21/01/2007
-
10h48
Enviado especial da Folha de S.Paulo a CARACAS
Embora o presidente Hugo Chávez tenha provocado preocupação na classe média venezuelana com anúncios de nacionalização de empresas, é a reforma educacional a que mais tem despertado pânico nessa camada --que, de forma crescente, dribla o câmbio controlado para enviar dinheiro ao exterior.
"O grande tema da classe média é o que vai acontecer com a educação", disse à Folha o economista Luis Vicente León, diretor do instituto de opinião Datanalisis.
"Eles se sentem completamente estressados diante da possibilidade de que seus filhos sejam treinados em temas revolucionários. Para eles, é primitivo e absurdo que seu filho vá à escola para ouvir que Fidel Castro, a quem consideram um inimigo e assassino, foi um herói da história."
A preocupação com a a "ideologização da educação" existe desde 2001, quando foi proposta a nova Lei Orgânica da Educação, e aumentou com a recente nomeação de Adán Chávez como ministro da pasta. Irmão mais velho do presidente, ele se considera um marxista clássico e foi embaixador da Venezuela em Cuba de 2004 até agosto passado.
A educação é um dos temas em que Chávez poderá legislar por decreto com a Lei Habilitante, aprovada em primeira instância na semana passada pela Assembléia Nacional.
Embora as recentes declarações não indiquem que o governo se encaminha para essa direção, existe o temor de que a educação privada seja abolida.
De acordo com o texto da Lei Habilitante, a reforma "manterá o caráter laico em matéria educativa, preservando sua independência em relação a todas as correntes e organismos religiosos".
Para Esther Bermudez, diretora do site mequieroir.com, que orienta venezuelanos a emigrar, a ideologização da educação e o fim da propriedade privada são os principais medos de quem busca seu serviço. "Os dois fatores podem fazer com que a decisão de sair seja mais contundente."
Consumo e remessa
Boa parte da classe média, por outro lado, se beneficia de uma bonança econômica impulsionada pelo petróleo.A venda de carros, por exemplo, explodiu no ano passado, chegando a 344.351 unidades, um aumento de 50,34% em relação a 2005, segundo a Câmara Automotora da Venezuela.
O alto consumo também está refletido no cartão de crédito: 52% dos que possuem um usaram mais em 2006 em comparação com o ano anterior, segundo a Master Card.
Além do consumo, a classe média aproveita o boom econômico --o PIB venezuelano cresceu perto de 10% no ano passado- para mandar dinheiro ao exterior, quase sempre ilegalmente, já que a lei de controle cambial, implantada há quase dois anos, limita a transferência por pessoa em US$ 10 mil por ano.
"A fuga de capitais é um fato e não vai parar", afirma León. "As pessoas querem proteger seu patrimônio e o fazem pelo mercado negro. A lei apenas encarece o processo, mas é impossível contê-lo."
Além de facilitar uma eventual emigração, a conta no exterior também protege o dinheiro da contínua desvalorização da moeda local: apesar de, no câmbio oficial, US$ 1 estar fixado em 2.150 bolívares, ilegalmente a moeda americana é comprada por 4.100 bolívares.
Leia mais
Oposição venezuelana acusa governo de invadir sua sede em Caracas
Fidel Castro 'luta por sua vida', diz Hugo Chávez
Bolívia e Colômbia travam duelo ideológico na Cúpula do Mercosul
Para os ricos de Caracas, limite é reforma educativa
FABIANO MAISONNAVEEnviado especial da Folha de S.Paulo a CARACAS
Embora o presidente Hugo Chávez tenha provocado preocupação na classe média venezuelana com anúncios de nacionalização de empresas, é a reforma educacional a que mais tem despertado pânico nessa camada --que, de forma crescente, dribla o câmbio controlado para enviar dinheiro ao exterior.
"O grande tema da classe média é o que vai acontecer com a educação", disse à Folha o economista Luis Vicente León, diretor do instituto de opinião Datanalisis.
"Eles se sentem completamente estressados diante da possibilidade de que seus filhos sejam treinados em temas revolucionários. Para eles, é primitivo e absurdo que seu filho vá à escola para ouvir que Fidel Castro, a quem consideram um inimigo e assassino, foi um herói da história."
A preocupação com a a "ideologização da educação" existe desde 2001, quando foi proposta a nova Lei Orgânica da Educação, e aumentou com a recente nomeação de Adán Chávez como ministro da pasta. Irmão mais velho do presidente, ele se considera um marxista clássico e foi embaixador da Venezuela em Cuba de 2004 até agosto passado.
A educação é um dos temas em que Chávez poderá legislar por decreto com a Lei Habilitante, aprovada em primeira instância na semana passada pela Assembléia Nacional.
Embora as recentes declarações não indiquem que o governo se encaminha para essa direção, existe o temor de que a educação privada seja abolida.
De acordo com o texto da Lei Habilitante, a reforma "manterá o caráter laico em matéria educativa, preservando sua independência em relação a todas as correntes e organismos religiosos".
Para Esther Bermudez, diretora do site mequieroir.com, que orienta venezuelanos a emigrar, a ideologização da educação e o fim da propriedade privada são os principais medos de quem busca seu serviço. "Os dois fatores podem fazer com que a decisão de sair seja mais contundente."
Consumo e remessa
Boa parte da classe média, por outro lado, se beneficia de uma bonança econômica impulsionada pelo petróleo.A venda de carros, por exemplo, explodiu no ano passado, chegando a 344.351 unidades, um aumento de 50,34% em relação a 2005, segundo a Câmara Automotora da Venezuela.
O alto consumo também está refletido no cartão de crédito: 52% dos que possuem um usaram mais em 2006 em comparação com o ano anterior, segundo a Master Card.
Além do consumo, a classe média aproveita o boom econômico --o PIB venezuelano cresceu perto de 10% no ano passado- para mandar dinheiro ao exterior, quase sempre ilegalmente, já que a lei de controle cambial, implantada há quase dois anos, limita a transferência por pessoa em US$ 10 mil por ano.
"A fuga de capitais é um fato e não vai parar", afirma León. "As pessoas querem proteger seu patrimônio e o fazem pelo mercado negro. A lei apenas encarece o processo, mas é impossível contê-lo."
Além de facilitar uma eventual emigração, a conta no exterior também protege o dinheiro da contínua desvalorização da moeda local: apesar de, no câmbio oficial, US$ 1 estar fixado em 2.150 bolívares, ilegalmente a moeda americana é comprada por 4.100 bolívares.
Leia mais

