Sanções de Bush contra Mianmar são ineficazes, diz professor
DAYANNE MIKEVIS
da Folha Online
As sanções econômicas anunciadas nesta terça-feira pelo presidente dos EUA, George W. Bush, na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), contra Mianmar não vão alterar o regime militar do país, segundo Ladd Thomas, professor emérito da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos.
Thomas, que está aposentado há dois anos, ministrou o curso da universidade sobre a política e economia de Mianmar por sete anos.
| Reuters |
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| Monge segura tigela em protesto na capital de Mianmar, Yangun |
"É um país com uma economia fechada e que possui poucos investimentos estrangeiros. Os laços econômicos são predominantemente com países que têm boas relações com o regime, como China, Tailândia, Índia e até mesmo Japão, em certa medida", afirmou Thomas em entrevista por telefone à Folha Online.
"Mianmar simplesmente não se importa com as sanções", disse o professor, para quem, apesar dos protestos, o regime militar que governa o país há cerca de 20 anos não apresenta sinais de enfraquecimento.
O presidente dos Estados Unidos, George W.Bush, anunciou nesta terça-feira novas sanções contra o país asiático na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Bush pediu aos outros membros da organização que tomem medidas contra a junta militar que governa o país. "Os EUA irão estabelecer sanções econômicas contra os líderes do regime e seus apoiadores financeiros", afirmou.
Além das novas sanções, os EUA vão pressionar os outros integrantes do Conselho de Segurança (CS) da ONU para apoiar uma ação contra o país, segundo a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice.
Protestos
Os protestos --os maiores em 20 anos-- se iniciaram em agosto último, devido ao aumento no preço de combustíveis. A manifestação cresceu e ganhou adesão de vários grupos do país, que passaram a ir além da questão econômica e adentraram na seara política.
Mianmar é um país da Ásia meridional governado por um governo militar desde 1988 que reprime com força manifestações a favor da democracia.
Em setembro, monges budistas aderiram aos protestos e isto mudou o peso das manifestações, segundo o professor, pois limita a repressão. Mesmo com o toque de recolher e o posicionamento de soldados anunciados hoje, o professor acredita que não haverá violência. "Eles não vão atacar os monges porque, se o fizessem, isto acarretaria uma situação muito difícil", analisa Thomas.
O professor não descarta completamente, no entanto, o uso de violência para coibir os protestos.
"Eles podem agir contra as pessoas que acompanham as manifestações, mas não contra os monges", afirma.
Hoje, assim como nesta segunda-feira, quando cerca de 100 mil foram às ruas, os monges se espalharam por várias ruas e marcharam, seguidos por uma multidão, a partir do pagode [santuário oriental de vários andares construído em forma de pirâmide] de Shwedagon, o principal templo sagrado do sudeste da Ásia, que tornou-se "símbolo" das manifestações.
Os protestos desta terça-feira terminaram por volta das 17h (7h30 de Brasília).
Um monge que parecia ser o líder falou à multidão, dizendo que as manifestações continuarão até que o governo militar peça desculpas pela repressão violenta a um dos protestos anteriores.
Toque de recolher
A junta militar de Mianmar anunciou um toque de recolher e a proibição de reuniões com mais de cinco pessoas, dando sinais de um iminente confronto entre forças de segurança do governo e os milhares de manifestantes que estão nas ruas há oito dias.
O toque de recolher vale para Yangun, a maior cidade do país, e para Mandalay. O anúncio foi feito na noite desta terça-feira por meio de megafones nas duas cidades.
Em Yangun, o toque de recolher vale apenas para algumas regiões. De acordo com o anúncio, as medidas devem ser aplicadas nos próximos 60 dias. Tropas foram destacadas nesta terça-feira na capital, e foram vistas se reunindo em um centro militar em Mandalay.
Não ficou claro de que forma as pessoas que violarem as medidas serão punidas.
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