da Livraria da Folha
"Inculta e Bela (Vol. 4)", do professor de língua portuguesa Pasquale Cipro Neto, trata das concordâncias verbal e nominal, acentuação, ortografia, entre outros, sem a excessiva ênfase nas regras e exceções gramaticais que tendem a afastar as pessoas.
No trecho abaixo, Pasquale descreve como as formas verbais são fiéis, quando possível, ao infinitivo. O professor explica que, para aproveitar essa fidelidade, é preciso conhecer o maior número possível de membros de uma família de palavras.
Atenta também que nem entre palavras derivadas e primitivas a fidelidade é incondicional, mas pode ser real em muitos casos.
Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".
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Palavras fiéis
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| Prof. Pasquale mostra curiosidades e esclarece dúvidas do português |
O detalhe é que, para aproveitar essa fidelidade, é preciso conhecer o maior número possível de membros de uma família de palavras. Um caso interessante é o de "provedor", termo da moda nestes tempos de internet. O provedor nada mais é do que aquele que provê, do verbo "prover", sinônimo de "abastecer". Faz parte dessa família o substantivo "provisão", sinônimo de "provimento" ("ato de prover"). Essa palavra aparece nos talões de cheques de alguns bancos ("...a emissão de cheques sem a devida provisão de fundos..."). "Provisão" significa "abastecimento".
A falta de conhecimento ou de percepção do parentesco que há entre as palavras freqüentemente gera erros de grafia ou pronúncia. Talvez você já tenha ouvido algum locutor esportivo dizer que determinado jogador é "irrascível". Não é. A forma correta é "irascível", com apenas um "r". A palavra é da família de "ira". É irascível quem fica irado facilmente. No popular, o jogador irascível é o "nervosinho".
Um caso interessante é o do verbo "encorajar", que, por motivos óbvios, escreve-se com "j". Com "g", teríamos "encoragar". Também por motivos óbvios, em nenhuma das flexões desse verbo será necessário trocar o "j" por "g". A forma "encorajem", portanto, será grafada com "j": "Espero que eles se encorajem". Ocorre, porém, que o substantivo "coragem" se escreve com "g", o que faz muita gente errar justamente por querer ser fiel. O erro está na escolha do elemento ao qual se devota a fidelidade. Formas verbais são fiéis, quando possível, ao infinitivo. Se o infinitivo tem "j", todas as flexões manterão o "j". Bem, cá entre nós, não se pode negar que é feinha a forma "encorajem". Dá uma baita vontade de achar que está errada, tamanha a força do substantivo "coragem". Se você assimilou o "golpe" de "encorajem", está preparado para "enferrujem", do verbo "enferrujar". Não preciso entrar em detalhes, preciso?
O "g" é outra história. Se o infinitivo tem "g", pode ser necessário trocar esse "g" por "j" em algumas formas. De "dirigir", por exemplo, faz-se "dirijo", com "j". "Dirige", "dirigimos", "dirigem", "dirigi", "dirigiram" etc. não precisam do "j". Como já vimos, nesses casos, sempre que possível vale a fidelidade ao infinitivo.
Palavras terminadas em "-oso"/ "-osa" também fazem das suas. Se de "gosto" temos "gostoso/a", de "perigo" temos "perigoso/a", o que temos de "prazer"? "Prazeroso", e não "prazeiroso", como muitas vezes se vê por aí. Também é bom citar "vultoso", que vem de "vulto". Uma soma vultosa (e não "vultuosa") é de vulto, ou seja, grande, expressiva, considerável, importante.
Como se vê, nem entre palavras derivadas e primitivas a fidelidade é incondicional, mas em muitos casos é real. É isso. (08/02/01)