Guerra com Irã "deve ser evitada", diz ministro francês
DAYANNE MIKEVIS
da Folha Online
O ministro das Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner, defendeu nesta terça-feira em Moscou a adoção de novas sanções contra o Irã, dizendo que estas são necessárias para "demonstrar a seriedade das intenções" da comunidade mundial. No entanto, ele afirmou que uma guerra contra o país persa "deve ser evitada".
O ministro suavizou o discurso nesta terça-feira, após a chuva de críticas na França e no exterior às palavras duras sobre o país do Oriente Médio. No último domingo (16), Kouchner disse que se o Irã fizesse uma bomba nuclear, a preparação teria de ser para "o pior": uma guerra.
Ele afirmou ainda que líderes europeus consideravam adotar sanções econômicas contra o Irã --o que representante para Política Exterior e Segurança Comum da União Européia (UE), Javier Solana, descartou nesta terça-feira.
"Todos ficamos surpresos. É um reflexo da política de Sarkozy, mas a palavra guerra é muito forte", disse Thierry Coville, professor de economia no Institut de Relations Internationales et Stratégiques (Iris) de Paris, em entrevista por telefone à Folha Online.
O Irã desenvolve um programa nuclear que os EUA afirmam que possui fins militares, enquanto que o governo iraniano alega que ele é pacífico e faz parte de sua estratégia energética.
Para o professor, Kouchner percebeu que o discurso conservador ia além do que políticos e setores intelectuais na França toleram. "É sim, é um alinhamento claro à americana", afirmou Coville.
A França foi o país que apresentou mais resistência à invasão do Iraque em 2003, e, para o professor, as posições de Kouchner --além de sua visita ao Iraque em agosto-- sinalizam uma tentativa de retomada de um papel, ao lado dos EUA, de relevância no Oriente Médio.
Kouchner suavizou seu discurso também pelo fato de estar na Rússia, país que é contra uma intervenção no país do Oriente Médio. Ele foi questionado sobre sua posição pelo ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov.
Além da Rússia, a China também criticou nesta terça-feira os comentários de Kouchner em Paris.
União Européia
Na União Européia (UE), Solana afirmou que o órgão não discute aplicar sanções ao Irã devido ao desenvolvimento de seu programa nuclear.
Ele citou as sanções do Conselho de Segurança (CS) da Organização das Nações Unidas (ONU). "A União Européia segue uma política de duas vias com o Irã: as resoluções da ONU e o diálogo", disse, em relação a proposta comentada por Kouchner e também pela Holanda de medidas punitivas européias contra o Irã.
Na próxima quinta-feira (20), Solana recebe Hassan Rowhani, secretário do Alto Conselho de Segurança Nacional do Irã em Bruxelas. O iraniano é o principal negociador na questão nuclear para o seu país.
Para Coville, as declarações de Kouchner pode provocar "mal-estar" entre os parceiros de bloco. "A Alemanha, a Bélgica se manifestaram, e outros vão se manifestar também", afirmou.
Irã
O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, afirmou que não "leva a sério" a ameaça de guerra cogitada por Kouchner.
"Nós não tomamos estas ameaças seriamente", disse ele, segundo a agência de notícias Irna. "Especulações da mídia são diferentes de palavras de verdade e nós não tomamos estas falas com seriedade", acrescentou.
Nesta segunda-feira, a Irna criticou Kouchner em um editorial, dizendo que a França "tomava um tom mais inflamatório e ideológico" que os Estados Unidos.
Com Efe, Reuters e Associated Press
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