04/11/2001
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04h57
"A questão em pauta aqui não é o islã." Os líderes mundiais vêm repetindo esse mantra há semanas, em parte na esperança virtuosa de conseguirem deter as agressões contra muçulmanos inocentes que vivem no
Ocidente, em parte porque, se os EUA quiserem conservar a coalizão que montaram contra o terror, não podem se dar ao luxo de sugerir que exista qualquer conexão entre terrorismo e islã.
O problema desse desmentido necessário é que ele não é verdadeiro. Se a questão não é o islã, a que se devem as manifestações muçulmanas em todo o mundo em apoio a Osama bin Laden e à Al Qaeda?
Por que aqueles 10 mil homens armados com espadas e machados se reuniram na fronteira entre Paquistão e Afeganistão, atendendo ao chamado à jihad lançado por um mulá qualquer?
Por que as três primeiras baixas britânicas da guerra foram três muçulmanos que morreram combatendo ao lado do Taleban?
Por que o anti-semitismo rotineiro da muitas vezes repetida calúnia islâmica segundo a qual foram "os judeus" que organizaram os ataques ao World Trade Center e ao Pentágono, com a explicação estranhamente auto-reprobatória oferecida pela liderança do Taleban dizendo que, entre outras coisas, muçulmanos não poderiam ter o know-how tecnológico ou a sofisticação organizacional necessários para realizar tal proeza?
Por que Imran Khan, ex-astro dos esportes paquistanês e atual político, exige ver provas da culpa da Al Qaeda e, ao mesmo tempo, aparentemente ignora as declarações auto-incriminatórias dos próprios porta-vozes da Al Qaeda (vão chover aviões no céu, os muçulmanos que vivem no Ocidente são aconselhados a não morar ou trabalhar em edifícios altos)?
Por que a conversa sobre militares americanos infiéis profanando o solo sagrado da Arábia Saudita, quando algum tipo de definição de o que é sagrado não está na base das insatisfações atuais?
É claro que a questão aqui é o islã, sim. A questão é: isso significa exatamente o quê? Afinal, a maior parte do que constitui uma crença religiosa não é algo muito teológico. A maioria dos muçulmanos não é formada por profundos analistas do Alcorão.
Para um número imenso de muçulmanos "crentes", "o islã" representa, de maneira confusa e apenas semi-analisada, não apenas o temor a Deus -e, desconfia-se, é realmente mais de temor do que de amor que se trata-, mas também um conjunto de costumes, opiniões e preconceitos que incluem as práticas alimentares, a reclusão ou quase reclusão forçada de "suas" mulheres, os sermões proferidos pelos mulás de sua preferência, a aversão à sociedade moderna em geral, repleta de música, sexo e a ausência do divino e uma aversão (e medo) mais específica diante da perspectiva de que o mundo que os cerca possa ser dominado pelo estilo ocidental de vida -"ocidentoxicado", por assim dizer.
Organizações altamente motivadas de homens muçulmanos (ah, que bom seria se pudessem ser ouvidas as vozes de mulheres muçulmanas!) vêm se ocupando, nos últimos 30 anos, mais ou menos, em criar movimentos políticos radicais a partir desse conjunto fértil de "crenças".
Esses islamistas -precisamos nos acostumar ao termo, que indica as pessoas engajadas em projetos políticos do tipo acima descrito e aprender a distingui-lo do mais generalizado e politicamente neutro "muçulmano"- incluem a Irmandade Muçulmana, no Egito, os sanguinários combatentes da Frente de Salvação Islâmica e do Grupo Islâmico Armado, na Argélia, os revolucionários xiitas no Irã e o Taleban.
A pobreza é sua grande auxiliar, e o fruto de seus esforços é a paranóia. Esse islã paranóico, que atribui a culpa por todos os males das sociedades muçulmanas aos não-islâmicos, ou "infiéis", e cuja solução proposta é o fechamento dessas sociedades para o projeto rival da modernidade, é hoje a versão do islã que mais rapidamente está crescendo no mundo.
Isso não quer dizer que seja o caso de aceitar por completo a tese de Samuel Huntington sobre o choque de civilizações, pela razão muito simples de que o projeto dos islamistas é voltado não apenas contra o Ocidente e "os judeus", mas também contra os outros islamistas.
Seja qual for o discurso público, a verdade é que o Taleban e o regime iraniano não se bicam. As discordâncias entre países muçulmanos são tão ou até mais profundas do que o ressentimento que eles nutrem contra o Ocidente. Mesmo assim, seria um absurdo negar que esse islã paranóico e que se vê como isento de qualquer culpa é uma ideologia que exerce atração ampla.
Vinte anos atrás, quando eu estava escrevendo um romance sobre as lutas pelo poder num Paquistão fictício, já era praxe no mundo muçulmano atribuir todos os seus problemas ao Ocidente e, em especial, aos EUA.
Na época, assim como hoje, algumas dessas críticas eram bem fundadas.
Não há espaço aqui para discutir a geopolítica da Guerra Fria e as "quedas" (para usar um termo de Kissinger) frequentemente prejudiciais da política externa norte-americana em direção a ou para longe de esse ou aquele país temporariamente útil (ou objeto de desaprovação), nem mesmo o papel dos EUA na instalação e derrubada de diversos líderes e regimes nada salutares.
Mas eu queria, na época, formular uma pergunta que não é menos importante hoje: se disséssemos que os males de nossas sociedades não são em primeiro lugar culpa dos EUA, então os culpados por nossas falhas seríamos nós mesmos? Como as entenderíamos, nesse caso? Será que, ao aceitar nossa responsabilidade por nossos próprios problemas, não poderíamos aprender a resolvê-los nós mesmos?
Muitos muçulmanos, além de analistas secularistas com raízes no mundo muçulmano, estão começando a formular tais perguntas hoje. Nas últimas semanas, vozes muçulmanas em todo o mundo se levantaram contra o sequestro obscurantista de sua religião. Os exaltados de ontem (entre eles Yusuf Islam, antes conhecido como Cat Stevens) estão se reposicionando, de maneira nem sempre convincente, como os bonzinhos de hoje.
Um escritor iraquiano cita um satirista iraquiano anterior: "A doença que está dentro de nós vem de nós". Um muçulmano britânico escreve: "O islã tornou-se seu próprio inimigo". Um amigo libanês, retornando de Beirute, me disse que, desde os ataques de 11 de setembro, as críticas feitas publicamente ao islamismo vêm se tornando muito mais abertas e diretas. Comentaristas estão falando na necessidade de uma reforma no mundo muçulmano.
Recordo-me da maneira como os socialistas não-comunistas se distanciavam do socialismo tirânico dos soviéticos. Mesmo assim, os primeiros sinais desse contraprojeto islâmico são profundamente significativos.
Se quisermos que o islã se reconcilie com a modernidade, é preciso que
essas vozes sejam encorajadas até a aumentarem o volume e se transformarem em poderoso rugido. Muitas delas falam de outro islã, de sua fé pessoal.
A restauração da religião para a esfera do pessoal, sua despolitização, é a urtiga que todas as sociedades muçulmanas terão de agarrar com as mãos para poderem se tornar modernas.
O único aspecto da modernidade que interessa aos terroristas é a tecnologia, que eles vêem como uma arma que pode ser voltada contra seus criadores.
Se quisermos que o terrorismo seja derrotado, o mundo do islã terá de se abrir para os princípios secularistas e humanistas nos quais o moderno se baseia e sem os quais a liberdade dos países muçulmanos vai continuar a ser apenas um sonho distante.
Rushdie recebeu sentença de morte do Irã
O escritor britânico de origem indiana Salman Rushdie tornou-se mundialmente conhecido em 1988, quando o então líder religioso do Irã, o aiatolá Ruhollah Khomeini, decretou uma fatwa (decreto religioso, no caso uma sentença de morte) contra ele.
Rushdie havia publicado o livro "Versos Satânicos", tido por Khomeini como uma blasfêmia contra o profeta Maomé. Desde a sentença, o escritor já teve 30 endereços diferentes.
Rushdie nasceu em 1947, em Bombaim (Índia). Aos 13 anos, já estudava no
Reino Unido. No final dos anos 60, formou-se em Cambridge.
Escritor que mescla em sua obra história, política e ficção a partir da
visão da cultura indiana, ele ganhou em 1981 o prestigioso prêmio literário Booker Prize, no Reino Unido. Rushdie, autor também de "O Chão Que Ela Pisa" (1999), lançou em setembro seu mais recente romance, "Fury", ambientado em Nova York e Londres.
Tradução de Clara Allain
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SALMAN RUSHDIE"A questão em pauta aqui não é o islã." Os líderes mundiais vêm repetindo esse mantra há semanas, em parte na esperança virtuosa de conseguirem deter as agressões contra muçulmanos inocentes que vivem no
Ocidente, em parte porque, se os EUA quiserem conservar a coalizão que montaram contra o terror, não podem se dar ao luxo de sugerir que exista qualquer conexão entre terrorismo e islã.
O problema desse desmentido necessário é que ele não é verdadeiro. Se a questão não é o islã, a que se devem as manifestações muçulmanas em todo o mundo em apoio a Osama bin Laden e à Al Qaeda?
Por que aqueles 10 mil homens armados com espadas e machados se reuniram na fronteira entre Paquistão e Afeganistão, atendendo ao chamado à jihad lançado por um mulá qualquer?
Por que as três primeiras baixas britânicas da guerra foram três muçulmanos que morreram combatendo ao lado do Taleban?
Por que o anti-semitismo rotineiro da muitas vezes repetida calúnia islâmica segundo a qual foram "os judeus" que organizaram os ataques ao World Trade Center e ao Pentágono, com a explicação estranhamente auto-reprobatória oferecida pela liderança do Taleban dizendo que, entre outras coisas, muçulmanos não poderiam ter o know-how tecnológico ou a sofisticação organizacional necessários para realizar tal proeza?
Por que Imran Khan, ex-astro dos esportes paquistanês e atual político, exige ver provas da culpa da Al Qaeda e, ao mesmo tempo, aparentemente ignora as declarações auto-incriminatórias dos próprios porta-vozes da Al Qaeda (vão chover aviões no céu, os muçulmanos que vivem no Ocidente são aconselhados a não morar ou trabalhar em edifícios altos)?
Por que a conversa sobre militares americanos infiéis profanando o solo sagrado da Arábia Saudita, quando algum tipo de definição de o que é sagrado não está na base das insatisfações atuais?
É claro que a questão aqui é o islã, sim. A questão é: isso significa exatamente o quê? Afinal, a maior parte do que constitui uma crença religiosa não é algo muito teológico. A maioria dos muçulmanos não é formada por profundos analistas do Alcorão.
Para um número imenso de muçulmanos "crentes", "o islã" representa, de maneira confusa e apenas semi-analisada, não apenas o temor a Deus -e, desconfia-se, é realmente mais de temor do que de amor que se trata-, mas também um conjunto de costumes, opiniões e preconceitos que incluem as práticas alimentares, a reclusão ou quase reclusão forçada de "suas" mulheres, os sermões proferidos pelos mulás de sua preferência, a aversão à sociedade moderna em geral, repleta de música, sexo e a ausência do divino e uma aversão (e medo) mais específica diante da perspectiva de que o mundo que os cerca possa ser dominado pelo estilo ocidental de vida -"ocidentoxicado", por assim dizer.
Organizações altamente motivadas de homens muçulmanos (ah, que bom seria se pudessem ser ouvidas as vozes de mulheres muçulmanas!) vêm se ocupando, nos últimos 30 anos, mais ou menos, em criar movimentos políticos radicais a partir desse conjunto fértil de "crenças".
Esses islamistas -precisamos nos acostumar ao termo, que indica as pessoas engajadas em projetos políticos do tipo acima descrito e aprender a distingui-lo do mais generalizado e politicamente neutro "muçulmano"- incluem a Irmandade Muçulmana, no Egito, os sanguinários combatentes da Frente de Salvação Islâmica e do Grupo Islâmico Armado, na Argélia, os revolucionários xiitas no Irã e o Taleban.
A pobreza é sua grande auxiliar, e o fruto de seus esforços é a paranóia. Esse islã paranóico, que atribui a culpa por todos os males das sociedades muçulmanas aos não-islâmicos, ou "infiéis", e cuja solução proposta é o fechamento dessas sociedades para o projeto rival da modernidade, é hoje a versão do islã que mais rapidamente está crescendo no mundo.
Isso não quer dizer que seja o caso de aceitar por completo a tese de Samuel Huntington sobre o choque de civilizações, pela razão muito simples de que o projeto dos islamistas é voltado não apenas contra o Ocidente e "os judeus", mas também contra os outros islamistas.
Seja qual for o discurso público, a verdade é que o Taleban e o regime iraniano não se bicam. As discordâncias entre países muçulmanos são tão ou até mais profundas do que o ressentimento que eles nutrem contra o Ocidente. Mesmo assim, seria um absurdo negar que esse islã paranóico e que se vê como isento de qualquer culpa é uma ideologia que exerce atração ampla.
Vinte anos atrás, quando eu estava escrevendo um romance sobre as lutas pelo poder num Paquistão fictício, já era praxe no mundo muçulmano atribuir todos os seus problemas ao Ocidente e, em especial, aos EUA.
Na época, assim como hoje, algumas dessas críticas eram bem fundadas.
Não há espaço aqui para discutir a geopolítica da Guerra Fria e as "quedas" (para usar um termo de Kissinger) frequentemente prejudiciais da política externa norte-americana em direção a ou para longe de esse ou aquele país temporariamente útil (ou objeto de desaprovação), nem mesmo o papel dos EUA na instalação e derrubada de diversos líderes e regimes nada salutares.
Mas eu queria, na época, formular uma pergunta que não é menos importante hoje: se disséssemos que os males de nossas sociedades não são em primeiro lugar culpa dos EUA, então os culpados por nossas falhas seríamos nós mesmos? Como as entenderíamos, nesse caso? Será que, ao aceitar nossa responsabilidade por nossos próprios problemas, não poderíamos aprender a resolvê-los nós mesmos?
Muitos muçulmanos, além de analistas secularistas com raízes no mundo muçulmano, estão começando a formular tais perguntas hoje. Nas últimas semanas, vozes muçulmanas em todo o mundo se levantaram contra o sequestro obscurantista de sua religião. Os exaltados de ontem (entre eles Yusuf Islam, antes conhecido como Cat Stevens) estão se reposicionando, de maneira nem sempre convincente, como os bonzinhos de hoje.
Um escritor iraquiano cita um satirista iraquiano anterior: "A doença que está dentro de nós vem de nós". Um muçulmano britânico escreve: "O islã tornou-se seu próprio inimigo". Um amigo libanês, retornando de Beirute, me disse que, desde os ataques de 11 de setembro, as críticas feitas publicamente ao islamismo vêm se tornando muito mais abertas e diretas. Comentaristas estão falando na necessidade de uma reforma no mundo muçulmano.
Recordo-me da maneira como os socialistas não-comunistas se distanciavam do socialismo tirânico dos soviéticos. Mesmo assim, os primeiros sinais desse contraprojeto islâmico são profundamente significativos.
Se quisermos que o islã se reconcilie com a modernidade, é preciso que
essas vozes sejam encorajadas até a aumentarem o volume e se transformarem em poderoso rugido. Muitas delas falam de outro islã, de sua fé pessoal.
A restauração da religião para a esfera do pessoal, sua despolitização, é a urtiga que todas as sociedades muçulmanas terão de agarrar com as mãos para poderem se tornar modernas.
O único aspecto da modernidade que interessa aos terroristas é a tecnologia, que eles vêem como uma arma que pode ser voltada contra seus criadores.
Se quisermos que o terrorismo seja derrotado, o mundo do islã terá de se abrir para os princípios secularistas e humanistas nos quais o moderno se baseia e sem os quais a liberdade dos países muçulmanos vai continuar a ser apenas um sonho distante.
Rushdie recebeu sentença de morte do Irã
O escritor britânico de origem indiana Salman Rushdie tornou-se mundialmente conhecido em 1988, quando o então líder religioso do Irã, o aiatolá Ruhollah Khomeini, decretou uma fatwa (decreto religioso, no caso uma sentença de morte) contra ele.
Rushdie havia publicado o livro "Versos Satânicos", tido por Khomeini como uma blasfêmia contra o profeta Maomé. Desde a sentença, o escritor já teve 30 endereços diferentes.
Rushdie nasceu em 1947, em Bombaim (Índia). Aos 13 anos, já estudava no
Reino Unido. No final dos anos 60, formou-se em Cambridge.
Escritor que mescla em sua obra história, política e ficção a partir da
visão da cultura indiana, ele ganhou em 1981 o prestigioso prêmio literário Booker Prize, no Reino Unido. Rushdie, autor também de "O Chão Que Ela Pisa" (1999), lançou em setembro seu mais recente romance, "Fury", ambientado em Nova York e Londres.
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