Triunfo na Guerra dos Seis dias se tornou ameaça para Israel
ANDREA MURTA
da Folha Online
A Guerra dos Seis Dias, que completa 40 anos nesta terça-feira, levou para Israel as colinas de Golã, o deserto do Sinai, a faixa de Gaza, a Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Mas além dos territórios, Israel conquistou em 1967 problemas que, quatro décadas depois, continuam tão vívidos quanto a memória da guerra entre os que sobreviveram a ela.
A sensação inicial foi de triunfo. Depois de um ataque surpresa, o país de apenas 19 anos e rodeado de inimigos vencera não apenas o então poderoso Egito mas também a Jordânia e a Síria. Tudo em 132 horas, de acordo com a contagem da enciclopédia Britannica.
| Loay Abu Haykel/Reuters |
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| Garoto palestino participa de protesto contra os 40 anos da ocupação israelense |
"A vitória foi tão rápida e abrangente que depois dela os israelenses tiveram uma grande sensação de segurança", afirma Jerome Segal, diretor do Projeto Jerusalém do Centro de Segurança Internacional da Universidade de Maryland (Estados Unidos) e especialista em relações israelo-palestinas.
Segal, autor de "Criando o Estado Palestino: Uma Estratégia para a Paz" (Lawrence Hill & Co, 1989, sem versão em português), defendeu em entrevista à Folha Online de seu escritório na universidade que a conquista da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental redefiniram o próprio Estado de Israel para muitas pessoas.
"Claro, estamos falando de uma população muito dividida. Hoje, muitos israelenses estariam preparados para abandonar as terras em troca de paz. A verdade é que a necessidade de controlar estes territórios foi um desastre para Israel e envenenou a vida lá", afirma.
Terras por paz
Para Segal, há vantagens inegáveis na ocupação. Ele afirma que a aceitação do Estado de Israel e a proposta de paz árabe não existiam entre os países vizinhos antes de 1967. "Em termos muito gerais, a guerra deu a Israel algo para oferecer em troca da paz. Isso não seria possível sem os territórios conquistados na Guerra dos Seis Dias".
A ocupação que ainda existe em Gaza, na Cisjordânia, em Jerusalém e em Golã, ao lado da continuidade da insegurança na região, deixam claro no entanto que o plano não deu muito certo.
| Yonathan Weitzman/Reuters |
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| Judeu ortodoxo caminha por rua de Jerusalém; ocupação faz 40 anos |
O historiador James Gelvin, professor da Universidade da Califórnia-Los Angeles (UCLA) e autor de "O Conflito Israelo-Palestino: Cem anos de Guerra" (Cambridge University Press, 2005, sem edição em português), afirma que hoje a manutenção dos territórios representa mais uma ameaça do que uma vantagem para Israel.
Em entrevista por telefone à Folha Online de Los Angeles, Gelvin afirma que a única vez em que a estratégia de troca de "terras por paz" realmente deu certo foi na devolução da região de Sinai ao Egito.
A ocupação, para Gelvin, serve para unir os adversários de Israel em torno de um tema único: os territórios ocupados, especialmente os palestinos. E, "em tempos de mísseis de longo alcance, a idéia de que Israel precisa manter os territórios para sua segurança é uma ilusão".
Exemplo dessa ilusão é o Irã, que os próprios israelenses consideram uma de suas maiores ameaças. "Manter a ocupação não impediria bombas iranianas de chegarem até Tel Aviv", lembra o historiador. "A segurança de Israel depende muito mais de sua habilidade de alcançar a paz com seus vizinhos -em particular com os palestinos."
Efeito colateral
O plano de barganha de terras por paz não incluía a parte mais importante dos conflitos israelenses atuais --os palestinos. Mas, ironicamente, a Guerra dos Seis dias teve o efeito colateral de trazer a questão palestina para a agenda global, de acordo com Gelvin.
Ele afirma que a ocupação de um território três vezes maior do que o inicialmente previsto para Israel favoreceu a criação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que manteve forte a defesa de um Estado para seu povo.
"Foi só em 1968 que Iasser Arafat e seus companheiros puderam assumir a liderança e reformular o movimento. A OLP tem que prestar contas de muitas coisas, mas foi graças a ela que a noção palestina de nação sobreviveu até os dias atuais", completa.
Devolução distante
Quarenta anos de oportunidades desperdiçadas mostram que a devolução dos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias é complicada. "Nos primeiros 20 anos depois da guerra", afirma Segal, "os palestinos não estavam prontos para a troca de "terras por paz".
No que se refere à Golã, o especialista diz que foi Israel que perdeu a oportunidade. "A devolução e um acordo de paz poderiam ter sido feitos durante a administração [do ex-presidente americano Bill] Clinton, mas o governo israelense não foi adiante por questões políticas. Acho que foi um grande erro", completa.
| Arte Folha Online |
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É preciso lembrar que a ligação dos israelenses com cada território é diferente: enquanto Israel não hesitou muito para entregar o deserto do Sinai de volta ao Egito em troca de paz, a desocupação de Jerusalém Oriental nunca foi colocada na mesa --Israel continua a proclamar a cidade sua capital única e indivisível, assim como os palestinos.
Nos últimos anos, o governo israelense tentou resolver a questão por conta própria, retirando-se unilateralmente de Gaza em 2005. Com uma plataforma de decisões unilaterais, o atual partido no poder, o Kadima, foi eleito. Mas essa idéia fracassou no verão de 2006, com a guerra com o Líbano e novos conflitos com os palestinos.
A população reagiu contra o governo: para ela, os territórios que começavam a ser desocupados se mostraram perigosos e ainda mais povoados por ferrenhos adversários. Isso tornou os israelenses, na opinião de Gelvin, mais céticos quanto à devolução das terras conquistadas em 1967, e enfraqueceu a posição do governo.
"A maioria dos israelenses não apoiaria nunca a desocupação de Jerusalém Oriental, mas por outros territórios, incluindo Gaza, eles não derramariam muitas lágrimas", diz Gelvin. "O ceticismo de hoje não existe porque eles não são favoráveis aos acordos de paz com os palestinos, mas porque não acreditam que os planos podem dar certo."
Assentamentos
Mesmo nos locais de onde Israel já retirou suas forças, como nos antigos assentamentos judaicos em Gaza e, em menor escala, na Cisjordânia, ainda há significativa presença de fundamentalistas contrários à devolução. Os protestos são mais visíveis por parte dos ex-colonos, que têm associações para buscar o retorno aos assentamentos.
Gelvin afirma que a configuração política de Israel, em certa medida, favorece os protestos dos ex-colonos. "O movimento dos colonos é muito importante dentro do partido religioso judaico, e o partido é muito importante na coalizão do governo. Assim, a minoria de ex-colonos consegue exercer grande pressão sobre o governo", diz o historiador.
Uma das razões declaradas para a defesa dos assentamentos é que a conquista dos territórios ocupados é um direito divino dos judeus de voltarem a seu lar histórico.
Nesse movimento pró-assentamentos, porém, a religião tem papel menor do que a economia, segundo Gelvin.
Enquanto o governo promovia a ocupação dos assentamentos com inúmeros benefícios econômicos, a vida nas grandes cidades israelenses ficava cada vez mais cara. "Para um jovem casal que não consegue comprar um apartamento em Tel Aviv, uma casa subsidiada em um assentamento é muito atraente", diz o especialista.
Cessar-fogo e paz
Para Gelvin, lideranças enfraquecidas tanto do lado palestino quanto do israelense não oferecem contexto adequado para o progresso do processo de paz no Oriente Médio atual.
"O máximo que pode ser alcançado neste momento é um longo cessar-fogo", diz. "A única coisa que se pode fazer é manter o 'status quo', com o mínimo de mortes possível, e esperar por um momento adequado para uma negociação de paz."
| 03.jun.2007/AP |
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| Menino palestino pula muro que separa Israel da vila de A-Ram, na Cisjordãnia |
Segal defende um "momento da verdade": "Israel deveria oferecer uma proposta de paz aos palestinos similar à proposta por Clinton. A ratificação dessa proposta pode ser feita por um referendo, sem precisar da aprovação do [movimento islâmico que lidera o Parlamento palestino] Hamas".
Questionados sobre a evolução do cenário desde 1967, as opiniões variam.
"Estamos mais próximos da paz se considerarmos a duração da paz com o Egito e a iniciativa de paz árabe. Mas, ao mesmo tempo, houve um grande aprofundamento da animosidade. O conflito é hoje mais amargo do há 40 anos. Acho que a violência ainda pode crescer mais", afirma Segal.
Já para Gelvin, estamos melhores hoje do que em 1967. "Hoje reconhecemos que o conflito não é mais entre Estados, mas entre dois povos --os palestinos e os israelenses. Nesse ponto houve um progresso. Este é o conflito original de Israel, e estando resolvido, todo o resto poderá se acertar".
Com enciclopédia Britannica e agências France Presse e Associated Press
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