Mundo
09/10/2007 - 19h36

Turquia cogita incursão militar no Iraque; EUA reprovam ação

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da Folha Online

O governo turco anunciou que consultará o Parlamento para aprovar uma operação militar que busque separatistas curdos que operam de bases no norte do Iraque. O anúncio provocou críticas dos Estados Unidos.

A decisão turca de consultar o Parlamento ocorreu nesta terça-feira durante uma reunião de três horas entre o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e membros de sua agremiação política, o Partido Justiça e Desenvolvimento.

Fatih Saribas/Reuters
Turcos realizam um minuto de silêncio em Istambul por 13 soldados mortos por rebeldes
Turcos realizam um minuto de silêncio em Istambul por 13 soldados mortos por rebeldes

"Instituições envolvidas receberam as ordens necessárias e as instruções para realizar todo o tipo de preparo legal, econômico e político para terminar com a presença da organização terrorista no país vizinho em um período próximo, incluindo, se necessário, uma operação que cruze fronteiras", informa um comunicado distribuído após o encontro de Erdogan hoje.

O governo turco quer que a medida seja aprovada com urgência e tentará apresentar a proposta ao Parlamento nesta quarta-feira, disse um legislador que participou da reunião à Associated Press. Ele pediu para não ser identificado.

O ministro da Defesa da Turquia, Vecdi Gonul, disse à Reuters que o Parlamento precisa autorizar qualquer ação militar em larga escala. A Turquia já realizou incursões no território iraquiano sem a aprovação do Parlamento, a última maior incursão foi em 1997.

A opinião pública turca, segundo a Associated Press, pode impulsionar o Parlamento a aprovar rapidamente a medida. Caso seja aprovada, os militares podem lançar uma operação imediatamente ou esperar e ver se os Estados Unidos e seus aliados, motivados pela ação turca, decidem realizar uma ação na região.

Curdos

Parte dos territórios da Turquia e do Iraque pertencem à uma área chamada de Curdistão, que possui cerca de 530 mil quilômetros quadrados e também abrange partes da Síria, Azerbaijão e Armênia. No Curdistão, a maioria da população é curda (grupo étnico não-árabe).

Burhan Ozbilici/AP
Tanques turcos se dirigem para região de fronteira com o Iraque nesta terça-feira
Tanques turcos se dirigem para região de fronteira com o Iraque nesta terça-feira

Os curdos se consideram o maior grupo étnico sem Estado do mundo e desde 1984, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão reivindica um território autônomo. A Turquia é um dos países no qual o PKK mais atua e os turcos afirmam que os rebeldes se escondem no norte do Iraque, de maioria turca.

Os turcos afirmam que integrantes do PKK realizam atentados na Turquia e cruzam a fronteira para a região curda do Iraque. A Turquia acusa as autoridades iraquianas de tolerar as atividades do PKK e divulga que cerca de 3.000 rebeldes se escondem na região.

A Turquia suspeita que os curdos iraquianos queiram construir seu próprio Estado, uma iniciativa que poderia fomentar o separatismo na região curda da Turquia, segundo a Reuters.

Nos últimos dez dias, mais de 20 pessoas --entre soldados e civis-- foram mortos no sudoeste da Turquia em ataques promovidos pelos rebeldes do PKK, grupo considerado terrorista pelos EUA e a União Européia.

No último domingo (7), um ataque matou 13 soldados perto da fronteira com o Iraque. Nesta segunda-feira, mais dois soldados morreram quando rebeldes do PKK emboscaram seus veículos, na Província de Sirnak. Na semana anterior, 12 pessoas, incluindo guardas de um vilarejo, morreram quando rebeldes do PKK interceptaram seu veículo na mesma Província.

O governo turco culpa os rebeldes pela morte de mais de 30 mil pessoas desde que o grupo começou sua campanha armada.

EUA

Os EUA afirmam que uma ação turca na região pode desestabilizar a área e provocar tensões. Os curdos, que dirigem sua região no norte do Iraque, prometem defender suas fronteiras.

O Departamento de Estados dos EUA alertou a Turquia contra qualquer movimento unilateral.

"Se eles têm um problema, precisam trabalhar juntos para resolver isto e eu não estou certo de que uma incursão unilateral é a maneira de fazê-lo", disse Sean McCormack, porta-voz do Departamento de Estados dos EUA.

"Nós nos reunimos, em público e de maneira privada, por muitos, muitos meses e a idéia é que é importante trabalhar em cooperação para resolver esta questão", afirmou o porta-voz.

Iraque

"Nós pedimos ao governo turco que exercite autocontrole e não transforme a região em um local instável", disse Jamal Abdullah, porta-voz do governo regional do Curdistão iraquiano.

"Ataques iriam ameaçar a estabilidade não apenas no Iraque, mas em toda a região [Oriente Médio]", afirmou Abdullah.

O governo central do Iraque também informou que a melhor maneira de lidar com os ataques é o acordo mais recente assinado entre os dois países.

Sob intensa pressão dos líderes dos curdos iraquianos, o primeiro-ministro do Iraque, Nouri al Maliki, se recusou a permitir que a Turquia enviasse militares para procurar rebeldes em um pacto de ação contra o terrorismo.

A Turquia informou em outras ocasiões que preferiria que os iraquianos e os americanos realizassem uma ofensiva contra o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

Duas incursões turcas na região, em 1995 e 1997, envolvendo contingentes de 35 mil e 50 mil militares, falharam em eliminar os rebeldes dos PKK nas montanhas do Iraque.

Com Associated Press e Reuters

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