Mundo
06/09/2007 - 17h04

Rejeição à vitória do Hamas causa crise palestina, diz jornalista

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DANIELA LORETO
editora de Mundo da Folha Online

A crise interna nos territórios palestinos se deve à recusa da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) --ligada ao Fatah--, em aceitar a vitória do Hamas nas eleições legislativas de 2006.

A opinião é do jornalista árabe-israelense Khaled Abu Toameh, que vive em Jerusalém e cobre a questão palestina há 25 anos. Ele visitou a Folha de S.Paulo nesta quinta-feira.

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O jornalista Khaled Abu Toameh, que cobre a questão palestina
O jornalista Khaled Abu Toameh, que cobre a questão palestina

"A recusa em aceitar a derrota criou a crise. Era preciso que o Hamas pudesse agir para, caso falhasse, os próprios palestinos o retirassem do poder. (...) Não é possível derrubar o Hamas com armas, apenas uma boa liderança pode fazer isso", disse Toameh na palestra.

Hamas e Fatah, que possuem braços armados e políticos, dividiam o poder no governo de coalizão palestino até junho último, mas romperam o acordo após uma onda de violência que deixou mais de cem mortos em Gaza. Após o Hamas expulsar o Fatah da faixa de Gaza para a Cisjordânia, Abbas destituiu o grupo islâmico do governo e formou um novo gabinete, apoiado pela maior parte da comunidade internacional --incluindo Israel e Estados Unidos.

Para o jornalista, a "obsessão" de Abbas, que é presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), em retirar o grupo rival do governo dá mais força ao Hamas. "Em vez de oferecer rostos novos, dar outra alternativa aos palestinos, ele ficou obcecado em derrubá-lo. Este não é o caminho correto. Abbas é o grande responsável pelo Hamas estar no poder", diz.

Ele lamenta a falta de novos líderes carismáticos como Iasser Arafat, morto em novembro de 2004. "A mídia ocidental busca heróis, e tenta mitificar [Marwan] Barghouti [um dos principais líderes do Fatah, preso em Israel], mas isso não é verdade, não é o que se vê nas ruas".

Amr Nabil/AP
Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina e líder do Fatah
Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina e líder do Fatah

Segundo Tomeah, Abbas "perdeu a oportunidade" que teve à frente da liderança palestina. "Em 2005, ele prometeu levar liberdade e democracia, acabar com a corrupção, desmantelar as milícias e levar segurança ao povo palestino. No entanto, não fez nada disso. Ele tinha o apoio da população, a força, o poder, o dinheiro, tinha tudo e perdeu sua chance", afirma.

"Abbas não controla Gaza, não tem credibilidade entre os palestinos e não conseguiu chegar a acordo [de paz] nenhum. E, mesmo que consiga, o pacto não será reconhecido pelo Hamas".

Acordo de paz x cessar-fogo

Na opinião do jornalista, um acordo de paz entre Israel e a ANP "não é viável" neste momento e, por isso, a melhor opção é tentar amenizar a violência. "Paz é uma palavra bonita mas, infelizmente, não é possível alcançá-la agora, o que é possível é gerenciar o conflito".

Para Tomeah, houve um "divórcio total" entre palestinos e israelenses nos últimos sete anos, após o início da Segunda Intifada [levante palestino que começou em 28 de setembro de 2000]. "Por isso não se chega a lugar nenhum, não importa se é o Hamas ou o Fatah", diz.

"Se o Hamas oferece uma trégua de 20 ou 30 anos a Israel, por que não aceitá-la? Não seria bom se parassem com os ataques terroristas e com o lançamento de foguetes em troca do fim dos ataques aéreos contra seus líderes? O melhor seria negociar uma trégua para, daqui a algumas décadas, voltar a pensar em um acordo amplo de paz", afirma ele.

Segundo o jornalista, "não dá para discutir paz com o Hamas", porque estes "nunca aceitariam o direito de existência de Israel", mas é possível "negociar um cessar-fogo".

Divisão de Jerusalém

Tomeah diz ser contra a divisão de Jerusalém em uma parte árabe e outra israelense. "A cidade é pequena, dividi-la não seria viável. Os dois povos têm de aprender a conviver".

Arte Folha Online

Para ele, muitos israelenses mudaram seu ponto de vista em relação à questão com os palestinos. "Há alguns anos, discutir a formação de um Estado palestino era muito mal visto. Em 1996, Shimon Peres perdeu uma eleição devido a rumores de que ele poderia dividir Jerusalém. Isso mudou, a mentalidade das pessoas em Israel mudou".

No entanto, na opinião de Tomeah, o mesmo não ocorre do lado palestino. "As pessoas defendem as mesmas idéias, querem o direito de retorno aos territórios palestinos", diz.

Segundo o jornalista, o principal fator que contribui para essa falta de flexibilidade é o medo.

"Os palestinos estão assustados, há homens mascarados nas ruas, não se sabe quem bate à sua porta durante a noite. Eles precisam de segurança e educação", afirma ele.

Comunidade internacional

O jornalista critica ainda a influência externa no cenário político dos territórios palestinos.

"Intervir em questões internas, seja para apoiar o Fatah ou o Hamas, é algo prejudicial. A comunidade internacional pode ajudar com recursos financeiros, mas sempre supervisionando o que está sendo feito, para onde estão indo os fundos. Há muitas instituições palestinas que funcionam e não são corruptas, mas é preciso haver controle", diz.

Em relação à nomeação do ex-premiê britânico, Tony Blair, como enviado especial para o Quarteto do Oriente Médio, o jornalista se mostra reticente.

"Ele quer ajudar a criar instituições palestinas fortes, e isso é bom. Espero que ele tenha sucesso. Não tenho muita esperança de que isso aconteça, mas é o que espero", afirma.

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