Mundo
29/08/2007 - 18h27

Artigo: Diana que era mulher de verdade

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TETÉ RIBEIRO
colaboração para a Folha Online, de Los Angeles

O nome de Diana entrou para o meu vocabulário quando eu ainda era criança e morava em Campinas (SP), cidade em que meu pai dirigiu um jornal durante um ano. Minha mãe odiava a cidade, minha única irmã também, mas eu era tão nova que nem pensava na vida em termos de endereço minha casa era onde meus pais diziam que era. E dessa vez tinha um bônus: a gata Marta, que ganhei de presente assim que cheguei e que me fazia rir quando se esticava, morrendo de calor, dentro de uma bacia cheia de água e roupas que a empregada deixava de molho.

Mas aquele banzo familiar era com certeza um desconforto, e eu tentava como podia fazer minha mãe ficar um pouco mais feliz. Então, quando percebi o tanto que ela elogiava a graça da nova princesa de Gales, tive uma idéia genial: ia cortar meu cabelo igual o dela. Fui a pé ao cabeleireiro do bairro com uma foto recortada de uma revista, sentei e pedi: "Quero assim". Ele não pestanejou, muito menos considerou a hipótese de que meus cachos sempre super rebeldes talvez não se adaptassem àquela franja picada e arrumadinha da Lady Di. Secou com o secador, esticou bem até conseguir aquele efeito "jogado" da franja e me mandou pra casa. Eu me olhei com aquele corte tigela no espelho e desconfiei que tinha feito uma besteira, mas se o plano era fazer minha mãe e minha irmã mais felizes, deu certo elas riram muito de mim quando cheguei em casa e mais ainda na próxima vez que eu lavei o cabelo e ele secou do jeito que bem entendeu, sem o menor respeito à família real britânica.

O tempo foi passando, meu cabelo cresceu, a gente foi embora de Campinas, Diana teve filhos, alguns dramas pessoais, mas nada que me fizesse prestar mais atenção a ela que à minha própria vida. Na escola, tudo o que eu queria era que minha redação fosse lida na frente da classe, ou que eu terminasse as provas de matemática antes do João Paulo. E, nas aulas de educação física, toda a minha concentração era usada para tentar conseguir o impossível, fazer uma cesta de gancho com a mão esquerda. Durante os verões, então, eu nem lembrava que existiam celebridades. Ia para a fazenda dos meus tios com dezenas de primos, andava a cavalo, subia nas mangueiras e nadava na cachoeira, depois enchia a cara de doce de leite e broinhas de milho e dormia exausta, sem pensar em nada.

Até que aconteceu o escândalo dos telefonemas entre Charles e Camilla Parker-Bowles, revelado em 1992. Aqueles, lembra, em que ela dizia que gostaria de morar dentro da calça dele e ele respondia que preferia voltar ao mundo como um absorvente interno, para passar toda a vida dentro dela? Primeiro, eca, como alguém podia querer isso da vida? Depois, essa Diana devia ser uma boa duma chata, porque ninguém, nem um homem com a cara de bobo do príncipe Charles sonharia em ser o OB da Camilla em vez do marido da Diana. Ou não?

Nessa época eu já estava na faculdade, mas na Filosofia da USP o Camillagate não reverberou, exatamente. A gente estava mais preocupada com o sentido da vida (ou pelo menos o sentido da última greve dos professores) do que com as traições do herdeiro do trono inglês. Ao mesmo tempo, meio por acaso, eu comecei a trabalhar em uma redação, a que produzia o programa "Globo Ciência". E conviver com jornalistas em seu habitat natural me fez me apaixonar pela idéia de ser um deles. E meu entusiasmo pela profissão despertou também a curiosidade pela vida das pessoas, primeiro das que estavam ao meu redor, depois as que estavam em evidência.

No dia 31 de agosto de 1997, eu já era repórter havia quase 5 anos e já sabia que a princesa Diana era um fenômeno cultural e importante para a história da Inglaterra, e não mais só a mocinha de um conto de fadas em que o príncipe não era encantado. Estava no cinema quando alguém mandou uma mensagem de bip não há nada mais de época do que um bip- dizendo que a princesa tinha acabado de morrer. Era minha irmã, aquela mesma que riu da minha cara quando eu tentei ficar mais parecida com ela em 1980. O filme ainda não tinha começado e eu contei para as pessoas que estavam comigo. Um amigo fez uma piada: "Vocês eram muito amigas?".

Nos dias seguintes, as imagens da frente do Palácio de Buckingham cada vez mais repletas de flores e mensagens ainda me pegaram de surpresa. Ela era linda, rica, mãe de dois meninos lindos, morreu cedo demais e de forma trágica, mas por que será que o povo está tão arrasado em Londres? Não sei explicar direito até hoje, mesmo depois de ter pesquisado a fundo a vida dela para escrever um capítulo do meu livro recém-lançado, "Divas Abandonadas", que conta a história dela e de Jacqueline Kennedy Onassis, Tina Turner, Ingrid Bergman, Marilyn Monroe, Sylvia Plath e Maria Callas. Todas sofreram por amor, e pelo menos duas delas morreram jovens e de forma trágica, Marilyn Monroe e Sylvia Plath. Mas nenhuma provocou a mesma comoção que a morte de Diana. Talvez seja exatamente o contraste com o que a família real inglesa fez na época nada, durante uma semana-- que levou o povo a demonstrar seu afeto à princesa de forma tão exuberante.

Dez anos depois, acho que a vida dela foi ainda mais trágica do que se pensou na época. Diana sofreu porque acreditou no seu primeiro amor, depois sofreu quando foi obrigada a deixar de acreditar nele. Então, uma vez mais, quando percebeu que sua existência seria interessante para a monarquia inglesa desde que cumprisse bem seu papel de coadjuvante de luxo. Mas o verdadeiro drama, acho, é que ela não viu um amor de verdade que acontecia na sua frente, o de Charles e Camilla, que se apaixonaram antes de ela conhecer um ou outro e se casaram em 2005. Diana foi o grande obstáculo entre eles. Isso, sim, é muito triste.

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