Mundo
19/09/2001 - 03h21

Parte do governo americano quer implicar Saddam

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PATRICE DE BEER
do "Le Monde"

"Atualmente não há nenhuma prova de que o regime iraquiano esteja implicado nos atentados suicidas", declarou anteontem o vice-presidente dos EUA, Dick Cheney. "Ainda não temos uma impressão digital do Iraque [que o implique no caso]", completou Colin Powell, secretário de Estado americano.

Mesmo assim, os EUA mantêm sua postura de "continuar a observação e de manter a determinação de estabelecer as conexões que existem entre diferentes regimes do mundo e esse tipo de ato".

O Iraque, que figura na lista norte-americana de países que dão suporte ao terrorismo internacional, foi uma das poucas nações que não condenaram os atentados. Powell afirmou que a recusa de Saddam Hussein em criticar os ataques foi reveladora de sua posição.

Conter e tentar derrubar o poder em Bagdá é, desde a posse de George W. Bush, um dos principais objetivos da política externa americana.

Mas sua equipe parece dividida, como já esteve antes, entre os mais duros e os moderados: aqueles que querem aproveitar a ocasião para arrasar o que o governo de seu pai, George Bush, não pôde durante a Guerra do Golfo (1991) e aqueles que acreditam que a principal prioridade é formar uma coalizão, com o argumento de que um ataque contra Bagdá não seria a melhor maneira de convencer seus aliados a se unirem à causa americana.

Certamente não há certeza de que os países europeus, ou árabes, aceitarão sem reclamar uma operação militar contra o Iraque sob o pretexto de frear o terrorismo islâmico. Um ataque contra Bagdá poderia romper os laços de solidariedade entre os países europeus e árabes.

Não se deve, contudo, minimizar a influência do lobby antiiraquiano em uma nova administração que conta com tantos veteranos da Guerra do Golfo.

Ainda mais pelo fato de que um ataque contra o aparelho militar iraquiano poderia ter o mérito de ser, no curto prazo, mais espetacular -e mais eficaz- do que lançar alguns mísseis perdidos no deserto de pedra do Afeganistão.

Uma funcionário do governo americano afirmou ontem que Mohamed Atta, suspeito de ter sido o piloto sequestrador de um dos aviões que se chocaram contra o World Trade Center, teria se encontrado com um oficial da inteligência iraquiana na Europa. Não se sabe o que teria sido discutido nesse encontro e não há evidência de que possa estar ligado com os atentados.

"Há uma série de pistas, dicas, informações e boatos circulando, mas será que somam uma forte evidência da responsabilidade de um Estado? Ainda não. Estamos atrás disso? Claro, dentre milhares de outras coisas", disse um oficial da inteligência dos EUA que pediu anonimato.

Livrar-se de Saddam
Paul Wolfowitz, o número dois do Pentágono - que não parou de repetir nos últimos dez anos que os Estados Unidos deveriam acabar com o ditador de Bagdá- declarou na semana passada que "todos os Estados que apóiam o terrorismo deveriam ser destruídos".

Para ele, como para o ex-chefe da CIA James Woolsey, tendo ou não provas de envolvimento nos atentados, a ocasião seria muito boa para os Estados Unidos tentarem se livrar de uma vez de Saddam Hussein.

Analista da American Enterprise Institute, com sede em Washington -um grupo de estudos conservador ligado ao vice Dick Cheney, secretário da Defesa na época da Guerra do Golfo-, e autora da obra "Estudo da Vingança: a Guerra Inacabada de Saddam Hussein Contra a América", Laurie Mylroie afirma que Osama bin Laden seria incapaz de coordenar operações em escala mundial sem o apoio de um aparato estatal, no caso o do Iraque.
Ela também está convencida de que Bagdá envolveu-se no atentado de 1993 contra o World Trade Center.

O jornal "The Wall Street Journal" publicou neste final de semana um longo artigo em que ela sustenta que as ameaças proferidas por Bin Laden antes do atentado contra as embaixadas americanas do Quênia e da Tanzânia em 1998 -pelos quais o milionário saudita e líder terrorista também foi apontado como responsável- foram coordenadas com a campanha de Bagdá contra a Unscom (agência da ONU encarregada de garantir o respeito do Iraque às determinações das Nações Unidas sobre seu desarmamento).

Mylroie lembra também que existem fortes laços entre o Al Qaeda, a organização de Bin Laden, e o Sudão, velho aliado de Saddam Hussein.

Leia mais no especial sobre atentados nos EUA
 

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