Mundo
01/11/2007 - 08h57

Cristina terá mais desafios que o marido na Presidência argentina

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FERNANDO SERPONE
da Folha Online

Com 45% dos votos em 1º turno, maioria no Congresso e 19 das 24 Províncias governadas por aliados, Cristina Kirchner assumirá a Presidência argentina, no dia 10 de dezembro, mais fortalecida do que seu marido, Néstor Kirchner, quando assumiu o cargo.

Com 22% dos votos, ele tornou-se presidente em 2003, em um momento em que ainda se esforçava para sair de uma sucessão de graves crises econômicas. Apesar do cenário favorável, Cristina deverá enfrentar maiores desafios que seu marido, na opinião de Rogelio Núñez, analista político do instituto independente Infolatam (Información y Análisis de América Latina), da Espanha.

Enrique Marcarian/Reuters
Cristina Kirchner deve enfrentar mais desafios que o marido, diz analista
Cristina Kirchner deve enfrentar mais desafios que o marido, diz analista

"Cristina terá maiores dificuldades do que teve Néstor Kirchner porque ela terá que tomar decisões sobre alguns problemas estruturais", afirmou Núñez em entrevista por telefone à Folha Online nesta terça-feira (30), de Madri.

Entre os desafios estariam a inflação, o déficit energético, os gastos públicos e o endividamento das Províncias.

De acordo com o analista, o casal tem um projeto "kirchnerista", "de acúmulo e manutenção de poder", sem uma ideologia clara. "Neste dilema em que se encontra a América Latina, que eu chamo de esquerda reformista e esquerda radical, o kirchnerismo vai um pouco por conta própria."

Para Núñez, a oposição foi um "autêntico desastre" nessas eleições na Argentina. Ele apontou os candidatos que podem representar ameaça para o casal daqui em diante. "Creio que o homem do futuro é Maurício Macri, na centro-direita. Para a esquerda, seria o governador de Santa Fé, Hermes Binner."

Leia a íntegra da entrevista concedida à Folha Online:

Folha Online - O sr. crê em mudanças significativas na política interna ou externa?

Rogelio Núñez - Não, em nenhuma das duas. O lema [da campanha de Cristina] é a mudança dentro da continuidade. O voto para Cristina foi um voto pela continuidade --45% da população argentina está contente com as políticas de Néstor Kirchner e o que não querem é que mude.

Folha Online - O sr. acha que Cristina pode tentar aumentar seu apoio entre as classes mais altas?

Núñez - Sim. Há que se reconhecer que foi um êxito eleitoral, mas também que há profundas lacunas naqueles que não estão sendo atingidos --como vocês dizem--, as classes médias. Creio que o governo de Cristina terá maiores dificuldades do que teve Néstor Kirchner, porque ela terá que tomar decisões sobre alguns problemas estruturais.

Em primeiro lugar há o tema da inflação, que sem dúvida é um dos grandes mal-estar neste momento entre as classes médias. Uma coisa é o que as medições oficiais dão como inflação, e outra é a inflação real, que está afetando as classes médias. Cristina terá que assumir uma série de políticas impopulares: o controle da inflação e uma política muito importante sobre as tarifas dos serviços públicos, que estão congeladas e não estão de acordo com o custo real.

Todas essas medidas ela terá que tomar, senão a economia, que neste momento cresce como uma locomotiva, começará a ressentir-se. E um tema muito importante é o da dívida das Províncias, que têm poucos recursos. Esse é um problema estrutural muito grave.

Folha Online - E há também a questão energética, não?

Núñez - Sim. Em entrevista, Cristina disse que o tema energético na América Latina é de capital importante. Não há um reinvestimento na indústria petroleira, nem investimentos para encontrar fontes alternativas ao gás, o que torna a Argentina cada vez mais dependente da Bolívia, o que é um perigo, dada a situação atual do país.

Folha Online - O sociólogo argentino Torcuato di Tella disse acreditar que o casal Kirchner está criando a social-democracia na Argentina nos moldes da social-democracia chilena. O sr. concorda?

Núñez - Não, porque são modelos completamente diferentes. No Chile, os partidos --sobretudo o Partido Socialista--, têm uma vasta tradição, que remonta aos anos 1930, de ideologias sempre socialista, marxista e social-democrata, no último período.

O peronismo é algo diferente, foi de esquerda, de ultra-direita --mais que um partido, é um movimento, que contém em si diferentes tendências. Agora, Kirchner quer representar uma social-democracia, ou um peronismo de esquerda, mas Menem também era peronista e defensor das políticas neo-liberais.

Para resumir: o projeto de Néstor e Cristina Kirchner é um projeto "kirchnerista", não um projeto social-democrata. É um projeto de acúmulo e manutenção de poder, não de uma ideologia assentada e clara, como pode ser a ideologia social-democrata.

Folha Online - Então não é possível classificar o casal em uma corrente ideológica muito específica?

Núñez - Não. Creio que neste dilema em que se encontra a América Latina, que eu chamo de esquerda reformista e esquerda radical, o kirchnerismo vai um pouco por conta própria. Em algumas ocasiões, se mostra muito próximo a Hugo Chávez, em outras, se mostra mais perto do que seria (a presidente do Chile, Michelle) Bachelet, (o ex-presidente chileno) Ricardo Lagos.

Mas segue muito livremente. O kirchnerismo --tanto Néstor quanto Cristina -- não fortaleceu as instituições. Esse é um grande problema da Argentina, um problema histórico. O país não tem instituições fortes e confiáveis.

No Chile há instituições --na Argentina, não. Por não haver, não há nem partidos. A União Cívica Radical (UCR), que é um partido centenário, praticamente desapareceu. O peronismo, realmente como tal, não se apresentou nesta eleição, e os novos partidos não irão durar mais de cinco anos.

Folha Online - Mas podemos dizer que o casal é populista?

Núñez - O termo populista é muito ambíguo, muito manipulado e pouco explícito. O casal tem gestos populistas. Na realidade, [o populismo] é algo muito inerente ao presidentes da América latina. [O casal] não chega ao extremo de um Hugo Chávez, Rafael Correa ou Evo Morales. É um "populismo light", digamos.

Folha Online - Há a expectativa de que o governo mude suas políticas econômicas de imediato, para tentar conter a inflação antes que Cristina assuma?

Núñez - Sim. Hoje (30), o "La Nación" publicou que Néstor irá tentar tomar uma série de medidas ligeiramente impopulares antes da chegada de sua mulher à Presidência no dia 10 de dezembro --entre outras coisas, cortar o gasto público, que como costuma ocorrer em ano eleitoral, se multiplicou, e tentar estabelecer um contato com o FMI (Fundo Monetário Internacional), que, como se sabe, as relações têm sido bastante frias, sobretudo durante o período de Rodrigo Rato.

O novo presidente, [Dominique] Strauss-Khan parece querer melhores relações tanto com a Argentina quanto com Cristina Kirchner. Mas a raiz do problema, que é a inflação e as tarifas, [Cristina] terá que assumir. Não creio que Néstor tentará resolvê-los no mês e meio que lhe resta --são temas que ela terá que assumir por completo.

Folha Online - Há indícios de irregularidades na eleição?

Núñez - Não. A eleição foi malfeita, não foi realizada com os meios modernos disponíveis. Não houve fraudes ou corrupção, mas foi pouco eficiente. O ministro do Interior havia anunciado que teria voto eletrônico nessa eleição. Não só não teve, como faltou cédulas, fiscais. Mas a vitória foi tão espetacular que não havia motivos para fraude ou corrupção.

A modernização do sistema eleitoral argentino também é um tema que deveria ser assumido pelo presidente, mas há uma correlação histórica entre cada governo argentino.

Cada governo chegou ao poder prometendo a reforma do sistema político. Nenhum a fez até agora. O mais perto de uma reforma foi o governo de Carlos Menem (1989-1999), em 1994, com um único objetivo: levá-lo à reeleição. Mas reformas políticas para modernizar o sistema e deixá-lo mais claro não foram realizadas.

E Cristina e Néstor tem seu projeto kirchnerista de manter-se no poder. Portanto, não creio que assumam qualquer tipo de reforma política que signifique maior controle sobre o Executivo, maior transparência, pois vai contra os seus planos.

Folha Online - O sr. crê que a oposição saiu mais fragilizada ou fortalecida? Elisa Carrió (segundo lugar, com 23%) teve quase 10% de votos a mais do que na eleição de 2003.

Núñez - A oposição foi um autêntico desastre nessas eleições. Elisa Carrió fez uma eleição muito boa, ainda que tenha ficado com 22% de votos a menos que Cristina. Elisa é uma pessoa popular, que cai bem, sempre com um discurso republicano, com os valores de assistência republicanos. Mas não tem um partido que a respalde, uma presença nacional, tem aliados muito dispersos. Teve problemas com a sua própria organização e com seu grande aliado, que é o Partido Socialista, que tem um candidato, o governador de Santa Fé, Hermes Binner, que é o projeto de futuro que tem esse partido.

Há também um grande personagem que não se apresentou nessas eleições, mas que terá grande projeção no futuro, que é Maurício Macri prefeito eleito de Buenos Aires, que tem uma quantidade de votos enorme (Macri, também presidente do Boca Juniors, foi eleito com 61% dos votos e é visto como a principal figura de oposição a Néstor Kirchner).

Nestas eleições, Macri se equivocou. Não apoiou seu aliado de sempre, Ricardo López Murphy, que se saiu muito mal, com quase 10% dos votos, e os candidatos que apoiou apenas conseguiram se candidatar. Macri se equivocou, mas ainda faltam quatro anos no comando da capital, que creio que podem ser bons. Creio que o homem do futuro é Maurício Macri, na centro-direita. Para a esquerda, seria o governador de Santa Fé, Hermes Binner.

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