicado, convidava os jogadores a doar US$ 10, US$ 20, US$ 30 ou US$ 40 para as vítimas. Após efetuar o pagamento com cartão de crédito, o jogador descobria que não estava contribuindo diretamente com o Haiti, e sim comprando o dinheiro virtual do jogo.

Se quisesse contribuir com as vítimas, aí sim teria de iniciar plantações e colheitas de milho branco virtual (a popular canjica), e somente o que fosse plantado e colhido é que seria enviado ao Haiti.

Mas, quem comprou US$ 40, por exemplo, jamais conseguiria gastar o total, porque a campanha tinha duração preestabelecida, e não haveria tempo para contribuir com os FV$ 240 adquiridos.

A sobra de FV$, após dez dias de colheita, só poderia ser usada novamente no jogo --comprando bens, animais e ou decorações virtuais para as fazendinhas. A porta-voz da empresa nega esta informação, mas a Folha Online a confirmou, efetuando a doação (compra) máxima.

O game Farmville roda com o programa Flash, e tem quase 80 milhões de usuários no mundo --por volta de 20% do total de usuários do Facebook.

No Brasil, o aplicativo é o mais popular entre usuários do site de relacionamento: 1,125 milhão de pessoas estiveram no jogo em janeiro (por volta de 15% dos usuários brasileiros do site), de acordo com dados do Ibope.

 

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