PAULA DUME
colaboração para a Livraria da Folha
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| Escritor polonês Witold Gombrowicz (1904-1969) permaneceu 24 anos em Buenos Aires, capital da Argentina |
Não adianta lembrar do kafkiano Gregor Samsa, que acordou metamorfoseado em barata no livro "A Metamorfose", ao lermos que Józio, personagem central de "Ferdydurke", despertou em uma terça-feira de hora inanimada sentindo-se um adolescente. Ele, com 30 anos de idade, de repente é conduzido pelo professor T. Pimko ao primário.
Joey Kowalski, chamado de Józio, é autor do livro de contos "Memórias de um tempo de imaturidade". Witold Gombrowicz (1904-1969) se dilui a tal ponto na narrativa que o leitor não se dá conta de quem escreveu o texto. O tom é para "confundir, misturar, emporcalhar, diminuir, remitir, desengonçar sem restrições! Mas com calma, sem atropelos".
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| Obra usa humor de situação surreal para ironizar a sociedade europeia |
O texto permanece móvel --ora se faz de vítima, ora comete o crime, ora pedagogas inconstâncias do ser humano e nos remete à total anulação do que pretende ser. Gombrowicz esnoba o destino da trama e sai assobiando.
O título significa tudo com coisa alguma. "Ferdydurke" não é personagem, não se tem registro do que seja. É o desejo quem entranha nos personagens e ocupa cada canto de imaturidade. Somos conduzidos pelas aventuras de Józio em busca do Eros corporal da obra. O autor está naquele verdor das partes que não o completam.
Quando Józio dá de fuça com seu "eu", expulsa-o da cena e nega a proximidade. "Dei-lhe um tapa na cara. Suma da minha frente! Suma daqui! Você não é eu! É algo passado, estranho, forçado - uma combinação entre o mundo interior e o mundo exterior".
Impossível se alongar em discernimentos. Seria uma maturidade forçada da parte de quem lê. As partes nos fazem, de algum modo, como em Józio, autônomos e dependentes da leitura.
Grodnidos é citado logo no início da obra. Boas dúzias de páginas reviradas e dois outros nomes de ruas são citados. O escritor dilui o espaço em suas linhas. Completa-o com doses de desajustes, cercas puladas, escândalos introvertidos, pernadas e fuçadas sem juízos. Transfere o enredo do campo para a cidade, da academia para o primário, do adulto para o adolescente, do Gombrowicz polonês para o futuro Gombrowicz argentino exilado.
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| Autor viu na invasão nazista de sua terra o cenário ideal para o romance |
Esse deslocamento ocorreu em 1939, dois anos após ter escrito "Ferdydurke". O autor foi convidado a fazer uma viagem inaugural a Buenos Aires. Chegou um pouco antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial. Por conta disso, foi impedido de voltar ao seu país e permaneceu 24 anos em território argentino.
Com dificuldades financeiras, Gombrowicz escreveu a maior parte de seus livros, como "Pornografia" (1960) e seus diários, em Buenos Aires. O volume, publicado em 2009 no Brasil pela Companhia das Letras, trata da visita de dois amigos intelectuais de meia-idade a uma propriedade rural na Polônia ocupada pelos nazistas no ano de 1943.
Acostumados a levarem uma vida boêmia e libertina, Witold (o próprio Gombrowicz atuando como personagem-narrador) e Fryderyk ficam entediados com o bucolismo local. Para tentar diluir o ócio, Witold e Fryderyk investem na observação de dois jovens --Henia, filha dos donos da casa, e Karol, um subalterno.
Os amigos analisam as ações dos adolescentes e supõem que a dupla possui uma não assumida atração física por conta de suas imaturidades.
Em 1963, o escritor polonês recebeu uma bolsa da Fundação Ford para viver um ano em Berlim. Após terminar seus estudos na Alemanha, mudou-se para o sul da França (Vence). De volta à Europa, recebeu o "Prix International de Littérature" pelo romance "Cosmos" (1965), que chegou ao Brasil em 2007.
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| Narrador faz às vezes de detetive de si próprio e do leitor na narrativa |
O exemplar tenta desvendar "o crime mais esquisito da história da literatura detetivesca", segundo o polonês. Macabro e burlesco, o enigma permanece nas manchas e riscos no teto da sala de jantar e do quarto.
O narrador se esforça para decifrar a teia sígnica que lhe é apresentada. Percebe que o culpado pode ser qualquer um.
Dos excêntricos personagens que se movem no romance, os passos detetivescos do narrador apontam para si mesmo. Ou seria para o leitor? Gombrowicz brinca mais uma vez com a essência de sua escrita.
Em 1969, Gombrowicz abandonou a cidade de Vence --com as fuças nas mãos, à la Józio-- rumo à "floresta murmurante da humanidade", citada em "Ferdydurke".
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