Rússia suspende pacto que controla forças militares na Europa
da Folha Online
Após meses de ameaças, a Rússia suspendeu neste sábado sua participação em um tratado que limita o destacamento de forças militares na Europa. A suspensão do Tratado sobre Forças Convencionais (CFE, na sigla em inglês) chega em meio à deterioração das relações do Kremlin com os europeus e com os Estados Unidos em várias frentes.
| 26.abr.2007/AP |
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| Vladimir Putin suspendeu o tratado sobre armas convencionais na Europa |
Entre os principais pontos de tensão entre a Rússia e o Ocidente estão a polêmica sobre a independência de Kosovo e a implantação de um sistema de defesa antimísseis norte-americano no Leste Europeu, às quais o Kremlin se opõe.
Com a suspensão, o país irá interromper o fornecimento de informações e impedirá inspeções em suas armas pesadas, além de passar a decidir unilateralmente quantos tanques ou aeronaves serão destacados para cada região.
Apesar das novas disposições, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia afirmou que a "moratória não significa que foi fechada totalmente a porta para o diálogo.
A decisão foi motivo de alerta nos Estados Unidos. "As ameaças da Rússia se materializaram e eu não descarto que novos passos possam se seguir", disse Yevgeny Volk, líder da organização baseada em Washington Heritage Foundation. "Se não houver acordo com os EUA sobre o escudo antimísseis... a Rússia potencialmente poderá cumprir suas ameaças de retaliar e redistribuir mísseis contra alvos europeus."
Segurança Nacional
O Kremlin afirmou que o presidente russo, Vladimir Putin, assinou o decreto suspendendo o papel da Rússia no CFE por razões de "segurança nacional". O pacto foi adotado em 1990, no final da Guerra Fria, para limitar o número de tanques, artilharia pesada e aeronaves de combate destacados entre o Atlântico e os montes Urais, na Rússia.
| Misha Japaridze/AP |
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| A decisão de Putin pode deteriorar ainda mais as relações da Rússia com os EUA |
A Rússia criticou o Ocidente por não ratificar uma versão revisada do tratado que considerava o novo cenário pós-Guerra Fria. Negociações com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar liderada pelos EUA) no último mês foram encerradas sem progresso.
A Otan criticou a decisão russa neste sábado. "O secretário-geral da Otan ficará muito decepcionado se a suspensão se confirmar. O tratado é uma importante base da segurança da Europa", afirmou um porta-voz.
Líderes europeus como o vice-ministro das Relações Exteriores da Polônia, Witold Waszczykowski, também criticaram a medida. "Talvez isso seja um pretexto, que pode estar relacionado aos planos [americanos] de construir um escudo antimísseis na Polônia e na República Tcheca", disse o vice-ministro.
"Ou talvez a suspensão esteja ligada a questões internas, como uma forma de a Rússia mostrar força antes da próxima campanha presidencial", completou. Putin deverá deixar a Presidência da Rússia em março de 2008, quando expira seu segundo mandato.
Movimentação nas fronteiras
Um dos pontos de tensão do CFE é a insistência da Otan em preservar provisões que impedem grandes concentrações de forças e materiais militares perto de algumas fronteiras.
A Rússia se opõe a esta provisão alegando que ela limita os movimentos das tropas russas em seu próprio território, apesar de, segundo Moscou, algumas regiões das fronteiras terem se tornado mais instáveis desde o fim da União Soviética em 1991.
Ao mesmo tempo, a Rússia pressiona pelo corte de tropas da Otan em algumas partes do território do Leste Europeu.
A Otan afirma que qualquer mudança no tratado só poderá ser discutida depois que a Rússia retirar tropas das ex-repúblicas soviéticas da Moldova e Geórgia, mas o Kremlin defende que os dois assuntos não tem qualquer ligação.
Kosovo
Um dos possíveis motivos de tensão no Kremline é o plano da ONU para Kosovo, que prevê que a Província separatista sérvia deveria ter sua própria Constituição e ser membro de organizações internacionais --o que daria efetivamente a ela um status de governo soberano.
Kosovo tem sido um protetorado internacional desde a guerra de 1998-1999 entre tropas sérvias e descendentes de albaneses lutando por independência. O governo em Belgrado ofereceu ampla autonomia à Província, mas rejeita uma separação total como exigida pelos kosovares albaneses. A Sérvia considera Kosovo como seu território histórico, além do berço original do Estado e da religião sérvios.
A Rússia, que pode usar seu poder de veto no Conselho de Segurança da ONU para impedir a aprovação do plano, se colocou ao lado de Belgrado na oposição à separação da Província. Putin deixou recentemente patente sua postura ao negar que o caso do Kosovo seja diferente dos de outras regiões com movimentos separatistas, como a Abkházia, a Ossétia do Sul, a Transnístria e o País Basco --para os quais não há pressão internacional a favor de independência.
"Não entendemos por que teríamos que apoiar uma série de princípios em uma parte da Europa e outra em outras regiões do continente", disse Putin.
Com Reuters
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