Mundo
28/10/2007 - 14h57

Argentinos votam com apatia e desconfiados de um "presidente de saia"

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da France Presse, em Buenos Aires

Os argentinos foram às urnas neste domingo (28) mergulhados num total clima de apatia e desinteresse político, e principalmente grande desconfiança diante da possibilidade de que uma mulher venha a guiar os destinos do país nos próximos quatro anos.

"Prefiro que um homem governe. Que seriedade a Argentina vai ter diante do mundo se tiver um presidente que use saia?", questiona José, 84, numa crítica explícita à candidata oficialista Cristina Fernández de Kirchner e à liberal-cristã Elisa Carrió, que encabeçam a disputa pela presidência.

Pouco depois de abertas as seções eleitorais, às 8h da manhã, as ruas portenhas permaneciam quase desertas apesar do sol radiante de primavera.

"Não há uma alma sequer. Ninguém quer ser o primeiro a votar por medo de ser arrastado para presidir a mesa", afirmou Enrique, 52, um camelô que postou sua carrocinha de churros perto de um centro de votação em Caballito, um bairro de classe média da capital.

A justiça eleitoral teve de convocar milhares de pessoas de última hora para garantir a abertura das quase 6 mil mesas de votação da cidade de Buenos Aires ante à devolução em massa de telegramas dos convocados a mesários.

Apesar disso, muitos centros de votação tiveram problemas para conseguir pessoal suficiente.
"Sejamos francos, ninguém se importa com estas eleições; se não fosse obrigatório, eu não votaria", admite Jonathan, um jornaleiro de 26 anos em um bairro da periferia sul da capital.

Para Jonathan "tanto faz que o próximo presidente seja homem ou mulher porque isso não vai mudar nada".

"Eu vou votar na Cristina porque acho que ela tem mais chances de terminar os quatro anos de mandato e porque estou certo que, se Carrió ganhar, vai voltar o tumulto na Praça de Maio, como aconteceu na época do Fernándo de la Rúa", acrescentou, referindo-se à pior crise econômica e social do país registrada em dezembro de 2001.

Na mão oposta, Natália, 26, votou em Carrió "para frear Cristina".

"Se o marido dela (presidente Néstor Kirchner) não conseguiu resolver os problemas que temos, por que ela vai resolver?", argumenta.

Para ela, a candidata oficial "sempre governa à sombra de seu marido".

Eugenia, vendedora de um armazém de Pompeya, tem esperanças em relação à primeira-dama. "Em casa sempre se falou bem do Perón, pois vou votar nela, por que ela é peronista, não é?".

Cecilia, uma estudante de 23 anos, não acredita que os homens vão votar numa mulher, como apontam as pesquisas. "Os argentinos são muito machistas".

Para Estela, militante de 55 anos e fiscal da Frente para a Vitória (FV), o partido no poder, o desinteresse do eleitorado é "responsabilidade dos partidos políticos".

"Houve ausência de debates, os políticos não informaram suas propostas e as pessoas estão desorientadas, não sabem em quem votar ou por que têm que votar", explica.

Mauricio, 18, caminha despreocupadamente, ouvindo seu MP3, pelo centro da cidade, e encolhe os ombros ante à pergunta da repórter.

"Acho que não tenho que votar, não recebi a carta avisando", afirmou, achando, de maneira equivocada, que deveria ser convocado para votar, um bom exemplo do desinteresse que marca essas eleições argentinas.

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