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28/09/2010 - 15h25

Escritor polonês Witold Gombrowicz debocha da imaturidade do homem

PAULA DUME
colaboração para a Livraria da Folha

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Escritor polonês Witold Gombrowicz (1904-1969) permaneceu 24 anos em Buenos Aires, capital da Argentina
Escritor polonês Witold Gombrowicz (1904-1969) permaneceu 24 anos em Buenos Aires, capital da Argentina

Não adianta lembrar do kafkiano Gregor Samsa, que acordou metamorfoseado em barata no livro "A Metamorfose", ao lermos que Józio, personagem central de "Ferdydurke", despertou em uma terça-feira de hora inanimada sentindo-se um adolescente. Ele, com 30 anos de idade, de repente é conduzido pelo professor T. Pimko ao primário.

Joey Kowalski, chamado de Józio, é autor do livro de contos "Memórias de um tempo de imaturidade". Witold Gombrowicz (1904-1969) se dilui a tal ponto na narrativa que o leitor não se dá conta de quem escreveu o texto. O tom é para "confundir, misturar, emporcalhar, diminuir, remitir, desengonçar sem restrições! Mas com calma, sem atropelos".

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Obra usa humor de situação surreal para ironizar a sociedade europeia
Obra usa humor de situação surreal para ironizar a sociedade europeia

O texto permanece móvel --ora se faz de vítima, ora comete o crime, ora pedagogas inconstâncias do ser humano e nos remete à total anulação do que pretende ser. Gombrowicz esnoba o destino da trama e sai assobiando.

O título significa tudo com coisa alguma. "Ferdydurke" não é personagem, não se tem registro do que seja. É o desejo quem entranha nos personagens e ocupa cada canto de imaturidade. Somos conduzidos pelas aventuras de Józio em busca do Eros corporal da obra. O autor está naquele verdor das partes que não o completam.

Quando Józio dá de fuça com seu "eu", expulsa-o da cena e nega a proximidade. "Dei-lhe um tapa na cara. Suma da minha frente! Suma daqui! Você não é eu! É algo passado, estranho, forçado - uma combinação entre o mundo interior e o mundo exterior".

Impossível se alongar em discernimentos. Seria uma maturidade forçada da parte de quem lê. As partes nos fazem, de algum modo, como em Józio, autônomos e dependentes da leitura.

Grodnidos é citado logo no início da obra. Boas dúzias de páginas reviradas e dois outros nomes de ruas são citados. O escritor dilui o espaço em suas linhas. Completa-o com doses de desajustes, cercas puladas, escândalos introvertidos, pernadas e fuçadas sem juízos. Transfere o enredo do campo para a cidade, da academia para o primário, do adulto para o adolescente, do Gombrowicz polonês para o futuro Gombrowicz argentino exilado.

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Autor viu na invasão nazista de sua terra o cenário ideal para o romance
Autor viu na invasão nazista de sua terra o cenário ideal para o romance

Esse deslocamento ocorreu em 1939, dois anos após ter escrito "Ferdydurke". O autor foi convidado a fazer uma viagem inaugural a Buenos Aires. Chegou um pouco antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial. Por conta disso, foi impedido de voltar ao seu país e permaneceu 24 anos em território argentino.

Com dificuldades financeiras, Gombrowicz escreveu a maior parte de seus livros, como "Pornografia" (1960) e seus diários, em Buenos Aires. O volume, publicado em 2009 no Brasil pela Companhia das Letras, trata da visita de dois amigos intelectuais de meia-idade a uma propriedade rural na Polônia ocupada pelos nazistas no ano de 1943.

Acostumados a levarem uma vida boêmia e libertina, Witold (o próprio Gombrowicz atuando como personagem-narrador) e Fryderyk ficam entediados com o bucolismo local. Para tentar diluir o ócio, Witold e Fryderyk investem na observação de dois jovens --Henia, filha dos donos da casa, e Karol, um subalterno.

Os amigos analisam as ações dos adolescentes e supõem que a dupla possui uma não assumida atração física por conta de suas imaturidades.

Em 1963, o escritor polonês recebeu uma bolsa da Fundação Ford para viver um ano em Berlim. Após terminar seus estudos na Alemanha, mudou-se para o sul da França (Vence). De volta à Europa, recebeu o "Prix International de Littérature" pelo romance "Cosmos" (1965), que chegou ao Brasil em 2007.

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Narrador faz as vezes de detetive de si próprio e do leitor na narrativa
Narrador faz às vezes de detetive de si próprio e do leitor na narrativa

O exemplar tenta desvendar "o crime mais esquisito da história da literatura detetivesca", segundo o polonês. Macabro e burlesco, o enigma permanece nas manchas e riscos no teto da sala de jantar e do quarto.

O narrador se esforça para decifrar a teia sígnica que lhe é apresentada. Percebe que o culpado pode ser qualquer um.

Dos excêntricos personagens que se movem no romance, os passos detetivescos do narrador apontam para si mesmo. Ou seria para o leitor? Gombrowicz brinca mais uma vez com a essência de sua escrita.

Em 1969, Gombrowicz abandonou a cidade de Vence --com as fuças nas mãos, à la Józio-- rumo à "floresta murmurante da humanidade", citada em "Ferdydurke".