Políticas de Kirchner garantem mandato de primeira-dama argentina
FERNANDO SERPONE
da Folha Online
As políticas de criação de empregos e crescimento econômico do presidente Néstor Kirchner são a razão principal da liderança da senadora e primeira-dama, Cristina Kirchner, na corrida presidencial argentina, na opinião do especialista em economia política da América Latina e Europa Ocidental, Sebastián Etchemendy.
"É um governo que conseguiu manter um crescimento econômico alto, e realizou avanços em políticas de direitos humanos e de emprego", disse Etchemendy, professor de ciências politicas da Universidad Torcuato di Tela, em Buenos Aires, em entrevista por telefone à Folha Online.
Para o estudioso, a inflação e o déficit energético não foram capazes de retirar o apoio dos empresários e da população ao casal Kirchner, que deve morar por mais cinco anos na Casa Rosada, onde estão desde 2003.
Etchemedy falou também sobre a relação entre Néstor e o presidente da Venezuela Hugo Chávez. A aliança, segundo ele, não é "para enfrentar os EUA, mas para obter benefícios energéticos".
Leia a íntegra da entrevista concedida à Folha Online.
Folha Online - O índice de inflação tem sido manipulado pelo Indec (IBGE argentino)?
Sebastián Etchemendy- É certo que há uma intervenção do organismo de controle de preços, mas a intervenção jogou contra o governo --contribuiu para incertezas e à espiral da inflação. A oposição provavelmente exagera no nível de inflação. O governo aumentou o consumo, há superávit fiscal e entrada de capitais, portanto não há muitas condições para que a inflação dispare.
Folha Online - A população em geral tem conhecimento desse fato? E por que seguem apoiando o casal Kirchner?
Etchemendy- A população sabe que os índices são manipulados, mas isso não é algo que diminua o apoio ao casal Kirchner, pois é um governo que conseguiu manter um crescimento econômico alto, e realizou avanços em políticas de direitos humanos e de emprego, e a população o vê como um erro (manipulação) mas é um tema "técnico", que não chega à população em geral.
Folha Online - O déficit energético não está em questão?
Etchemendy- Não, porque diminuiu. E também, o momento mais duro da crise energética foi no inverno. Agora passou, então é um problema para o futuro.
Folha Online - Mas o déficit de energia não influencia no apoio dos empresários?
Etchemendy- Não, porque há outras politicas que os favorecem. Basicamente, o câmbio bastante desvalorizado, por exemplo frente ao real e frente ao dólar, e é um governo que conseguiu conter ao menos até 2007 as expectativas de aumento de salário sindical, e os empresários estão contentes com isso.
Folha Online - O sr. crê que a politica de Néstor Kirchner é assistencialista?
Etchemendy- Não, ele não expandiu tanto as políticas universais como fez Lula, por exemplo, com o bolsa família.
Folha Online - Por que a política externa ficou praticamente fora das campanhas políticas?
Etchemendy- Ela ficou à margem --as questões ficaram em torno de Hugo Chávez, mas sim, Kirchner foi bastante moderado. Se aproximou de Chávez, mas está perto dos EUA em alguns temas como terrorismo, não dando origem a muitas controvérsias.
Folha Online - Por que a população está tão desinteressada?
Etchemendy- Há bastante apatia. Há muita diferença entre a hipotética ganhadora (Cristina Kirchner) e o resto. Todos sabem que Cristina vai ganhar, o que fomenta a apatia, já que é uma eleição pouco disputada.
Folha Online - E por que Cristina Kirchner está tão a frente dos outros candidatos?
Etchemendy- Pelo o que comentei antes. A Argentina está crescendo muito mais do que o Brasil, por exemplo. Kirchner apostou em uma economia de mais crescimento e mais consumo, diferente de Lula, que apostou em relações melhores com o setor financeiro e em um crescimento mais lento.
Isso, somado a alguns avanços nos direitos humanos, na criação de empregos, política trabalhista. Há um crescimento econômico sustentável hoje, ainda mais vindo de uma crise tão forte como em 2002.
Folha Online - Você crê que ela vai ganhar no primeiro turno?
Etchemendy- Não tenho certeza, mas é muito possível.
Folha Online - Por que Lavagna, considerado o salvador da crise de 2002, tem tão baixas intenções de voto?
Etchemendy- É uma boa pergunta. Dizem que ele fez más alianças políticas, porque se aliou a partidos muito desprestigiados, como a facção do peronismo da Província de Buenos Aires, anti-kirchnerista, e ao radicalismo. E isso não o ajuda. A classe política está muito desprestigiada, e ele se aliou a dois dos grupos mais desprestigiados. Seu principal apoio é a União Cívica Radical (UCR), que tem muito poucos votos, e que muitos vêem como o protagonista da crise de 2000. E depois, o peronismo da província de Buenos Aires é aliado ao ex-presidente [Eduardo] Duhalde (2002-2003).
Folha Online - O sr. acredita que Cristina irá seguir as mesmas políticas de Néstor?
Etchemendy- Sim, deve ser bem semelhante.
Folha Online - Aparentemente os programas de governo são muito superficiais...
Etchemendy- Sim, mas não creio que sejam mais superficiais que de outras vezes. Você acredita que no Brasil não são superficiais? Creio que é assim em toda a América Latina. As campanhas são cada vez menos em cima de programas.
Folha Online - Tenho a impressão de que a campanha foi Cristina dizendo "vou fazer o mesmo que Néstor", e os outros, simplesmente, "vamos atacar Cristina". O sr. concorda?
Etchemendy- Sim, Cristina fala de alguns temas pendentes, como o trabalho informal, ou a educação, mas é como você disse. Mas isso não quer dizer que não há diferenças [entre os candidatos]. Há algumas diferenças-chave --as retenções das taxas de exportação, as "export taxes", por exemplo. Este governo tem sido muito pró-retenções, avançou muito contra a igreja no plano da reprodução, por exemplo. Estão em jogo as retenções e o controle da natalidade. É certo que não há programas, mas há diferenças ideológicas.
Folha Online - O sr. crê que Cristina vai manter a aproximação que Kirchner tem com Chávez?
Etchemendy- Creio que sim, pois é uma aproximação mais econômica do que política. Ele não tem aliança com o Chávez para enfrentar os EUA, mas para obter benefícios energéticos.
Folha Online - O sr. crê que a Venezuela é o país que pode tirar a Argentina do déficit energético?
Etchemendy- A Argentina comprou combustível da Venezuela nos últimos anos, e o Estado argentino perdeu nos anos 90 muita capacidade no plano energético. A Argentina não tem uma Petrobrás. Aqui, a principal petroleira está privatizada, comprada pela Repsol e creio que o governo vê a aliança com a Venezuela como uma forma de recuperar a capacidade energética do Estado frente ao mercado. Não sabemos se irá conseguir.
Kirchner criou uma empresa chamada Enarsa, e creio que a aliança com Chávez tem dividendos concretos que é a exportação de certos tipos de combustíveis [para a Argentina] e o apoio da PDVSA para recriar uma empresa de hidrocarburetos argentina, com essa idéia meio nacionalista que tem Kirchner.
Acompanhe as notícias em seu celular: digite o endereço wap.folha.com.br
Leia mais
- Oposição se une para fazer apuração paralela na Argentina
- Conheça os principais candidatos na disputa das eleições argentinas
- Fragmentação partidária reduz chances da oposição na Argentina
- Liderança de Cristina reflete opção por continuidade, dizem analistas
- Cristina Kirchner vencerá no 1º turno na Argentina, diz pesquisa
- Livro explica mudanças que marketing eleitoral trouxe às eleições; leia capítulo
Especial

