Mundo
29/08/2007 - 18h37

Filme "A Rainha" é "decepcionante" e "óbvio", diz diretor brasileiro

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MARIA CAROLINA ABE
da Folha Online

Em 31 de agosto completam-se dez anos da morte da princesa Diana, em um acidente de carro na ponte D' Alma, em Paris. O cineasta pernambucano Marcelo Gomes, diretor de "Cinema, Aspirinas e Urubus" --filme escolhido como candidato brasileiro para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano--, falou com a Folha Online por telefone da Alemanha sobre o filme "A Rainha" ("The Queen", 2006), do diretor britânico Stephen Frears, que retrata a família real.

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

Você viu o filme "A Rainha"?
Vi há muito tempo, acho que já faz um ano, mais ou menos.

Você chegou a morar na Inglaterra?
Eu vivi na Inglaterra em 1991 e 1992, uma parte em Bristol, onde eu fiz um curso de cinema, e uma parte em Londres, depois que o curso acabou.

Você lembra de, em 1997, ter visto ou lido algo sobre a reação da família real britânica à morte da princesa Diana?
Eu morei lá muito antes. E eu lembro vagamente, porque é algo a que eu não me atenho muito. Uma coisa que não me interessa muito é a vida da família real. Eu acho que aprendi um pouco também com os ingleses com quem eu convivi lá: acho que no Brasil se fala mais da família real do que na própria Inglaterra --quer dizer, no meio em que eu convivi, de pessoas que estavam querendo estudar cinema, eu estava fazendo mestrado numa universidade, são pessoas que não se atém muito à família real, têm outras questões para se preocupar.

Por que você decidiu ver o filme?
Eu fiquei curioso de ver o Stephen Frear --porque é um cineasta que eu admiro, principalmente pelos temas dos filmes dele, que são bem ousados, um cinema que fala dos fracassados, das pessoas que estão à parte da sociedade-- falar da rainha. Eu achei muito estranho um diretor que fez filmes como "Minha Adorável Lavanderia" ["My Beautiful Laundrette", 1985] e "Prick Up Your Ears" [1987, "O Amor Não Tem Sexo", nome em português] e "Sammy and Rosie Get Laid" [1987, "Sammy e Rosie"], que foram filmes que me marcaram, acho que eu gosto mais dessa fase dele, até o próprio "The Hit" [1984, "O Traidor"]. São filmes que falam de "outsiders" e fracassados, esse tipo de filmes que me interessam. Para falar a verdade, eu fui mais por curiosidade, para ver como ele ia tratar um tipo de filme que não fala dessa realidade, dessas pessoas, fala da realeza.

Qual foi sua impressão geral?
Eu tive a impressão que eu estava vendo um filme feito para a BBC, sabe aqueles filmes bem produzidos para a BBC? Para atrair um público maior, porque a BBC é muito boa, é a melhor televisão do mundo que eu conheço, produz uma dramaturgia muito interessante, mas é uma dramaturgia que não está querendo (...) é um cinema que não está querendo buscar novos formatos de contar a história. Tem uma narrativa extremamente clássica, apesar de muito bem feita, com atores fenomenais. Então era exatamente isso que eu estava esperando e foi exatamente isso que eu encontrei.

Obviamente que tem um humor inglês muito peculiar. Foi muito engraçado, porque na sessão que eu assisti, poucas pessoas riram, e eu ri muito. Tem aquele humor inglês muito mordaz, como na hora em que a própria rainha diz ao Tony Blair que um dia as pessoas também podem ficar contra ele. Então tem um humor sofisticado inglês, mas foi muito previsível e decepcionante. Eu prefiro o Stephen Frears que narra os "outsiders", frustrados e perdedores, que é o tipo de cinema que me interessa mais.

Você achou que a forma com que ele mostrou a reação da rainha à morte da princesa Diana foi fria demais, foi exagerada ou corresponde à realidade?
Bem, eu não fiquei interessado em ver as vicissitudes da rainha, ou os momentos em que a rainha se sentia fragilizada pelo amor dela em relação aos súditos, ou vice-versa, ou pela história de uma mulher que dedicou a vida dela à realeza britânica. Isso não é uma coisa que me interessa muito.

Porque você vê um filme como "A Rainha Margot" ["La Reine Margot", 1994], é um filme que trata de uma rainha, que foi feita pela atriz Isabelle Adjani. Mas é um filme que tem uma "mise-en-scène", uma construção da realidade, extremamente interessante. Eu acho que filmes históricos têm que me dar alguma coisa a mais, têm que me surpreender, tem que me dar algo diferente. Como o próprio filme do Gus Van Sant, "Elephant" [2003, "Elefante"], que trata de um tema extremamente "broadcast news", é uma notícia, e ele transforma aquela notícia é um poema maravilhoso. E talvez eu estava esperando isso, fui ver o Stephen Frears, e talvez por isso meu desencanto com o filme. Não posso negar que ele é um excelente diretor, tem atores como poucos, mas ele se distanciou muito do cinema que me interessa, do cinema enquanto linguagem.

Você lembra alguma cena específica?
Eu achei as metáforas um pouco óbvias. Por exemplo, toda aquela coisa do veado que morre, e do veado que representa a realeza, e então ela sentir a sua própria morte, de ela se sentir uma pessoa mortal e talvez não tão amada pelos súditos quanto ela achava. Mas eu acho um tanto óbvias as metáforas. É um tipo de filme que depois de uma semana você esquece 90% dele. E há outros filmes que você carrega com você, esse com certeza eu não vou carregar comigo. Eu acho que talvez ele vai ficar conhecido no mundo inteiro por causa desse filme, é um filme que foi indicado ao Oscar, é um filme que tem um apelo muito grande --afinal de contas, está tratando de duas pessoas muito importantes para a mídia mundial, que todo mundo conhece.

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