Parlamento iraquiano se divide sobre ameaça de ação turca
da Folha Online
Os deputados iraquianos não conseguiram chegar a um acordo neste sábado sobre a atitude a tomar ante a ameaça de incursão turca na região autônoma do Curdistão (norte).
"O Parlamento não chegou a um acordo sobre uma moção definitiva", disse à imprensa o presidente da câmara, Mahmud al Machadani. Os grupos parlamentares se reunirão de novo em breve para tentar chegar a um consenso.
O debate no Parlamento iraquiano aconteceu um dia depois de o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, ter se declarado disposto a conduzir uma operação militar conjunta com o exército iraquiano contra os rebeldes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) no norte do Iraque.
Na quarta-feira (17), o governo turco recebeu a autorização do Parlamento --válida por um ano --para conduzir uma ação militar contra as bases do PKK no norte do Iraque.
De acordo com Ancara, cerca de 3.500 combatentes do PKK estão instalados no Curdistão iraquiano.
A Turquia também acusa os curdos iraquianos de darem apoio logístico e militar ao PKK, um movimento separatista ativo desde 1984, considerado como organização terrorista pelos EUA, Turquia e União Européia.
Em sua formulação inicial, a moção debatida em Bagdá frisava que "o Parlamento rejeita as ameaças turcas, que não ajudam a melhorar as relações de boa vizinhança entre os dois países".
Tom agressivo
De acordo com alguns deputados, o tom da moção foi considerado agressivo demais por vários membros do Parlamento, que temem exacerbar as tensões com a Turquia.
Na moção em debate, o Parlamento iraquiano também conclama as autoridades turcas a um diálogo direto com Bagdá.
O governo do premiê iraquiano Nuri al Maliki, que tem pouca influência política e militar no Curdistão, afirmou seu desejo de erradicar o PKK do norte do país.
Defesa preparada
Na sexta-feira (19), as autoridades autônomas do Curdistão iraquiano se disseram prontas para responder a qualquer ataque militar em seu território, em uma advertência implícita à Turquia mas também a "outros protagonistas da crise", em alusão ao governo central de Bagdá
Em comunicado, o Executivo regional iraquiano afirmou que "o território do Curdistão está pronto para defender sua experiência democrática e a dignidade de seu povo em caso de um ataque turco".
Desde que passou para a proteção americana em 1991, depois da guerra do Golfo, o Curdistão iraquiano, dotado de um governo e de um Parlamento próprios, se distanciou do Estado central iraquiano.
A região prosperou economicamente, e sua segurança é garantida por cerca de 100 mil combatentes curdos iraquianos equipados com 2.000 veículos blindados.
O Curdistão iraquiano, no norte do país, é composto por três Províncias --Suleimaniya, Dahuk e Erbil-- e tem 5 milhões de habitantes.
Manifestações
Milhares curdos do Curdistão iraquiano foram às ruas em protesto contra a resolução do Parlamento turco.
A manifestação ocorreu na cidade de Zahu, localizada na Província de Dahuk, segundo a agência de notícias independente iraquiana Aswat al Iraq.
"A resolução da Câmara turca representa uma violação à soberania do Iraque e beneficia os terroristas que operam dentro dele, já que gerará um caos", afirmou à Aswat al Iraq Muchir Mohammed Bashir, responsável da União de Estudantes do Curdistão, de Zahu.
O dirigente estudantil estimulou o povo turco a pressionar o governo para que desista de lançar uma operação bélica contra a região curda iraquiana.
Os participantes da manifestação entregaram ao governador de Zahu, Hussein Yalati, um documento no qual pedem que dialogue com Ancara.
Fontes da união estudantil anteciparam que oito grupos civis curdos organizarão outra grande manifestação de protesto na mesma cidade.
Na quinta-feira (18) milhares de turcos já haviam saído às ruas de Dahuk para protestar contra a decisão do Parlamento turco.
Com France Presse, Associated Press e France Presse
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