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26/05/2010 - 15h22

Obra identifica elementos do cristianismo escondidos em "O Senhor dos Anéis"

da Livraria da Folha

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Obra desvenda ligação de "O Senhor dos Anéis" com o cristianismo
Livro desvenda ligação da obra de Tolkien com o cristianismo

Pode um livro de fantasia considerado pagão, por conter elementos mágicos que não fazem parte de uma mitologia religiosa oficial, guardar semelhanças com símbolos clássicos do cristianismo?

Esta pergunta serve de premissa para análise de Ives Gandra Martins Filho, ministro do Tribunal Superior do Trabalho, em um capítulo de seu livro "Ética e Ficção" lançamento recente da editora Campus Elsevier.

Ives Gandra relaciona no livro alguns valores como ética e bondade tirando como exemplo passagens de obras de escritores como J.R.R Tolkien, C.S. Lewis e Antoine de Saint-Exupéry.

Uma parte de "Ética e Ficção" dedica-se a análise de "O Senhor dos Anéis". O ministro aponta alguns elementos do universo criado por Tolkien (1892-1973) como correspondentes a símbolos do cristianismo. Um exemplo é o "lembas", um pão preparado pelos elfos, que seria equivalente a hóstia.

O livro é ilustrado com pinturas de Ted Nasmith, que retratam momentos marcantes da obra de Tolkien.

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Galadriel com Frodo e Sam em ilustração de Ted Nasmith; personagem é comparada a "Nossa Senhora"
Galadriel com Frodo e Sam em ilustração de Ted Nasmith; personagem é comparada a "Nossa Senhora"

Leia trecho de "Ética e Ficção".

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c) Símbolos cristãos velados

Permeia toda a obra de Tolkien uma relação invisível entre as ações nobres ou vis praticadas pelos personagens, que tornam o mundo, como um todo, melhor ou pior, conforme a atitude interior dos personagens (as vitórias ou derrotas das várias forças na "Guerra do Anel" é "sentida" interiormente pelos protagonistas das várias ações em campos distintos), o que recorda, de longe, a doutrina da Comunhão dos Santos.

A invocação pelos "hobbuts", do nome de uma Valier ("Elbereth Gilthoniel", Senhora das Estrelas), faz tremer as forças do Mal e constitui elemento de sustentáculo para a missão que têm, como Nossa Senhora, pelo papel singular que desempenhou na "História da Salvação", é proteção constante na vida dos cristãos. No momento em que Frodo se encontra diante das portas de Mordor e sente, ao ver sair o "Senhor dos Espectros", a tentação forte de usar o Anel (com o que seria descoberto), vence-a ao tocar no "Frasco de Galadriel", o que lembraria o escapulário do Carmo, que muitos cristãos trazem no peito, por devoção a Nossa Senhora, que os ajuda a superar as tentações.

O alimento dado pelos elfos aos membros da Sociedade do Anel, para poderem enfrentar a dura missão que teriam pela frente, o "lembas" ou pão do caminho, pode ser visto, pelos efeitos benéficos que tinha, desproporcionais para um simples alimento, incutindo um vigor para a caminhada, como uma imagem, ainda que pálida, da Eucaristia (Corpo de Cristo em forma de pão) chamada nos cânticos litúrgicos cristãos de "panis angelurum,cibus viatorum" (pão dos anjos e alimento dos caminhantes), a qual, ao propiciar a comunhão com Cristo, restaura as forças da alma.

O Salão do Fogo, em Rivendell, onde Frodo encontra Bilbo meditando e compondo seus versos, é também uma imagem dos oratórios ou capelas cristãs. Gandalf, ao mostrar-lhe o local, diz: "Este é o Salão do Fogo. Aqui poderá escutar muitas canções e histórias. Mas a não ser nos dias importantes, o salão fica vazio e quieto, e aqui vêm as pessoas que desejam ter paz e refletir. O fogo fica sempre aceso, durante o ano". A lareira sempre acesa lembra o sacrário. Os dias importantes seriam os domingos e festas, com o culto cristão relembrando as histórias do Antigo e Novo Testamento e cantando louvores ao Criador. Durante o resto do tempo, um local de oração e meditação.

Um último paralelismo, que é o do sacrifício redentor, como o de Cristo na Cruz, para a salvação dos homens (a ser revivido de alguma forma por cada cristão como "alter christus"), é bem estampado no diálogo final entre Sam e Frodo:

Mas -- disse Sam, com lágrimas brotando nos olhos -- achei que o senhor também fosse aproveitar a vida no Condado, por muitos e muitos anos, depois de tudo o que fez". E Frodo responde "-Foi o que também pensei, antes. Mas meu ferimento é profundo demais, Sam. Tentei salvar o Condado, e ele está salvo, mas não para mim. Muitas vezes é preciso que seja assim, Sam, quando alguma coisa está em perigo: alguém precisa desistir dela, perdê-la, para que outros possam tê-la. (Tolkien, op. Cit., p. 1090)

Esses são apenas alguns pontos de semelhança entre a saga tolkiana e a "História da Salvação", não se podendo, no entanto, procurar um paralelismo mais abrangente, quando não foi o objetivo de Tolkien assumir todas as premissas fáticas do cristianismo, sob pena de estar fazendo teologia em vez de uma despretensiosa obra literária. Mas não se pode deixar de perceber que justamente por ter assumido esses valores básicos, intrínsecos ao Cristianismo, é que chegou a produzir uma obra de valor perene e de atrativo universal.

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"Ética e Ficção"
Autor: Ives Gandra Martins Filho
Editora: Campus Elsevier
Páginas: 256
Quanto: R$ 78,00
Onde comprar: 0800-140090 ou na "Livraria da Folha".