Reunião entre Bush e dalai-lama é histórica, diz especialista
DANIELA LORETO
editora de Mundo da Folha Online
O encontro entre o presidente americano, George W. Bush, e o líder espiritual tibetano, o dalai-lama, é um evento histórico que visa mostrar que a questão tibetana é relevante para os Estados Unidos, na opinião de Tashi Rabgey, diretora do Programa de Estudos Tibetanos Contemporâneos da Universidade da Virgínia.
"É um encontro histórico, que ocorre em um momento significativo para a China, durante o Congresso do Partido Comunista. Se forem levadas em conta a reunião e a medalha que será dada pelo Congresso [dos EUA], conclui-se que o Tibete é um assunto importante para o governo americano", afirmou a pesquisadora em entrevista por telefone à Folha Online.
| Yuri Gripas/Reuters |
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| Membros da comunidade tibetana entregam tradicional doce ao dalai-lama nos EUA |
Bush recebeu o dalai-lama em uma reunião privada hoje na Casa Branca, apesar da desaprovação pública da China.
Autoridades chinesas pediram que tanto a reunião com Bush quanto a cerimônia de entrega da Medalha de Ouro --prevista para ocorrer amanhã no Congresso-- fossem canceladas, e disseram que tais eventos poderão prejudicar as relações entre China e Estados Unidos.
O presidente deve participar nesta quarta-feira do evento no Capitólio, marcando a primeira vez que um líder americano será visto publicamente ao lado do dalai-lama.
Para Rabgey, a decisão de Bush de receber o líder religioso, apesar da oposição da China, visa "reforçar o comprometimento" da atual administração americana com a questão tibetana.
"Anteriormente, esse compromisso era mais ambíguo. Agora, acho que a intenção [de Bush] é deixar explícito que há interesse do governo dos EUA no Tibete", afirma a estudiosa.
"Estamos furiosos", disse o líder do Partido Comunista, Zhang Qingli, na China. "Se o dalai-lama pode receber tal homenagem, não há justiça nem pessoas de bem no mundo".
O porta-voz da Embaixada chinês em Washington, Wang Baodong, disse que seu país está "muito insatisfeito"pelo fato de os EUA terem "ignorado" seus pedidos e decidido ir por esse "caminho equivocado". "Tais medidas não são boas para as relações entre EUA e China".
Popularidade
O dalai-lama é bastante popular no Tibete, que a China domina desde que forças comunistas invadiram o país, em 1951. Ele mora na Índia desde que deixou sua casa na região do Himalaia em 1959, em meio a uma rebelião fracassada contra o dominío chinês.
| AP |
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| Medalha que será recebida pelo dalai-lama durante cerimônia no Congresso amanhã |
Embora seja considerado uma autoridade moral em grande parte do mundo, Pequim rejeita o Prêmio Nobel da Paz que ele ganhou em 1989, e o acusa de tentar "atacar a soberania chinesa" ao defender publicamente a independência do Tibete.
Ao retornar hoje a seu hotel em Washington, ele conversou com jornalistas e afirmou que o encontro com Bush foi como a "reunião de uma única família". "Naturalmente, ele mostrou sua preocupação com o Tibete, e me perguntou sobre a situação lá", afirmou o religioso.
Questionado a respeito da oposição da China à sua visita aos EUA, ele se demonstrou despreocupado: "Isso sempre acontece", disse apenas o dalai-lama.
Incerteza política
De acordo com Rabgey, o principal motivo para a rejeição chinesa à visita do líder tibetano é o clima de incerteza vivido internamente no país. A visita do dalai-lama aos EUA ocorre no mesmo momento em que o Partido Comunista chinês realiza um importante congresso.
"Este é um momento incerto para a China, eles estão passando por um período de transformação política. Eu acho que dar um foco explícito dado a uma questão específica [a tibetana] que eles precisam enfrentar os coloca em uma posição delicada, porque são forçados a lidar com algo que não estão preparados neste momento de transição".
Para a especialista, a China busca, neste momento, "vislumbrar como será a divisão de poder na próxima década" no país. "Neste contexto político, ter o foco global em um aspecto que eles não priorizam, como o do Tibete, os incomoda bastante", afirma Rabgey.
No entanto, ela diz acreditar que nenhum dos lados está totalmente alheio à questão. "Do lado chinês, percebe-se que há uma tentativa de evitar a questão tibetana, que os EUA supostamente defendem, mas, se pensarmos que eles receberam enviados do dalai-lama nos últimos anos, não acho que nenhum dos lados esteja se ausentando totalmente do diálogo".
"Eu diria que a China está aberta a conversas, mas qual será o resultado disso? Cada um dos lados espera algo muito diferente. Isso não quer dizer que haja um consenso do ponto de vista político, mas há algo com o que todos estão comprometidos, que é o diálogo", diz.
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