Paquistão corre risco de virar "novo Iraque", diz professor
DANIELA LORETO
editora de Mundo da Folha Online
O Paquistão corre o risco de passar a viver uma situação política semelhante às que ocorrem no Iraque ou no Afeganistão, caso não se tomem medidas rápidas para instaurar uma democracia legítima no país, afirmou Gowher Rizvi, especialista em política do sudeste asiático e professor da Universidade de Harvard (EUA), em entrevista exclusiva à Folha Online nesta sexta-feira.
"O que vem sendo descrito como um processo democrático não é um processo verdadeiro. O grande desafio para o Paquistão é realizar eleições justas e livres, com a participação de todos os partidos. Se isso não ocorrer, o país poderá se tornar um novo Iraque ou Afeganistão, onde instituiu-se uma democracia sem qualquer legitimidade popular", diz.
| Kamran Jebreili/AP |
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| Para estudioso de Harvard, retorno de ex-premiê Bhutto (foto) é passo controverso |
Para o estudioso, o retorno da ex-premiê Benazir Bhutto ao país é um passo bastante controverso. "Sua volta não é resultado de uma mobilização popular. Por isso, muitos a vêem como parte de um acordo político entre ela e o presidente, o general Pervez Musharraf."
Bhutto, que está de volta ao Paquistão após nove anos no exílio, escapou ilesa de um atentado contra seu comboio, que matou 136 nesta quinta-feira. Após a ação, ela não culpou o governo, mas pediu uma investigação. Ela também se queixou de falhas da segurança durante o percurso.
A ex-premiê --que governou o país entre 1988 e 1996-- deixou o Paquistão em 1999, após sofrer acusações de corrupção. Seu retorno ocorreu em um período de instabilidade política.
De acordo com o professor de Harvard, não está claro para a maioria dos paquistaneses se ela pretende restaurar a democracia ou dividir o poder com Musharraf. "Se ela se aliar ao Exército, sua legitimidade ficará seriamente abalada. Caso ela tenha retornado para restaurar a democracia, terão que ser realizadas eleições gerais o quanto antes", explica ele.
Nesse caso, segundo Rizvi, seu futuro político dependerá da situação do [também ex-premiê] Nawaz Sharif, que voltou para o Paquistão recentemente de um exílio de sete anos na Arábia Saudita, mas foi deportado poucas horas depois.
"Tudo depende se Sharif e seu partido poderá retornar ao país e concorrer às eleições de forma livre. Se isso não acontecer, todo o chamado processo democrático fica comprometido".
O especialista se mostra cético em relação ao sucesso do acordo político. "Bhutto é muito ligada ao poder. Ela já tentou, em outras ocasiões, criar um equilíbrio entre o Exército e o governo civil, mas não deu certo. Não tenho muitas esperanças de que dê certo dessa vez".
Atentado
Na opinião do estudioso, há "muitos responsáveis possíveis" por trás dos atentados de ontem contra Bhutto. Nenhum grupo reivindicou a responsabilidade, mas autoridades apontaram terroristas das regiões tribais na fronteira com o Afeganistão como os responsáveis.
| B.K.Bangash/AP |
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| O caminhão que levava a ex-premiê, ao fundo, após as explosões desta quinta-feira |
"A possibilidade mais provável é que tenham sido grupos terroristas islâmicos. É possível também que tenham sido grupos políticos rivais, como o MQM (Muttahida Quami Movement)", afirma.
Elliot Tepper, especialista em estudos asiáticos da Universidade de Carleton, em Ottawa (Canadá), tem a mesma opinião. "É plausível pensar que tenha sido o MQM, que é o principal opositor do PPP (Partido do Povo do Paquistão). A própria Bhutto, antes de voltar ao Paquistão, afirmou que havia elementos no governo que se opunham ao seu retorno.
"Há também a possibilidade de ter sido uma ação da [rede terrorista] Al Qaeda ou do Taleban [movimento radical islâmico que dominava 90% do território afegão até 2001, quando foi derrubado pela coalizão liderada pelos Estados Unidos] ", acrescenta.
Guerra contra o terror
Tepper também levanta dúvidas a respeito da viabilidade do pacto entre Bhutto e Musharraf. "Não acredito que o acordo traga estabilidade, mas é uma solução prática para o momento".
Para ele, o acordo foi encorajado pelos Estados Unidos, já que a chamada "guerra contra o terror" empreendida pelo governo de George W. Bush tem muita ligação com o Paquistão.
"Na visão americana, a estabilidade de um governo militar de Musharraf combinado com o secularismo de Bhutto, que se coloca explicitamente contra o extremismo, seria a melhor maneira de combater o radicalismo islâmico", afirma o especialista.
"O Paquistão é mundialmente visto como um refúgio para a Al Qaeda e o Taleban, que se reagrupam no país e agem no Afeganistão. Musharraf vem perdendo poder político, e precisa de aliados para se manter no poder. O acordo parece a melhor solução para todos os lados".
Rizvi também vê a volta da ex-premiê com um símbolo do acirramento do combate ao extremismo. "Bhutto se posiciona como uma líder muçulmana moderada, que estaria comprometida a lutar contra o terrorismos. Muitos no Ocidente vêem em sua volta um indício de que o combate à Al Qaeda se tornará mais intenso no Paquistão", diz ele.
Prisão de Bhutto
Ambos lembram que, mesmo que as acusações de corrupção tenham sido retiradas pelo governo, a ex-premiê corre risco de ser presa, já que a Justiça ainda não se pronunciou.
Segundo Rizvi, isso pode ocorrer caso a Suprema Corte de Justiça decida que o governo não tem poder para retirar as acusações. "Quando deixou o país, ela fugiu para não ser detida. Mas não acredito que isso ocorrerá, porque livrá-la faz parte do acordo para que voltasse".
Para Tepper, a Justiça do Paquistão "não é subserviente a nenhum dos lados, e ainda não decidiu se tal acordo é legal". "Se a Justiça não aprovar o pacto, ele pode cair", diz.
O analista diz acreditar que o próprio Exército paquistanês, se mudar de idéia, pode conseguir um meio de restaurar as acusações contra Bhutto.
"No entanto, no momento, acho que é de interesse dos dois lados manter o pacto", afirma.
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