Mundo
09/09/2007 - 02h30

Reconciliação interna é o grande desafio, diz político boliviano

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FABIANO MAISONNAVE
Enviado especial da Folha de S.Paulo a Potosí

Ele é indígena, trabalhou como pedreiro, foi sindicalista, se elegeu com ampla votação, fundou seu próprio partido e hoje tem no gabinete um retrato do Che Guevara. Só que o prefeito de Potosí, René Joaquino, não é o presidente Evo Morales. Ele quer sucedê-lo.

Aos 40 anos, Joaquino já tem uma bem-sucedida experiência política. Seu primeiro cargo foi o de vereador, há 16 anos. Em seguida, se elegeu indiretamente prefeito de Potosí, em 1997. Manteve-se no cargo ao ser eleito com 65% dos votos, em 1999. Cinco anos mais tarde, foi reeleito com 67%. Atualmente, tem a aceitação mais alta entre todos os funcionários do país, com 92% de aprovação, segundo pesquisa do instituto Apoyo. É uma estabilidade notável para a conturbada política boliviana.

Neste ano, Joaquino começou sair de sua cidade de 200 mil habitantes para dar seus primeiros passos no cenário nacional. Há sete meses, lançou nacionalmente o AS (Aliança Social), partido ao qual busca dar cores de uma esquerda moderada e conciliatória.

Na última sexta-feira, Joaquino foi citado numa denúncia de golpe de Estado feita pelo governo Morales. O prefeito de Potosí apareceria como o melhor candidato a substituir o atual presidente, segundo um documento atribuído à organização radical de direita Nação Camba, de Santa Cruz.

Diz o suposto plano: "Existe um índio que nos pode beneficiar, um tonto útil que nos vem de anel no dedo. Qual é o seu nome? René Joaquino Cabrera. Sim, é o prefeito de Potosí. (...) Com ele, ganhamos nos lugares collas [altiplano] e o apoiamos fortemente na pátria camba [Santa Cruz]".

Leia, a seguir, a entrevista concedida à Folha na segunda-feira em seu gabinete, em Potosí, a 4.070 metros acima do nível do mar.

Folha - Como o sr. contextualiza Potosí hoje em sua história?

René Joaquino - Potosí tem uma história de 460 anos. Nos primeiros séculos, Potosí foi uma das cidades mais importantes do mundo, alguns dizem que esteve à altura de Paris e Londres tanto em população como em desenvolvimento econômico. Com a mudança de políticas tanto nacionais como mundiais, estou falando da revolução da independência da Espanha, Potosí se converte na República, em 1825, em uma das cidades mais importantes da Bolívia.

E em um departamento que sustentava a Bolívia, graças ao estanho, à prata e outros minerais que, em grandes quantidades, se exportava do departamento de Potosí. E a cidade, como é a capital do departamento de Potosí, também tem uma montanha na qual se trabalha há 460 anos e até hoje continua. Mas essa economia mineira, o que trouxe ao departamento tem sido mais pobreza, não se generou nenhuma alternativa à economia mineira, apenas foi extração, venda de minerais e a contribuição ao Tesouro Nacional da nação. Este tem sido seu papel, contribuir ao Tesouro, e o Tesouro distribuir a todo o país.

A economia de Potosí sempre se baseou na exploração mineira até chegarmos a 1985. Em 1985, se sente que Potosí perdeu seu papel econômico com a queda do preço dos minerais no mercado internacional. Vivia-se apenas da mineração, o preço era baixíssimo, e as pessoas começaram a migrar em grandes e grandes quantidades, particularmente à Argetina e ao interior do país.

Por 20 anos, suportamos essa crise mineira. Vinte anos de crise mineira até 2005. E tudo porque os preços internacionais haviam caído. Não havia outra atividade que a mineração, e Potosí ficou reduzida ao seu centro histórico. Muita gente acreditava que aqui era uma população pequena, abandonada e sem nenhum futuro. As coisas não foram assim. As cooperativas mineiras, durante estes 20 anos de crise, foram sustentando a economia do departamento, mas com lucros apenas para cobrir os custos da operação e algo de salário.

Desde 2005, tudo mudou. De 4.000 trabalhadores, passamos a ter 16 mil trabalhadores apenas na montanha de Potosí. No departamento já há 50 mil departamentos mineiros, o que antes não chegavam a 15 mil.

A cidade de Potosí sofre os seus efeitos, há muita imigração da área rural à cidade. No Censo de 2001, tínhamos 139 mil habitantes. Atualmente, temos 200 mil habitantes, segundo o Instituto Nacional de Estatística. A cidade, como foi crescendo, também temos proposto políticas econômicas que geram uma alternativa à economia. Estamos trabalhando na agroindústria, no aproveitamento dos minerais, sobretudo à prata, para dar valor agregado, no turismo. Pensamos que em dez anos a mineração cairá, mas não estaremos na mesma situação que em 1985. O impacto na economia não será como tem ocorrido durante séculos até 1985.

Folha - O Cerro Rico tem mais de 450 anos de exploração e continua produzindo. É uma bendição ou maldição?

Joaquino - Tem disso sobretudo uma bendição, porque tem nos sustentado por muitos anos, para vivermos com dignidade. As pessoas têm vivido na pobreza, mas com dignidade. O cerro está conectado a outros cerros que são seus irmãos e estão mineralizados, nem sequer se está trabalhando. Grandes empresas vão entrar para trabalhar ali. Com isso, queremos dizer que a mineração em Potosí não se esgotou e não se esgotará. O único que tememos é a queda dos minerais no mercado internacional. Caso se mantenha nos próximos 20, 25 anos, Potosí viverá uma economia no seu auge, se converterá num dos departamentos mais ricos da Bolívia. Claro, as pessoas pensam agora que não se deve colocar tudo ao Tesouro da nação, mas que fique para investimentos na diversificação econômica

Folha - Os ingressos da Prefeitura aumentaram?

Joaquino - Nada. A lei estabelece que todo imposto, tributo de mineração vai ao governo departamento, e não às prefeituras. De 12 milhões bolivianos que administrava o governador, agora tem o luxo de administrar 1,2 bilhões de bolivianos e possivelmente 3, 4 bilhões nos próximos anos. Apenas San Cristóbal, uma mina grande, contribui com US$ 360 mil diários ao governo.

Folha - Os ingressos e os salários aumentaram, mas por que as relações trabalhistas não melhoram?

Joaquino - As cooperativas sustentaram a economia departamental com a mineração, mas em condições de que tudo era custo de operação e um pouquinho de salário. Foram 20 anos trabalhando com perdas, agora estão se recuperando. Mas não se pode articular uma política de mineração rápida de segurança industrial. Claro que há algumas cooperativas mineiras que estão trabalhando em segurança industrial, mas também há muita imprudência dos trabalhadores. É como dinheiro jogado fora, eles tentam conseguir a maior quantidade, às vezes se arriscam a lugares onde está permitido.

É um tema complicado, são várias cooperativas, umas com bom capital, outras iniciando, e os que estão iniciando entram com risco. O Cerro é como um formigueiro, por todos lados buracos, e algum lado há mineral. Nem o próprio governo pode promover uma política no lugar

Folha - A distribuição de renda melhorou para os mineiros?

Joaquino - Agora vivem melhor, há uma distribuição mais eqüitativa do que anos atrás. É o melhor momento de todos os tempos. Porque no tempo da [estatal] Comibol também era um pequeno grupo de assalariados, mas havia um montão de gente que não podia entrar a trabalhar. Agora, há oportunidade para todos, obviamente com riscos.

Folha - A Bolívia está novamente numa crise política em torno da capitalidade. Qual é a sua avaliação sobre essa constante sucessão de crises?

Joaquino - Na Bolívia, são 20 anos de luta para chegar a um momento de transformação e de mudança. Os líderes são muitos, alguns estão no governo, outros não estão, mas são muitos líderes sociais que empurram um processo de mudança. A crise chega até 2005, com a eleição de um novo governo. O novo governo divide a Bolívia em duas partes no tema político. As pessoas já não aceitam a visão, a proposta nem a vigência dos partidos tradicionais. Diante do rechaço da cidadania a esse pensamento, surge o atual governo, apoiado por vários setores, por isso ganhou com 53%.

Mas, nesse cenário, a gente não tem uma única visão. Querem mudança, mas não com a visão que tem o governo. Surgem dois problemas. E, obviamente, os tradicionais vão ingressando aos poucos para fortalecer um pensamento de fortalecer a visão diversa, não tanto a única.

Então o governo lança a Assembléia Constituinte como o cenário para resolver os problemas, mas lança com um pensamento, que eles vão até 90% dos assembleístas. Portanto, o que significava a Assembléia Constituinte? Nada, por consenso iam aprovar a nova Constituição. O cálculo foi falho, porque chegou apenas a pouco mais de 50%. Ao não ter acertado o cálculo, lhes dificultou o caminho. E aí surgem fortalecidos outras visões, e os comitês cívicos ganham força porque, em seu momento, já não representam partidos tradicionais, mas o surgimento de novos movimentos cívicos do leste. E eles vão colocando dificuldades.

Agora, eu não sei até onde o atual governo e [o vice-presidente, Alvaro] García Linera, que é seu intelectual, consideraram que, para ir a uma Assembléia, obviamente participariam várias visões de país. E dessas várias visões seria preciso construir uma nova visão única, mas pactada. Pactada, consensuada. Porque, se eles pretendem impor seu critério, não é preciso ir a uma Assembléia Constituinte, porque uma Assembléia é justamente para isso, para pactar em temas difíceis, que, em outro cenário, não foi possível resolvê-los. Neste momento, seu pensamento é o de impor seu programa de governo, sua visão de país, e é aí onde encontra resistência.

Nós, o que pensamos? Nós sempre dividimos o cosmo. Em Santa Cruz, Beni, Pando, Tarija e, possivelmente, Cochabamba e parte de Chuquisaca, está enraizada a visão de uma sociedade individualista, que aposta na propriedade privada, no investimento privada, na democracia representativa, no Estado democrático quase liberal. Esse pensamento está na metade da Bolívia.

Mas nesse outro lado, Potosí, Oruro, La Paz, há o pensamento comunitário. As pessoas pensam na comunidade. O que quer fazer? Um hotel, mas um hotel comunitário. Mas dizer no Oriente que quer fazer um hotel comunitário não entra na sua lógica. Essa gente aposta na propriedade coletiva, na reciprocidade, na democracia mais direta. Porque é possível, em pequenas comunidades, eleger alguém numa Assembléia. Aposta no respeito aos usos e costume.

Diante de essas duas civilizações, quem vai vencer? O governo diz que os indígenas, com o pensamento comunitário, deve subjugar ao outro lado, e assim se constrói o novo Estado, a nova sociedade. Mas eles são fortes, não vão se submeter facilmente. E esses outros, em que apostam? Também apostam em vencer.

Se fomos a uma Assembléia Constituinte, o que temos de encontrar é uma complementareidade. Porque dos dois lados há coisas boas, do comunitário e do individual. Para nós, a saída da Assembléia é conseguir um equilíbrio, que o pêndulo não vá ao Ocidente nem ao Oriente. E isso é pacto social, é essa a nossa leitura.

Mas há dificuldades, e nessas dificuldades há mensagens negativas do governo. Pretender que Evo seja reeleito indefinidamente já incomodou. E, em nossa cultura ocidental, é normal a reeleição, mas no pensamento andino, comunitário, não há reeleição, é rotativo. Então o o governo propõe, quando convém, um pensamento ocidental para impor aqui. E aqui a gente resiste: que Evo acabe sua gestão e venha outro.

E nesse choque de civilizações, propomos buscar o equilíbro, o que chamamos de complementariedade de opostos. São opostos, são diferentes, não queremos que se convertam em um, mas que seja um sistema com dois sistemas. É como a água e o óleo, nunca se juntam, mas podem estar na mesma vasilha.

A Bolívia é grande, pode-se ter duas visões de país, mas construindo uma só visão de país. A quem podemos obrigar, numa comunidade, a aceitar investimento privado? Também não podemos ir ao Oriente dizer: "agora a sua terra é comunitária". Mas de ambos podemos recuperar paradigmas, valores para construir apenas um sistema. Não sei quantos bolivianos estarão apostando isso, mas considero que é preciso um pacto social. E um pacto não se faz com iguais.

Folha - O sr. está formando um novo partido neste momento. Qual é o seu perfil?

Joaquino - Somos de esquerda. Vamos participar de todas as eleições que se apresentarem na Bolívia. Se houver eleições, porque, no caminho que vamos, parece que nos vai fechar tudo. Mas, se houver, vamos participar. O nosso componente ideológico? Nossa coluna de pensamento é a complementariedade de opostos, de construir um país muito mais unido, democrático, apostando no desenvolvimento econômico com um forte componente social.

Folha - O sr. é candidato a presidente?

Joaquino - Não sei, ainda é preciso analisar. Que eu sou o construtor desse projeto, sim. Que eu tenha liderado até agora, sim, mas não podemos dizer que eu seja candidato. Estamos trabalhando em cursos de capacitação, de construção de lideranças. Há um trabalho grande deste novo projeto político que apenas tem sete meses de nascimento.

Folha - O sr. tem uma história semelhante à do presidente Morales. Há espaço para dois perfis tão parecidos?

Joaquino - Isso teria de ver. Nossa esquerda é de um tipo que tem aceitação em todas as classes sociais, em todo o território nacional. Do que estamos seguros é que a gente está buscando um novo projeto. E nessa busca há uma preferência por nós.

Agora, há semelhanças com o atual presidente. Ambos nascemos numa comunidade, ele numa comunidade aimará, eu numa comunidade quéchua. Ambos vivemos nossa infância nas nossas comunidades. Ele pastoreando suas ovelhas, e eu também pastoreando minhas ovelhas e as minhas lhamas. Depois muda. Eu fui às minas com oito anos e aí comecei a trabalhar, como pedreiro. Esse foi o meu primeiro trabalho. E estudei paralelamente até terminar o ensino médio e me profisionalizar. Mas sempre trabalhando de pedreiro, carpinteiro, padeiro etc. Ninguém me apoiou nos estudos.

Ambos militamos em movimentos sindicais, ele na Federação dos Cocaleiros, e eu, na Federação dos Camponeses. Ambos fomos candidatos a deputados, ele com melhor sorte no Chapare, mas eu não tive sorte em 1997. Mas tive sorte, digamos, em reeleições amplas. Ele conheceu a maioria simples [na eleição presidencial], e eu conheci também a maioria simples em território menor, no município. Então é saber quem propõe melhor ao país, que a gente veja quem possa uma reconciliação entre os bolivianos e, ao mesmo tempo, transformar o país... Este é o desafio: conseguir a reconciliação, preservar a democracia e transformar a Bolívia.

Folha - Como o sr. aparece nas pesquisas eleitorais?

Joaquino - Estamos bem. Ainda estamos atrás dos candidatos tradicionais, como o ex-presidente [Tuto] Quiroga, mas são ex-candidatos, ex-presidentes. Eles são conhecidos por 100% dos bolivianos. E eu sou apenas conhecido por 57%. Mesmo assim estamos na mesma faixa. Se conseguirmos que 100% nos conheçam na Bolívia, a tendência é que tenhamos a preferência e vamos ser a segunda força do país. Claro que há acordos, convênios etc.,mas fazemos isso com a finalidade de que a democracia, para nós, tem de ter um componente de pluralismo ideológico e partidário.

Por isso, eu peço ao governo que construa políticas de Estado para que o presidente que saia, de direita ou de esquerda, deixe uma continuidade, como ocorre em vários países. Lula, no Brasil, tem uma tendência de esquerda muito mais moderada, tem dado preferência a políticas sociais mas também tem mantido uma disciplina macroeconômica. E o que vier dará seguimento a essa política. Seguramente, fará alguns ajustes, como na Espanha. Existem umas quatro diferenças entre a direita espanhola e a esquerda espanhola.

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