Venezuela proíbe manifestação de estudantes
FABIANO MAISONNAVE
da Folha de S.Paulo, em Caracas
Uma barreira de dezenas de policiais de tropa de choque, respaldada por um caminhão de jato de água e um helicóptero, impediu que vários milhares de estudantes deixassem a Universidade Católica Andrés Bello (Ucab) para protestar em favor da liberdade de expressão, em razão do fim da concessão da emissora oposicionista RCTV, no domingo passado.
A marcha foi proibida pelo prefeito da região central de Caracas, Freddy Bernal, aliado do presidente Hugo Chávez. A tropa de choque é da Polícia Metropolitana e também está à disposição do governo federal.
"Isso, isso é um seqüestro", gritavam os estudantes para a linha de policiais postada diante do portão principal da universidade, a maior instituição de ensino privado venezuelana, com 13 mil alunos. Versão local da PUC, é considerada uma universidade de elite.
"Ao outro lado permitiram ontem que chegassem até o palácio Miraflores. Hoje, não podemos nem sair da universidade", disse o estudante de economia da Ucab Jorge Levitt, 23.
Por volta das 14h, os manifestantes, espremidos diante do portão, ensaiaram forçar a passagem pelos policiais, mas foram contidos pelos líderes estudantis, que, com megafones, pediram que todos se sentassem. Um cordão de segurança feito pelos próprios estudantes foi improvisado para segurar os mais exaltados.
Cerca de uma hora depois, chegou uma marcha de milhares de estudantes da Universidade Central da Venezuela (pública), de pele muito mais escura que a dos colegas da Ucab, forçando os policiais a abrir o cordão. Os dois grupos se uniram aos gritos de "estudantes!", muitos vestidos de preto -quase não se via a cor vermelha, símbolo do chavismo.
"A atuação do governo é uma provocação e uma torpeza, porque não está deixando que os estudantes nem sequer caminhem pelas calçadas de Caracas. O governo deveria ser o principal interessado em que não houvesse violência", disse Marino Alvarado, observador do Fórum pela Vida, uma coalizão de ONGs de direitos humanos criada para acompanhar os protestos. Em vão, ele tentou convencer o comandante da tropa de choque a deixar que os estudantes caminhassem pela lateral da avenida.
Comitiva
Os estudantes se dispersaram no final da tarde, depois que uma comitiva entregou um documento ao deputado Ismael Garcia, que, apesar de governista, vem mantendo uma posição crítica a Chávez nos últimos meses. O documento exige que os congressistas chavistas retirem declarações feitas nesta semana, nas quais acusaram os protestos de ser um "golpe em andamento", planejado por partidos da oposição.
O roteiro dos estudantes, anunciado em entrevista coletiva anteontem à tarde, era se reunir na praça La India, no setor oeste da capital, e daí marchar até a Assembléia Nacional, controlada pelos chavistas depois que a oposição boicotou as eleições legislativas de 2005.
Os problemas começaram logo de manhã. Imagens de TV mostraram militantes pró-Chávez, muitos em cima de motos, ocupando a praça India sem nenhuma intervenção das forças públicas, desorientando os primeiros manifestantes. Em seguida, por celular, os estudantes -vários vindos de fora da capital- foram orientados a seguir até a Ucab.
Muitas mães vieram buscar seus filhos no fim do dia, em meio a rumores de que haveria militantes dos círculos bolivarianos e enfrentamentos perto da universidade. "Vim buscar pelo medo de que ela fosse atacada pela Guarda Nacional. Na zona onde vivo, os estudantes foram atacados com gás lacrimogêneo e balas de borracha", disse Diana de Smith, mãe de uma estudante de engenharia.
Desde segunda-feira, estudantes universitários protestam contra o fim da concessão da RCTV, no último domingo. O governo Chávez diz que se trata de uma medida "administrativa" que cabe ao Estado e tem lembrado que a emissora apoiou abertamente a tentativa de golpe de Estado de 2002.
Leia mais
- Venezuelanos mantém protestos pró-RCTV; EUA exigem volta da rede
- RCTV dribla Chávez e mantém transmissões via internet
- Comentário: Fim da RCTV foi "sem querer querendo"
- Para analistas, morte da RCTV "asfixia" oposição na Venezuela
- Oposição na Venezuela pede referendo sobre fechamento de TV
- Lula diz que fechamento da RCTV é problema da Venezuela
Especial

