Mundo
27/08/2007 - 18h59

Afeganistão atinge recorde na produção de ópio, diz ONU

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da Folha Online

A colheita de ópio no Afeganistão aumentará 34% e chegará a mais de 8.000 toneladas em 2007. Trata-se do maior volume de ópio já colhido no Afeganistão, principal produtor da droga no mundo e cuja superfície dedicada ao cultivo da papoula --matéria-prima do ópio-- ultrapassa a dedicada à cocaína na Colômbia, Peru e Bolívia juntos, informou a Organização das Nações Unidas (ONU) nesta segunda-feira. O Afeganistão já era o principal produtor do ópio, que serve de matéria-prima para a produção de heroína.

09.abr.2007/Ahmad Masood/Reuters
Homem trabalha em campo no ópio na Província de Ningarhar; Cultivo financia grupos rebeldes
Homem trabalha em campo no ópio na Província de Ningarhar; Cultivo financia grupos rebeldes

"A produção de ópio alcançou níveis recordes em 2007 e se concentra fundamentalmente no sul do país, uma zona instável [onde se concentram os rebeldes radicais islâmicos do Taleban]", informa o relatório da Agência da ONU contra a Droga e o Crime (ONUDC), divulgado hoje, em Cabul, capital do Afeganistão.

O ópio afegão representa 93% do cultivo mundial, contra 92% em 2006. "Nenhum outro país produzia narcóticos em escala semelhante desde a China no século 19", informa o documento.

Em 2007, serão cultivados cerca de 193 mil hectares de papoula, em comparação aos 165 mil de 2006. O Afeganistão deve produzir 8.200 toneladas de ópio em 2007. Em 2006, o país produziu 6.700 toneladas, segundo Costa.

Cerca de 3,3 milhões dos 25 milhões de habitantes do país possuem envolvimento com a produção de ópio, segundo o relatório.

Previsão

O avanço na produção de ópio acontecerá, apesar dos esforços do Reino Unido e dos Estados Unidos, que desembolsaram milhões de dólares para a erradicação desse cultivo tradicional, utilizado hoje em dia para financiar as atividades dos insurgentes islâmicos talebans contra o governo do presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, que é apoiado por 50 mil soldados estrangeiros.

"O cultivo do ópio vai na relação inversa ao controle governamental", explicou o diretor-executivo da ONUDC, Antônio Maria Costa.

No centro e no norte do país, onde há maior presença de instituições governamentais ativas, o cultivo de ópio está caindo, enquanto que, no sul, houve o contrário. Cerca de 80% das papoulas opiáceas provêm de algumas poucas Províncias fronteiriças com o Paquistão.

A Província de Helmand, no sul do Afeganistão, onde se concentra a rebelião, é o principal foco de produção de ópio e supera a produção de países inteiros, completou o informe, acrescentando que aumentou 48%. A Província, com 2,7 milhões de habitantes, é a mais importante fonte de cultivos destinados à produção da droga no mundo.

De acordo com o estudo, o cultivo da papoula está ligado estreitamente à insurreição dos talebans e serve para o financiamento da guerra contra o poder. Em 2000, os talebans chegaram a proibir, por meio de um fatwa (decreto religioso), o cultivo da papoula.

"O que era considerado um pecado, agora se estimula", avaliou Costa, que pediu às autoridades afegãs e à comunidade internacional que façam um esforço mais enérgico na luta contra duas ameaças gêmeas: a droga e a insurgência.

Governo

Outro fator que propicia o cultivo da papoula para a produção da droga no Afeganistão é a corrupção de agentes do governo, segundo a ONU.

O texto também pede que Karzai considere novas maneiras de reprimir a expansão do cultivo de drogas que ameaçam tornar o Afeganistão um "narco-Estado".

No ano passado Karzai rejeitou a proposta americana de lançar herbicida na região para matar parte das plantações. O presidente afirmou temer que a medida contaminasse água e prejudicasse outras plantações.

O chefe da Ação Contra Narcóticos do Afeganistão, general Khodaidad, reconheceu que a estratégia de drogas falhou no sul e oeste do país, ao que ele responsabilizou a inépcia dos oficiais locais e do policiamento escasso.

"A tolerância benigna do governo com a corrupção está minando o futuro: nenhum país constrói a prosperidade com crime", afirmou Costa em um trecho do relatório.

"A economia do ópio no Afeganistão pode ir à falência se bloquearmos a passagem de produtos químicos importados e as drogas exportadas", afirmou Costa. O funcionário da ONU se referiu aos produtos químicos utilizados para transformar o ópio em heroína.

"Nos dois casos materiais são transportados pela fronteira sul e ninguém parece notar isso", disse Costa.

O relatório não dá um número para quantidade de ópio que é transformado em heroína no Afeganistão.

Costa também pediu ao governo afegão que impeça cerca de uma dúzia de traficantes --cujos nomes ele não mencionou-- de viajar. Além disso, Costa pediu que o governo do Afeganistão bloqueie os bens destes homens e os coloque à disposição de extradição.

Com France Presse e Associated Press

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