Mundo
21/07/2007 - 09h38

Briga entre o presidente Chávez e a igreja católica chega ao ápice

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FABIANO MAISONNAVE
da Folha de São Paulo, em Caracas

As tumultuadas relações entre a Igreja Católica e o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, atravessam um dos seus piores momentos depois que o Conselho Episcopal Venezuelano (CEV) divulgou um duro documento condenando reformas impulsadas pelo governo.

O documento, aprovado há duas semanas pela 88ª Assembléia de Bispos e Arcebispos da Venezuela, classifica o governo Chávez de "populista" e critica pontos como a política econômica, a reforma educacional, a não-renovação da concessão do canal RCTV e até o lema "pátria, socialismo ou morte".

"Os altos recursos do petróleo se vêem acompanhados pelo aumento da corrupção e do clientelismo político. Cada dia nosso país se faz mais rentista e perde a oportunidade de se converter num país produtivo", diz o documento, cuja íntegra está no site www.cev.org.ve.

Uma das principais preocupações demonstradas pela cúpula da igreja é a reforma educacional, área na qual tem ampla atuação: "Há a preocupação sobre a pretensão de propor uma educação com uma única e determinada orientação política e ideológica".

O documento faz ainda uma referência direta a Chávez ao afirmar que "ninguém, e muito menos o presidente da República, tem o direito a insultar ou agredir pessoas ou instituições que discordem de suas opiniões ou projetos". A resposta de Chávez veio nesta semana. Na segunda-feira, o presidente venezuelano disse lamentar que o CEV atue "como um partido".

Pecado

"Lamento muito isso, que ataquem com mentiras, isso é um pecado. Eu me nego a pensar que os bispos e cardeais, que cursaram muito anos de estudo, não saibam o que dizem", discursou Chávez a militares.

Na quarta-feira, em tom mais duro ainda, o presidente chamou a elite da igreja de "fariseus hipócritas" e insinuou que Jesus Cristo --a quem costuma chamar de "o primeiro socialista"-- está do seu lado.

"Não sei o que faria Cristo a alguns bispos aqui da Venezuela (...), que se põem ao lado dos tiranos, dos que exploram o povo, dos que traem o pensamento e a obra de Jesus e apunhalam Cristo pelas costas".

Considerado um dos mais ferozes críticos de Chávez, o vice-presidente do CEV, bispo Roberto Lückert , disse que a politização é necessária devido aos rumos tomados pelo governo.

"Alguém tem de fazê-lo, alguém tem de dizer as coisas", disse. "O temor é que se implemente na Venezuela um regime igual ao de Fidel, autocrático, totalitário e militarista."

Para o padre jesuíta Jesús María Aguirre, o último documento do CEV é também o mais duro contra Chávez desde o início de seu governo, há oito anos. "É o texto que marca mais distância", disse à Folha. "Desde o ponto de vista ideológico e conceitual, é o mais frontal."

Aguirre acredita que a estratégia do CEV seja equivocada, pois tende a afastar a cúpula da igreja das camadas mais pobres da população, amplamente favoráveis a Chávez. "Vejo um grande inconveniente em que os sacerdotes entrem numa confrontação pública direta. Essa posição beligerante simplesmente política rompe relações com o movimento popular", disse o jesuíta, professor de comunicação da Universidade Católica Andrés Bello.

Para ele há uma ferida "nunca curada" entre o governo e a cúpula da igreja desde o frustrado golpe de abril de 2002, quando o então cardeal Velasco assinou a posse do empresário Pedro Carmona, que substituiu Chávez por quase dois dias.

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