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03/07/2009
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19h44
Escritora Marina Colasanti é homenageada na Flipinha; veja trecho de livroda Folha Online Marina Colasanti, 72, escritora convidada para participar da Flipinha --versão infanto-juvenil da Flip (Feira Literária de Paraty)--, costuma abordar problemas sociais em seus livros. Ilustrou diversas de suas obras e recebeu vários prêmios pelo trabalho direcionado às crianças e aos jovens. No dia de estreia do evento, quarta-feira (1º.), às 17h, foi encenado o espetáculo teatral "Eu Sei, Mas Não Devia", baseado no livro homônimo da autora. No segundo dia da Flipinha, quinta-feira (2), Marina Colasanti participou da ciranda de autores "Tecendo Histórias", com participação de Nilma Lacerda e mediação de Nina Silva. No sábado (4), alguns de seus poemas serão lidos. A escritora italiana, que vive no Brasil desde os 11 anos, acostumou-se a ver o mundo como pluralidade cultural, não só por ter morado em dois continentes, mas principalmente pelas diversas atividades que exerceu --artes plásticas, jornalismo, publicidade, televisão e literatura em prosa e verso. Essa diversidade se reflete em suas obras. Marina possui o "dom" feminino de contar histórias, como a mãe ou a avó. No livro "23 Histórias de um Viajante", narra a viagem de um cavaleiro que invade os domínios de um príncipe misterioso. Por trás das muralhas, uma espécie de Sherazade conta histórias, que podem ser lidas juntas ou separadas. Abaixo, um trecho do livro "23 Histórias de um Viajante". * Curvados ao peso das roupas pesadas e do cansaço, escuros como troncos, três caçadores avançam afundando na neve, a caminho de casa. O primeiro traz uma fieira de pássaros atados à cintura. Uma lebre desponta do bornal do segundo. Mas é o terceiro que traz pendente do ombro a caça mais rica, raposa vermelha que lhe incendeia as costas como uma labareda e com sua cauda morta traça um rastro no chão. Outro rastro se desenha sobre a neve, de sangue. A mão do caçador está ferida, e goteja. No lago gelado abaixo da encosta, crianças brincam. Um tordo canta sobre um galho anunciando a chegada dos homens. Na aldeia, três portas se abrem para recebê-los. - Aqui está, mulher - diz o homem da mão ferida, descarregando a raposa sobre a grande mesa da cozinha. - Carne por um bom tempo, e pele para nos aquecer. Dura e longa foi a caçada nesse frio, floresta adentro, até encontrar um casal de raposas. Assim ele conta para a mulher. - O macho é esse aí - pega a faca para começar a esfola. - A fêmea estava prenhe, deixei. - E isso na tua mão? - Foi ela que me mordeu. A mulher enfaixa a mão num pano branco, logo manchado. E nos muitos dias que se seguem, lava a ferida com chás de ervas, tenta curá-la com emplastros de miolo de pão e teias de aranha. Mas nada aproxima um lado do talho ao outro lado. A ferida continua aberta e sangra. Lá fora, a paisagem vai mudar nos meses seguintes. O lago irá beber sua casca de gelo, a neve se fará fina até deslizar em regatos, as nuvens se abrirão rendadas deixando penetrar o sol. O inverno passará adiante em busca de outras terras para esfriar. E agora é primavera, e o tordo canta porque o caçador da mão ferida está saindo de casa a caminho da floresta. Outra é a floresta quando a grama nasce e os galhos abrem suas brotações. O silêncio imposto pela neve foi substituído por tantos pequenos ruídos e tudo parece mover-se, asas, patas, folhas, talos, tocados pela luz e não por vento.
É nessa floresta, tão diferente daquela mesma que percorreu açoitado pelo frio, que o caçador avança devagar, quase farejando. Atento, pronto a reagir a qualquer presença, depara-se com uma trilha em que nunca havia reparado antes ou que nunca havia visto. E a segue. Algumas voltas a mais, uma moita de arbustos altos. A trilha acaba atrás dela, tão súbita como começou, deixando o homem diante de uma casa pequena, quase uma cabana. À porta, uma mulher varre. É jovem, ruiva, e não se assusta quando ele chega. - Bons ventos me trazem - diz o homem em saudação. Tira o chapéu, tenta um meio sorriso, diz que se perdeu, faz calor, e tem sede. Poderia ela dar-lhe água? A mulher encosta a vassoura, limpa as mãos no avental e, sem responder, entra na casa. Volta trazendo água num prato fundo. Tão pobrezinha que nem copo tem, pensa o homem. E bebe sentindo nos lábios o frescor da louça. - Quer mais? - pergunta ela. Os olhos sorriem. - Não, obrigado. O homem enxuga a boca com a mão enfaixada. A mulher diz que ele deve estar cansado. E ele está. Diz que deve estar com fome. E ele está. Convida-o a entrar, comer alguma coisa. E ele entra. Lá dentro, seis crianças pequenas, da mesma idade, estão sentadas ao longo da mesa, comendo. Seis cabecinhas ruivas se voltam para ele. O homem acaricia a mais próxima. É nesse gesto, como se o completasse, que a mulher se achega. Colhe a mão, desfaz a atadura e docemente, muito docemente, começa a lamber a ferida. Sobre o talho que aos poucos se fecha, pêlos vermelhos despontam e, como um arrepio que percorre o corpo, se alastram braço acima, tomam o peito, invadem toda a pele. Ao redor da mesa, seis cabecinhas se debruçam sobre a comida, seis bocas pequenas voltam a mastigar sua carne crua. Um dia de ausência não é coisa que surpreenda, na aldeia do homem. Nem dois dias, nem três. Mas passada uma semana sem que ele regresse, seus dois companheiros partem à procura. Não precisam de trilha. No chão, o gotejar do sangue deixou rastro. Um rastro que serpenteia entre árvores, e que os leva até uma alta moita de arbustos. Atrás da moita, os dois companheiros de caçada deparam-se com uma cova escavada entre velhos troncos. Na cova, um casal de raposas defende seus seis filhotes. *
"23 Histórias de um Viajante" |
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