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02/07/2009
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13h24
"Filhos dos anos 60 foram ingratos com seus pais", diz Cristovão Tezza; leia entrevista
CAMILA NEUMAM Nesta sexta-feira (3), o premiado escritor catarinense, Cristovão Tezza, 57, autor de "O Filho Eterno" (Record, 2007), participa, ao lado do escritor mexicano Mario Bellatin, da mesa "O eu profundo e outros eus" na 7ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) --que acontece entre os dias 1º e 5 de julho. Em entrevista à Livraria da Folha, durante a Feira do Livro de Ribeirão Preto --ocorrida entre os dias 18 e 28 de junho na cidade--, o mais premiado autor brasileiro de 2008 fala sobre seu próximo livro, conta detalhes da obra e, com bom humor e afiada ironia, surpreende ao chamar sua geração dos 60 de "filhos ingratos".
Sua obra "O Filho Eterno", que expõe as dificuldades e pequenas vitórias do próprio autor ao criar um filho com síndrome de Down, recebeu os prêmios São Paulo de Literatura, o Prêmio Portugal Telecom, o Jabuti na categoria Romance, além de também ser premiado pela Associação de Críticos de Arte de São Paulo e pela revista "Bravo!". Autor de mais 13 romances de ficção e professor universitário com diversas publicações acadêmicas, Tezza conta que o filho Felipe, 27, ficou feliz pelo seu sucesso, mesmo sem ter capacidade de raciocínio superior a de uma criança de cinco anos. Além de colecionar os troféus do pai junto aos seus da natação, Felipe costuma saudar as visitas com a frase: "eu sou o filho eterno". Leia abaixo a entrevista com o escritor. Leia trecho do livro "O Filho Eterno" * Livraria da Folha - Como será sua passagem pela Flip? Tezza - Eu vou participar da mesa "O Eu Profundo e Outros" na sexta (3) com o escritor mexicano Mario Bellatin, que será a redação/junção entre geografia e literatura. Espero que seja legal, mas não está nada preparado. Livraria da Folha - Como foi o processo de criação do tão premiado livro "O Filho Eterno"? Foi um trabalho com forte base autoral, o que você não costumava fazer. Tezza -Eu passei anos sem pensar na hipótese de escrever sobre este tema por ser muito pessoal. Foi só quando deixou de ser um problema pessoal, que começou a se tornar um problema literário e me deu vontade de escrever de uns anos para cá. Tentei vários caminhos, primeiro um ensaio, depois como depoimentos, crônicas pessoais, até chegar a forma ficcional, romanesca. Mas não esperava o sucesso que fez. Livraria da Folha - O que você acha que foi a causa desse sucesso todo? Tezza - Não sei. Quem vê de fora talvez vê que o livro mexe demais com a minha geração, tem uma ligação forte com o Brasil dos anos 60 em diante, as desutopias e utopias que se seguiram. Tem uma carga emocional muito forte, um tema muito difícil e é um livro que tematicamente é bastante sofisticado, de qualidade técnica. Livraria da Folha - Como foi seguir esse caminho? Tezza - Sou um escritor brutalmente intuitivo. Não penso em uma opção racional. Eu tinha que descobrir qual era a linguagem dele, que tipo de fala, qual é o ponto de vista. Escrever é instituir um ponto de vista. Mas isso é um processo lento. Livraria da Folha - O seu filho sabia que você estava escrevendo o livro? Tezza - Eu preciso saber como é que funciona a cabeça de uma criança com Síndrome de Down, a idade mental dele é de 5/7 anos. Ele não tem a abstração da literatura. Para ele as palavras da literatura não significam nada, e é por essa falta de abstração dele que deixou o livro como ele é. Se ele soubesse do livro, se ele soubesse o que eu estava fazendo o livro, seria completamente diferente. Mas ele fica muito feliz comigo, às vezes chega alguém em casa e ele se apresenta, diz: "eu sou o filho eterno". Ele pegou os troféus dele de natação e colocou ao lado dos troféus que o livro ganhou, porque para ele é tudo a mesma coisa. (risos) Livraria da Folha - Como foi juntar toda essa emoção com a racionalidade que ronda sua vida pelo trabalho acadêmico? Tezza - Tive a felicidade de só entrar na universidade muito tarde, comecei a dar aula com 34 anos. Então eu já estava salvo da academia (risos). Eu sempre encarei com muita desconfiança a universidade [ingressou na faculdade de Letras aos 25 anos], porque era um traço da minha geração. Sempre achava que a universidade iria me destruir como escritor. Mas sempre tive um lado pé no chão também, mesmo naquela vida maluca que eu vivia. Só não sei no que isso influenciou minha literatura. Tematicamente sim, há muitos professores personagens, porque é um ambiente que eu convivo e acabo tendo um material imenso para trabalhar, assim como a mim mesmo. Livraria da Folha - O período, a partir dos anos 60, foi decisivo para influenciar a sua literatura? Tezza - Eu fui fruto dos anos 60. As primeiras atividades artísticas que eu fiz foi com 15 anos, participei da primeira peça da Denise Stoklos, em Curitiba, em 1967. Aquela geração tinha um projeto que misturava projeto político, existencial, contestatório contra família, tradição e propriedade, independência da mulher, sexo livre, coisas extremamente avançadas para a época. Toda aquela geração que usufruiu das grandes vantagens do final da Segunda Guerra, é uma geração ingrata, porque foi quando o mundo mais enriqueceu no ocidente, nos anos 50 e 60, e depois os filhos destes pais que se mataram para dar o melhor para eles começaram a se rebelar, dizendo que eles eram uns quadrados. Escrever para mim fazia parte deste pacote existencial que juntou com a vida pessoal. Eu queria sair de casa, e hoje ninguém quer sair. A literatura entrava como um propósito de transformação no mundo das pessoas, tinha um lado meio performático, de fazer arte. Não tinha esse pragmatismo de hoje, que a pessoa diz que ser escritor é um oficio como um advogado, isso era impensável. Para ser escritor você tinha que ser um cara do contra, desempregado, fora do sistema. E eu vivi isso muito intensamente. Livraria da Folha - Mas aquela época ainda inspira a sua literatura? Tezza - Não. Isso já fez a minha cabeça, embora eu tenha mudado muito. Agora não sou mais nem de longe aquela figura, não sou fantasma de mim mesmo, né? Mas deixou marcas que eu acho positivas. Livraria da Folha - O que, então, inspira você ainda hoje? As experiências pessoais, algum ideal político? Tezza - A ficção é um modo de reconhecimento das coisas no mundo, assim como existe o modo da ciência, da religião, o jornalístico e a ficção que mistura um pouco de tudo isso. Não sei mais o que me inspira. Sinto que ainda tenho muito que escrever. Livraria da Folha - Já está com algum novo livro em andamento? Do que se refere? Tezza - Eu estou com um livro já vendido para a [editora] Record, só falta escrever. Quero ver se o levo em frente agora no segundo semestre. É uma história de amor que se chama o "O Noivo Emocional". Literariamente segue a linha do último romance meu, "O Fotógrafo". Depois do "O Filho Eterno" comecei a receber encomendas de livro de contos e comecei a escrever contos também, escrevi dois machadianos. Livraria da Folha - Não pensa em voltar a escrever algo autobiográfico sobre outros momentos de sua vida? Tezza - Não. O último foi "O Filho Eterno" mesmo, coloquei tudo ali. Depois disso minha vida passou a ser completamente desinteressante. E também falar do tempo que o escritor as voltas passadas, no tempo que ele era marginal já esgotei também. (risos). Livraria da Folha - Depois de tantos prêmios já dá para viver só de literatura ou ainda pretende seguir com as aulas? Tezza - O ano que vem provavelmente viverei só de literatura. Mas neste semestre passo a dar aulas somente aos sábados com a semana toda livre. Eu escrevia sempre dando um monte de aulas quando eu tinha 40 anos, agora com 57 a coisa vai ficando mais devagar, não tenho mais aquele pique. *
"O Filho Eterno" |
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