Mundo
03/01/2007 - 23h16

ONU tenta impedir execução de ex-colaboradores de Saddam Hussein

da Folha Online

Enquanto foi realizado nesta quarta-feira, na Jordânia, a maior manifestação até o momento contra a execução de Saddam Hussein, os apelos para impedir o enforcamento de dois ex-colaboradores do ditador iraquiano contaram hoje com o apoio do novo secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon.

Ban se uniu à chefe do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, Louise Arbour, em seus esforços para impedir a execução do meio-irmão de Saddam, Barzan Ibrahim, e de seu antigo chefe de inteligência, Awad Hamed al Bandar, que provavelmente será realizada nas primeiras horas desta quinta-feira.

Arbour renovou hoje seus pedidos ao presidente do Iraque, Jalal Talabani, para que a execução dos dois condenados seja suspensa. A chefe já havia tentado, inutilmente, impedir a execução do próprio Saddam Hussein, que foi enforcado no último sábado (30) em Bagdá.

A execução de Saddam detonou manifestações em várias partes do mundo, principalmente após ter sido divulgado um vídeo na internet no qual guardas de segurança xiitas provocam o ex-ditador nos momentos que antecedem seu enforcamento.

Repercussão

Milhares de manifestantes prestaram homenagens a Saddam Hussein nesta quarta-feira na Jordânia, enquanto no Iraque prosseguem as investigações sobre os responsáveis pela filmagem clandestina da execução do ex-ditador.

Reuters
Imagem de filmagem clandestina mostra Saddam pouco antes de execução
Imagem de filmagem clandestina mostra Saddam pouco antes de execução
Um guarda de segurança presente durante a execução do ex-ditador iraquiano foi detido hoje e será interrogado por suspeita de ligação com o vídeo amador do enforcamento, anunciou um assessor do premiê iraquiano, Nouri al Maliki.

Na maior manifestação pró-Saddam desde o enforcamento do ditador, cerca de 2.500 pessoas fizeram um protesto na Jordânia em que criticaram o clérigo radical xiita Moqtada al Sadr, classificado pelos presentes como ignóbil. "Vamos esmagar sua cabeça com nossas botas", gritavam os manifestantes.

No vídeo amador da execução, os guardas de segurança gritaram frases de ordem em defesa de Al Sadr em meio a provocações contra Saddam. Moqtada al Sadr é uma das figuras mais influentes no governo do xiita Al Maliki, que pressionou por uma rápida execução do ditador.

Mártir

O protesto de hoje foi convocado por associações profissionais da Jordânia, onde vivem duas das filhas de Saddam. Tayseer al Homsi, secretário-geral do braço jordaniano do Partido Baath (o mesmo de Saddam no Iraque), condenou a execução em seu discurso para os manifestantes.

"O governo americano, que já assassinou o Iraque antes de assassinar seu presidente legítimo, pôs seus interesses na região em perigo. Vingar o Iraque e seu presidente, transformado em mártir, se tornou uma demanda árabe do Oceano Atlântico até o Golfo", afirmou Al Homsi.

Na Argélia, outras ações de apoio a Saddam foram realizadas. O governo argelino ordenou que em todas as mesquitas do país sejam realizadas preces pelo descanso da alma do ex-ditador iraquiano, executado no início da festividade de Eid al Adha [cerimônia do sacrifício], em que os fiéis matam um animal [camelo, vaca ou, geralmente, carneiro] e distribuem a carne aos pobres.

A Argélia, no entanto, não imitou a Líbia, que decretou três dias de luto e anulou as festividades de Eid al Adha, uma das datas mais sagradas para os muçulmanos, que ocorre ao término da peregrinação aos lugares santos do islã.

Os partidos políticos argelinos qualificaram de "assassinato político" o enforcamento de Saddam. Já o governo disse que Saddam era um prisioneiro político e que devia ter sido tratado como tal.

Investigação

No Iraque, o assessor do governo Sadiq al Rikabi afirmou que foi preso um guarda em conseqüência da investigação lançada ontem pelo governo para descobrir como a execução de Saddam foi filmada clandestinamente.

"Ele foi detido e está sendo questionado para sabermos os motivos", afirmou o assessor Sadiq al Rikabi, segundo a rede de TV americana CNN. De acordo com Al Rikabi, o suspeito preso é "a mesma pessoa que vazou imagens da execução para sites na internet e estações de TV".

O governo prometeu investigar também os responsáveis pelas provocações e a violência verbal e física contra Saddam. A execução, que gerou manifestações violentas em várias partes do Iraque, está sendo apontada como uma vingança xiita contra o regime sunita que dominou o país de 1979 a 2003.

Segundo o assessor de segurança nacional, Mowaffak al Rubaie, que presenciou a execução, o enforcamento não foi uma "vingança sectária", mas o comportamento de alguns presentes era "inaceitável". "Acredito que houve infiltração de pessoas que visavam acirrar a violência", disse.

"Eles pretendiam promover uma causa política, para seus grupos ou seus líderes, mas o governo iraquiano agiu de forma correta", acrescentou Al Rubaie.

Execuções

Saddam foi enforcado na manhã do último sábado (30) na sede da antiga inteligência militar iraquiana em Bagdá, na região xiita de Kazamiyah.

Fontes do governo iraquiano e redes de TV locais informaram que os dois ex-colaboradores de Saddam Hussein deverão ser executados amanhã.

Segundo as redes de TV Al Arabiya e Al Furat, Ibrahim e Al Bandar serão enforcados. As fontes do governo confirmaram a informação em condição de anonimato.

De acordo com as fontes, os detalhes finais --como a hora exata e o local da execução-- ainda estão sendo acertados, já que o Exército dos EUA deve transportar os dois condenados da prisão até o local do enforcamento.

A princípio, Ibrahim e Al Bandar deveriam ter sido executados ao lado de Saddam no último sábado. No entanto, oficiais iraquianos disseram que queriam reservar o dia apenas para Saddam. "Queríamos que ele fosse executado em um dia especial", disse o conselheiro de segurança nacional do Iraque, Mouwafak al Rubaie, à TV estatal iraquiana.

Os três réus foram condenados à sentença de morte em 5 de novembro pelas mortes de 148 xiitas da cidade de Dujail, após uma tentativa de assassinato contra Saddam na década de 80.

Com agências internacionais

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