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04/11/2009
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21h09
Biografia de Marighella fez autor mergulhar nas lembranças da ditadura; leia trechoda Livraria da Folha
Há 40 anos, o militante político Carlos Marighella, um dos principais organizadores da luta armada para a criação de um estado socialista no Brasil e contra o regime militar, foi assassinado pelos militares, em uma ação coordenada pelo delegado Sérgio Paranhos. Hoje, no aniversário de sua morte, acontece uma homenagem póstuma na Câmara Municipal, onde ele vai se tornar cidadão paulistano, com apoio do ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos. Em 2010, a história do ex-líder da ALN será contada em um longa metragem, que está sendo produzido pela cineasta Isa Grinspun. Enquanto o filme não vem, quem quiser saber mais sobre a vida agitada de Carlos Marighella e sua contribuição para o fim de ditadura no Brasil, pode ler alguns dos livros que foram escritos a seu respeito. Um deles é "Carlos Marighella - O Inimigo Número um da Ditadura Militar" (Editora Casa Amarela, 2004), escrito pelo ex-preso político e jornalista, Emiliano José. Além das idéias e ações do militante, ele revela também como aconteceu a emboscada que resultou na morte de Marighella. Segundo o autor, 29 policiais participaram da operação, executada na Alameda Casa Branca, em São Paulo. Leia trecho do livro abaixo. * Nota do autor Este livro foi provocado pelo dossiê Marighella, uma impressionante quantidade de documentos entregue à Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos, em 1996. Melhor ainda dizer que a provocação partiu de Clara Charf, guardiã obstinada, serena e amorosa da memória histórica de Carlos Marighella, companheira dele desde 1948 até o dia de sua morte, em 4 de novembro de 1969. A ideia inicial era fazer um trabalho em torno apenas do dossiê, mas qualquer iniciativa dessa natureza pode ganhar, no desenvolvimento do trabalho, contornos que escapam ao controle do autor. A própria pesquisa vai indicando outros rumos, revelando mais pormenores; e aí o resultado acaba sendo diferente. Neste caso, um resultado muito mais extenso do que o pretendido originalmente. É como se o próprio personagem fosse de tal forma poderoso que acabasse por orientar, ou reorientar, o texto. Tomara que a mudança de rota agrade ao leitor. De toda forma, é importante esclarecer que se trata de uma reportagem ao Carlos Marighella, para que o livro não seja tomado como uma biografia. Esta exigiria um trabalho de pesquisa muito maior e mais demorado. A porta para a empreitada está aberta, e eu próprio não descarto a hipótese de levá-la adiante, sobretudo porque esta reportagem pode se contribuir num bom ponto de partida. Comecei a entrevistar as pessoas no início de junho de 1997 e terminei de escrever em setembro. Entre idas e vindas, diálogos com o editor e novos dados acrescentados, o livro foi entregue para a produção em meados de outubro. A pressa decorria da pretensão de que estivesse pronto no dia 4 de novembro. Seria um modo de relembrar Marighella no 28º aniversário de sua morte. Eu, Clara e Carlos Augusto Marighella, filho de Marighella, cultivamos essa doce ilusão. Não foi possível. O livro me fez mergulhar novamente nas lembranças amargas do tempo da ditadura militar. Reafirmar a mim próprio o quanto ainda tem de ser feito para esclarecer o que foi o regime pós- 1964, o quanto de segredos ainda persiste. E redescobrir quanta gente séria e dedicada existe trabalhando em busca da memória verdadeira desse período, lutando para esclarecer como as pessoas foram mortas, como desapareceram, entre 1964 e 1985. Marighella foi um personagem emblemático daquele tempo. Encarnou - e esse é o destino dos grandes homens -, mais do que ninguém, o espírito da resistência à ditadura. Dizer isso não diminui nenhuma das milhares de pessoas que se opuseram ao regime de arbítrio pós-1964. Trata-se apenas de reconhecer que ele, por razões e circunstâncias que lhe fugiram do controle, foi assumindo esse papel simbólico - e político, naturalmente. Mesmo que não o quisesse, não o pretendesse no sentido de qualquer culto à personalidade. "Marighella é o centro, a figura política por excelência da luta contra a ditadura, aquele que representou o que de melhor tem o povo brasileiro" - é assim que a ele se refere Jorge Amado, num depoimento de 1994, ele que foi seu companheiro de Constituinte em 1946.
Foi Marighella que se levantou contra o burocratismo e o conformismo do velho PCB e arrastou consigo centenas de bravos militantes para formar a ALN. Os erros que tenha cometido não obscurecem o vigor e a correção se sua crítica ao PCB, o que mais tarde será reconhecido pelo próprio Luís Carlos Prestes, inclusive publicamente, no discurso que pronunciou quando do traslado dos restos mortais de Marighella para Salvador, em 1979. A coragem em Marighella era um atributo visceral. Nunca seus verdugos conseguiram tirar dele uma única palavra que não fosse à de defesa intransigente de seus princípios políticos. Torturado barbaramente no Estado Novo, derrotou os homens de Vargas e de Filinto Mülher. Em maio de 1964, ao receber voz de prisão, dentro de um cinema no Rio de Janeiro, reagiu, foi baleado no peito e continuou a lutar, sendo dominado somente depois de receber uma violenta coronhada na cabeça. Nunca mais seria preso - prometeu a si próprio desde aquele momento. E cumpriu. Seria morto numa emboscada na alameda Casa Branca, em São Paulo, tramada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury. Carlos Marighella era um revolucionário terno, carinhoso, desses que cultivam um afeto muito grande pelos companheiros e pela família. Manteve com Clara Charf um casamento de muito amor, e de muito companheirismo, até porque partidários dos mesmos sonhos e esperanças. E era um homem impressionantemente alegre, com um profundo senso de humor. Jorge Amado, seu parceiro de redação de discursos de bancada comunista em 1946, diz que Marighella havia nascido "para rir". Ria como poucos, mas mais variadas situações. Mas, como era uma pessoa de emoções fortes, também chorava, e o mesmo Jorge Amado lembra-se de vê-lo chorando quando, ao voltar o escritor de sua primeira viagem à Europa, lhe contava dos graves erros que se cometiam nos países socialistas. Jorge Amado também assistiu ao choro convulsivo de Marighella quando o Comitê Central do PCB recebeu a comunicação oficial sobre os crimes de Stálin, em 1956. Logo que rompeu com o PCB, Marighella assumiu a perspectiva guerrilheira, inspirado na visão cubana. Fundou a ALN. Acreditou que a criação de um novo partido era desnecessária. Foi à luta. Passou a valorizar a guerrilha urbana. Provavelmente demorou-se mais do que o necessário nas grandes cidades, no que chamava de "cerco estratégico do inimigo". E acabou morto, assassinado, como reconheceu recentemente a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos, que responsabilizou o Estado brasileiro pela morte, resgatando sua imagem para a história. É provável que um balanço sereno desse período, para além dos crimes da ditadura, leve à conclusão de que os que aderiram à luta armada cometeram muitos erros, sobretudo o de não ter a paciência necessária para fazer um trabalho mais prolongado junto às classes populares de modo que a luta tivesse mais consistência, até mesmo, se fosse o caso, a própria luta armada. Mas a opção dos que se lançaram naquela luta era feita sob as condições políticos-culturais daquela específica conjuntura. E os que se dedicaram a ela o faziam com a disposição de demonstrar que havia os que resistiam, que era preciso resistir, apesar de tudo. Infelizmente, a partir de certo momento, exatamente no ano de 1969, a luta reduziu-se a um confronto quase que exclusivamente militar e obviamente desfavorável para as organizações revolucionárias, que seriam destroçadas pala ditadura nos anos seguintes, com uma violência a ser, ainda, melhor conhecida. Este livro não tem a pretensão de analisar os erros e acertos da esquerda brasileira, mas a sua leitura pode levar a algumas reflexões sobre o período tratado. Há sempre o esforço de contextualizar os acontecimentos, e isso talvez contribua para compreender melhor as atitudes das organizações políticas e dos homens e mulheres envolvidos. "Carlos Marighella - O Inimigo Número um da Ditadura Militar"
Autor: Emiliano José |
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